quarta-feira, 18 de maio de 2016

Perspectiva do bem de consumo Padre Cícero - Por Michael M. Marques

Partindo da premissa dos estudos da cultura material, que trabalham através da perspectiva dos objetos materiais, há uma tentativa de compreender, de forma mais profunda, os signos e significados do consumo. Tal estudo tem ajudado a demonstrar como o mundo é provido de objetos materiais que contribuem para a sua constituição cultural e a refletem, como categorias culturais são materializadas[1]. (MACCKREN, 2007). Perceber a materialidade não distante da humanidade, sobretudo, teorizar e analisar essas relações de consumo enquanto elementos de identificação e demonstração diversificada de consumo sobre uma mesma coisa se faz necessário para a busca de uma análise profunda e complexa. 

É importante frisar a dificuldade em buscar uma identidade social a partir do consumo, devido à relação entre objetos e mercadorias, e as abordagens que enfatizam seus usos como marcadores e constituintes de um processo cultural que se constrói articulando muitos atores, construindo e consolidando sentidos, apresentando importante tradição de estudos na antropologia recente, especialmente aqueles que analisam o protagonismo dos consumidores a partir da aquisição de bens materiais.

Busco perceber a importância do consumo da estátua do Padre Cícero para o desenvolvimento do comércio local como representação simbólica e mitológica, na noção de habitus[2] proposta por Bourdieu. Dentro da teoria do poder simbólico, o habitus é o elemento que articula “os sistemas simbólicos como estruturas estruturadas (passíveis de uma análise estrutural)” e as estruturas estruturantes, ou seja, a “concordância das subjetividades estruturantes” (BOURDIEU, 2005, p. 8). Tais estruturas estão presentes na construção histórica dos espaços social em Juazeiro do Norte, a partir do conceito do Bourdieu, como: mito, arte, língua, religião, ciência. Para Bourdieu (2009), os sistemas simbólicos são instrumentos de conhecimento e de comunicação só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados. Os símbolos são instrumentos de conhecimento e comunicação e eles tornam possível a reprodução da ordem social. Os símbolos são os instrumentos por excelência da integração social, eles tornam possível o consenso sobre o sentido do mundo social que contribui para a reprodução da ordem social: a integração lógica é a condição da integração moral.

Assim podemos dizer que em Juazeiro do Norte, acontece a elaboração do fato social total. (MAUSS, 2005), o conceito do fenômeno ou fato social total sugere que o objeto real das ciências sociais é o estudo da realidade social, ou seja, um conjunto de fenômenos que se produzem e reproduzem no interior de uma sociedade, designados como fenômenos sociais. Portanto podemos perceber que todas as dimensões do real social são peças de encaixe, e, apesar de cada ciência estudar a área que lhe compete, o fenômeno social é total e só é explicado completamente com a junção de todas as dimensões, nunca se esgotando completamente com o estudo de uma só ciência. Daí que possa dizer-se que, separadas as ciências estudam o que lhes compete e juntas complementam-se. O social é um todo, englobando diferentes tipos de relacionamento entre indivíduos e entre o mundo que os abrange. Como um fato social total (MAUSS, 2011), apresenta-se nos mais distintos e diversificados aspectos da vida social: econômicos, políticos, sociais, culturais, jurídicos, de direito, morais, religiosos, domésticos, infraestrutura e estéticos. É diante essas características apresentadas pelo fato social total que está localizado o consumo do bem, o Padre Cícero, na cidade de Juazeiro do Norte, por seus visitantes e citadinos.

Nesse sentido, podemos pensar o consumo a partir da perspectiva da identificação social, não podendo ser visto como uma ação coerente. Visto que a sociedade pós-moderna localiza-se dentro de uma dificuldade de identificar uma sistemática bem elaborada do consumo, do ato de consumir. Pois existem diferentes demandas, demandas contraditórias nos setores da vida. O consumo não é coerente, pois o mesmo lida com subjetividade que aponta para o indivíduo espontâneo, relacional e ativo. 

Desta forma, podemos pensar a prática de consumo não destituída em um vazio cultural. Elas estão inseridas em um espaço, um contexto, e são instruídas por lógicas sociais que dão sentido as práticas em determinados contextos. Não são ações voluntaristas, as mesmas tendem a identificar e estruturar a vida social, o cotidiano, mesmo em um mundo repleto de permanentes transformações. Elas (práticas de consumo) estão alocadas em um conjunto de oportunidades, que dificilmente serão mudadas. Essas escolhas por não serem voluntárias, irão variar dentro de uma variabilidade em que o campo social oferece. 

Obs: Este texto faz parte da construção da dissertação, cujo título é: ENTRE O TRECO E A CIDADE. ESTUDO ANTROPOLÓGICO SOBRE O CONSUMO DAS ESTÁTUAS DO PADRE CÍCERO EM JUAZEIRO DO NORTE-CE

Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 11 Ed. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 2007.
________________. A economia das trocas simbólicas. 3. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
________________. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70 LDA, 2011.
McCRACKEN, G. Cultura e Consumo: Uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. Revista de Administração de Empresas – RAE, v. 47, n. 1, p. 99-115, jan./mar. 2007. 
MACCRAKEN, Grant. Cultura e consumo: novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e atividades de consumo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
MILLER, Daniel. Consumo como cultura material. Horizontes Antropológicos, Ano 13, n. 28, 2007.

MILLER, Daniel. Treco, troços e coisas. Estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2013

[1] Vê mais em: McCRACKEN, G. Cultura e Consumo: Uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. Revista de Administração de Empresas – RAE, v. 47, n. 1, p. 99-115, jan./mar. 2007.

[2] De acordo com o autor, as estruturas sociais por si só não determinam a vida em sociedade como pretendiam os estruturalistas. A dimensão individual, o agente social – e daí decorre a importância do conceito de “habitus” reintroduzido por Bourdieu – não é uma simples consequência das determinações da estrutura social. Internalizamos regras e normas sociais, mas existem aspectos de nossas condutas que não são previsíveis. É como um jogo que sabemos as regras e o seu sentido, mas que também podemos improvisar. A noção de “habitus’ exprime, sobretudo, (...) a recusa a toda uma série de alternativas nas quais a ciência social se encerrou a da consciência (ou do sujeito) e do inconsciente, a do finalismo e do mecanismo”. (BOURDIEU, 1989, p.60).

O AUTOR
Professor da rede estadual de ensino do Ceará
Estudante do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)


Email: michaelmarques.cs@hotmail.com

quinta-feira, 3 de março de 2016

Carta de Reconciliação do Padre Cícero gera polêmica

A divulgação de uma notícia na imprensa segundo a qual três pesquisadores (Dr. Lauro Barreto, Pe. Neri Feitosa e o professor José Sávio Sampaio) contestam o conteúdo da carta sobre a reconciliação do Padre Cícero, divulgada no ano passado pela Diocese do Crato, está causando grande repercussão na imprensa e nas redes sociais. Abaixo transcrevemos um artigo na historiadora Anne Dumoulin, profunda conhecedora da história do Padre Cícero, o qual representa sua opinião abalizada sobre a polêmica em questão, contestando as argumentações dos pesquisadores. Em seguida transcrevemos artigo do escritor Paulo Machado que segue a linha dos três pesquisadores citados na matéria polêmica.

“A reconciliação da Igreja com Padre Cícero é claramente um reconhecimento que a opinião que a Igreja tinha sobre este sacerdote estava errada e a carta apresenta diversas virtudes do Padre até mesmo apresentando-o como um modelo para a nova evangelização, para uma Igreja em saída! Claro que como todo ser humano, Padre Cícero não foi privado de erros e falhas durante sua longa existência de 90 anos! O Cardeal não desvaloriza as pesquisas e a análise dos pontos de controversos! Ainda tem trabalhos, prezados pesquisadores que somos! Mas a carta é pastoral vai ao centro da questão que são os frutos bons da missão sacerdotal do Padre Cícero! Basta citar aqui as frases seguintes: " Sem dúvida alguma, Padre Cícero foi movido por um intenso amor pelos pobres e por uma inquebrantável confiança em Deus... Ele procurou agir segundo os ditames de sua consciência, em momentos e circunstâncias bastantes difíceis.... É necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero." 

Por favor... Um pouco mais de leitura teológica, esta vez, para reconhecer que a Igreja fez mais do que reabilitar (aliás, como reabilitar um falecido, reabilitar a celebrar a missa de novo? ) o Padre Cícero: ela, oficialmente, reavaliou e apreciou várias dimensões de sua vida como sacerdote... E não são poucas virtudes! Então, a Igreja não perdoou... Porque não tinha nada a perdoar... Tinha que corrigir uma visão errada e negativa que tinha do Padre Cícero, no passado! Ela não reabilitou Padre Cícero, pois as medidas disciplinarias são medidas que valem apenas neste mundo e não no Outro! A reconciliação com Padre Cícero é muito mais bonita, linda! Não se trata de beatificação, de canonização! O Papa fez um ato de JUSTIÇA, não somente em relação ao Padre Cícero mas também em relação aos seus romeiros tratados injustamente de fanáticos, ignorantes! Aliás, é a partir deles que o Papa está relendo a missão sacerdotal do Padrinho... A gente reconhece a árvore pelos seus frutos!”

Para entender a polêmica leia abaixo a notícia que a provocou.

Diocese de Crato, no Ceará, diz que cartas são provas do perdão a Padim Ciço, excomungado após "milagre da hóstia"

Uma polêmica e tanto agita os bastidores da Igreja Católica. Especialistas em processos canônicos contestam o alarde que a Diocese de Crato, no Ceará, a dez quilômetros de Juazeiro do Norte, vem fazendo em torno de duas cartas do Vaticano. Na visão da Cúria local, as correspondências garantem que Roma concedeu a tão sonhada reconciliação da Igreja com o Padre Cícero Romão Batista, um dos candidatos a santos mais populares do Brasil.

Padre Cícero foi excomungado pelo bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, acusado de manipulação da fé. Ele não conseguiu fazer com que a Igreja reconhecesse o "milagre da hóstia” — as comunhões dadas por ele à beata Maria de Araújo teriam se transformado em sangue.

Como castigo, foi proibido de pregar, ouvir confissões e celebrar missas. Morreu em 1934, aos 90 anos, sem ter esses direitos restabelecidos como sacerdote. Após sua morte, o número de fiéis em romarias à cidade que ele fundou, Juazeiro do Norte, cresceu e transformou as peregrinações num dos maiores encontros de fé do País.

Para críticos, porém, ambas não endossam que o Papa Francisco tenha concedido de fato o perdão, transformando o episódio “numa possível farsa”, que seria alimentada pelo bispo de Crato, Dom Fernando Panico.

Em carta de sete páginas, de 20 de outubro de 2015, assinada pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, e endereçada a Panico, a diocese interpreta trechos como sinônimo de reconciliação. Principalmente o que diz: “Mas é sempre possível, com a distância do tempo, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote”.

Ao divulgar tal carta (íntegra em www.diocesedecrato.org), em dezembro, com festa para 50 mil devotos, o bispo fez o milagre de triplicar as romarias no Sertão do Cariri e a arrecadação para os cofres da Mitra Diocesana.

“Em momento algum o Vaticano fala em reabilitar, reconciliar ou perdoar o Padim Ciço. Apenas realça as qualidades de Cícero, nada mais. É embromação”, diz o advogado Lauro Barretto, devoto fervoroso do Patriarca do Nordeste. Como estudioso de processos canônicos, Barreto escreveu um livro que será lançado em abril.

Questionado pelo DIA, Armando Lopes Rafael, chanceler do bispado do Crato e porta-voz de Dom Panico, entregou à reportagem outra carta inédita, em italiano. Datada de 5 de setembro de 2014 e assinada pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard Müller, “comunicando”, segundo ele, a conciliação.

“O Papa raramente assina cartas, delegando essa tarefa ao secretário de Estado. Existe uma minoria que não gostou da reconciliação da Igreja com o Padre”, lamentou Armando. “Essa carta de 2014 não garante a reconciliação. A Diocese de Crato interpretou errado as duas cartas”, diz Lauro.

Jornal do Vaticano não deu a notícia
Em 2006, dom Fernando Panico formou uma comissão e deu entrada na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, no processo de reabilitação. A polêmica em torno da interpretação das cartas começa quando, com base nos estudos realizados pela Equipe de Direito Canônico do Vaticano, o Papa Francisco ventilou que a Igreja deveria conceder a reconciliação de Padim Ciço com a Igreja.

“Fico feliz por receber essa grande graça”, diz dom Panico num texto postado no site da Diocese. Reconciliação significa que a Igreja apaga qualquer oposição às ações de Padre Cícero.

Nenhuma agência de notícias oficial do Vaticano, entre elas a Gaudium Press, tocou na possível reconciliação. Para o historiador e professor José Sávio Sampaio e o padre Nerí Feitosa, maior biógrafo de Padre Cícero não há provas de que a Igreja fez as pazes com Padim Ciço. “Não há documento assinado pelo Papa Francisco, que diz claramente que a Igreja se reconciliou com Padre Cícero”, diz Sávio. “Sugerir uma reconciliação não significa que ela tenha se dado de fato”, diz Nerí
Severino Silva / Agência O Dia

BREVE COMENTÁRIO SOBRE A “CARTA DE RECONCILIAÇÃO COM O PADRE CÍCERO” divulgada pela DIOCESE DE CRATO.
Por Paulo Machado

Inicialmente cumpre destacar que a referida CARTA NÃO FOI ASSINADA PELO PAPA FRANCISCO e, sim, pelo Secretário de Estado da Santa Sé Cardeal Pietro Parolin. 
Essa Carta, deixa bem claro que “não é intenção ... pronunciar-se sobre questões históricas, canônicas ou éticas do passado” afetas ao PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA.
. Aliás, o próprio Cardeal Paroli adverte o Bispo do Crato, para que ele tivesse o zelo e o cuidado, na “AUTÊNTICA INTERPRETAÇÃO DA MESMA” ao divulgá-la. 
Mas estão dando uma maior dimensão a Carta do Cardeal Paroli
O Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ Cardeal Orani João Tempesta, chama a atenção para o fato de a referida Carta “aponta o lado benemérito” da figura do Padre Cícero, visto apenas do ponto de vista eminentemente pastoral e religioso. É este fato, segundo o Cardeal Tempesta, “que a imprensa chamou de REABILITAÇÃO DO PADRE CÍCERO” ou RECONCILIAÇÃO como apregoa a DIOCESE DE CRATO. NÃO FOI. 
O Padre Cícero, na visão da Igreja Católica continua sendo, segundo a CARTA do Cardeal PAROLI , “UM VASO DE ARGILA”, uma figura “NÃO PRIVADA DE FRAQUEZA E DE ERROS”, uma pessoa que “NEM SEMPRE SOUBE ENCONTRAR AS JUSTAS DECISÕES A TOMAR OU ADEQUAR-SE ÀS DIRETRIZES QUE LHE FORAM DIRIGIDAS PELA LEGÍTIMA AUTORIDADE”, e, ainda, que outros aspectos do Padre Cícero “PODEM SUSCITAR PERPLEXIDADE.” . Mas o Cardeal Paroli não deixa de exaltar que às vezes, “DEUS ESCREVE CERTO POR LINHAS TORTAS” E SE SERVE DE INSTRUMENTOS IMPERFEITOS PARA REALIZAR A SUA OBRA (CF.LC 17:10)”
É nesse aspecto, segundo Paroli, que a Igreja Católica e mais precisamente a DIOCESE DE CRATO se serve ou tem incorporado esse movimento popular e da imagem do Padre Cícero para ir “ao encontro das periferias existenciais”, “para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino” .
Segundo Paroli, o Padre Cícero continua sendo “ objeto de estudos e análise, como atesta a multiplicidade de publicações a respeito, com interpretações as mais variadas e diversificadas”. 
NÃO HOUVE, PORTANTO, RECONCILIAÇÃO DA IGREJA com o PADRE CÍCERO. O Cardeal Paroli conclui: “ MAS É SEMPRE POSSÍVEL, COM A DISTÂNCIA DO TEMPO E O EVOLUIR DAS DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS, REAVALIAR E APRECIAR AS VÁRIAS DIMENSÕES QUE MARCARAM A AÇÃO DO PADRE CÍCERO.
RECONCILIAÇÃO E O PERDÃO DA IGREJA PARA COM O PADRE CÍCERO PODEM ATÉ OCORRER NO FUTURO, ESPERAMOS TODOS. MAS, no momento, com todo respeito a quem pensa de forma diversa: NÃO HOUVE. 
PAULO MACHADO
(AUTOR DE “PADRE CÍCERO ENTRE OS RUMORES A A VERDADE”

Polêmica boba em torno da carta de reconciliação do Padre Cícero
“O Padre Cícero é um cruciante ponto de interrogação”. Esta frase dita por Monsenhor Azarias Sobreira, autor do livro Padre Cícero, o Patriarca de Juazeiro, no século passado, permanece atual e cada vez mais oportuna.
Durante muito tempo, principalmente nos livros, Padre Cícero foi sempre analisado obedecendo a uma invariável dicotomia de juízos diametralmente opostos: de um lado, sendo atacado com radicalismo por quem não lhe reconhece nenhum valor; de outro, sendo exaltado com exagero por quem lhe confere muitas qualidades.
Ultimamente, porém, depois que os cientistas sociais passaram a estudá-lo, sua figura real começou a ser delineada dentro de uma nova ótica de observação e análise. E, ao que tudo indica nessa nova visão Padre Cícero é mostrado com os defeitos comuns aos homens normais e as virtudes inerentes aos homens extraordinários. Tudo dentro da lógica, conduzido sem paixão, para que, um dia, quem sabe, ele finalmente deixe de ser, usando a expressão de Padre Azarias Sobreira: um cruciante ponto de interrogação.
Tudo na vida do Padre Cícero gera polêmica. É assim desde que nasceu. Agora surge uma nova polêmica justamente porque surgiu um fato novo na sua história. E mais uma vez tem a Igreja como protagonista. É a tão propagada carta de sua  reabilitação com a Igreja que para alguns historiadores deve ser catalogada no arquivo com o nome de “suposta”, o mesmo que arquiva o milagre da hóstia. Assim, para muitos historiadores Padre Cícero é um suposto santo, um suposto líder, um suposto milagreiro e agora um suposto reconciliado. Sua via crucis parece não ter fim e ele mesmo já antevia isto quando disse:  “Tomei o propósito, desde o começo desta enorme perseguição contra mim, de entregar tudo a Deus e a Nossa Senhora das Dores e não me defender de coisa alguma”.
Diante dessa polêmica que a carta de reconciliação do Padre Cícero gerou podemos intuí que ela virou polêmica por vários motivos, alguns dos quais mencionamos a seguir:
1) Não é um decreto da Congregação para doutrina da fé
2) Não foi assinada pelo Papa
3) Não traz explicitamente a palavra reconciliação
4) Não foi notícia na imprensa oficial do Vaticano
5) Ela foi conseguida pelo esforço do bispo D. Fernando ancorado no estudo da comissão que ele nomeou para elaborar e enviar o processo de reabilitação histórica e eclesial do Padre Cícero.
Parece que este último ponto está bem explícito no bojo das discussões que se dissemina na imprensa e nas redes sociais, dando a entender que agora o foco da questão polêmica não é mais o Padre Cícero e sim, o bispo da diocese do Crato.  E isto é fácil de perceber, quando a gente vê os nomes dos defensores e dos contestadores da agora (lamentavelmente) famigerada carta de reconciliação.
Se a discussão prosperar por este caminho ficará evidentemente pessoal e não levará a lugar nenhum, e não trará contribuição histórica importante para a biografia do Padre Cícero.
Por isso, no intuito de oferecer alguma contribuição para estancar as animosidades, mas sem intenção de participar de nenhum dos grupos antagônicos que a questão gerou, ousamos fazer as seguintes ponderações:
1) O fato de ser uma carta e não um decreto isto parece ser de somenos importância
2) Não ser assinada pelo Papa é irrelevante, pois o cardeal que a assinou tinha credenciais para representar o pensamento de Sua Santidade sobre o assunto]
3) A palavra reconciliação não está explica, mas os argumentos contidos induzem a tal porque as virtudes do Padre Cícero foram evidenciadas, sua pastoral foi elogiada e as romarias foram exaltadas como sendo bons frutos.
4) A imprensa oficial do Vaticano não divulgou o assunto, mas também não se pronunciou até agora condenando quem divulgou a carta como sendo de reconciliação.
5) Mesmo que traga constrangimento a alguns historiadores,  D. Fernando tem, sim, algum mérito nessa questão, pois foi ele quem fez oficialmente o pedido de reconciliação histórica e eclesial do Padre Cícero à Congregação para a doutrina da fé, mesmo tendo recebido argumentos contrários apresentados por figuras do clero, algumas delas da sua diocese.

Diante do exposto, vamos deixar de lado essa polêmica boba e infrutífera; vamos aceitar a carta como sendo mesmo de reconciliação, afinal o Vaticano não contestou que assim pensa; vamos vibrar com a carta pois ela é um documento que reconhece virtudes do Padre Cícero, aprova sua pastoral, o tem como exemplo a ser seguido e exalta as romarias; foi escrita com autorização do Papa como manifestação expressa do seu pensamento e por fim, vamos todos dar graças a Deus pelo Padre Cícero que temos.
Então, cantemos juntos: Viva meu Padim, via meu Padim, Cícero Romão.
E chega de polêmica besta que não leva a nada.
Daniel Walker

Em tempo: Este artigo já estava escrito quando tomamos conhecimento de que na solenidade de divulgação da carta D. Fernando fez menção a um decreto  emitido pela Congregação para doutrina da fé, cuja tradução do italiano é a  seguinte:

CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE

00120 Città del Vaticano
Palazzo del S. Uffizio
27 de outubro de 2014
Protocolo no. 319/14-48388

Excelência Reverendíssima:
Na data de 30 de maio de 2006, Sua Excelência entregou na sede desta Congregação um edido endereçado ao Santo Padre para a reabilitação canônica do Pe.Cícero Romão Baptista (1844-1934). Essa petição era acompanhada de uma igual petição formulada pela CNBB durante a sua 44ª. Assembleia Geral, de-17 de maio de 2006. O pedido também foi acompanhado de uma abundante documentação, fruto do estudo de uma especial Comissão de Estudos para a reabilitação histórico-eclesial do Pe. Cícero Romão Baptista.

Este Dicastério, valendo-se também do parecer de alguns especialistas na matéria, não deixou de submeter a um cuidadoso estudo os documentos acima, confrontando-os com os documentos originais conservados neste arquivo da Congregação, relacionados com os eventos que levaram a Santa Sé a censurá-lo em alguns aspectos de sua vida. As conclusões do
estudo foram submetidas à Sessão Ordinária da Congregação, realizada em 2 de julho de 2014, que decretou o que segue:

TODOS: São consideradas justas e justificadas as medidas disciplinares que a seu tempo foram exaradas pela Santa Sé no processo de Pe. Cícero, e que foram mantidas até sua morte, e por isso não se pode atender ao pedido de reabilitação do sacerdote.

TODOS: Considera-se oportuna, entretanto, a forma de “reconciliação histórica”, que leve em conta todos os aspectos da vida humana e sacerdotal do Pe. Cícero, e traga à luz o lado positivo da sua figura.

O Santo Padre Francisco, durante a Audiência de 5 de setembro de 2014 aprovou a decisão acima e pediu que seja preparada uma Mensagem por um organismo da Santa Sé, endereçado aos fiéis dessa diocese, que agora está celebrando o primeiro centenário de sua elevação. Com essa iniciativa se poderá operar a desejada “reconciliação histórica”, possibilitando uma serena apresentação geral da figura histórica, sacerdotal e apostólica do Pe. Cícero, no contexto da devoção mariana e eucarística dos peregrinos de Juazeiro do Norte.

Tendo em vista a preparação de tal Mensagem, peço-lhe gentilmente para fornecer aqueles elementos que, a seu critério, fazem hoje do Pe. Cícero uma figura a ser valorizada do ponto de vista pastoral e religioso.

Gerard Müller
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

Pronto, gente, aí está o decreto. O decreto diz que Padre Cícero não pode ser reabilitado e está correto, pois a sua reabilitação só teria sentido se ele estive vivo para poder desfrutar do prazer de voltar a celebrar e praticar os outros diretos que todo sacerdote ativo tem. Como reabilitar não é possível, então o decreto "Considera-se oportuna, entretanto, a forma de “reconciliação histórica”, que leve em conta todos os aspectos da vida humana e sacerdotal do Pe. Cícero, e traga à luz o lado positivo da sua figura."
Será que isso põe fim a polêmica ou vai alimentá-la mais ainda?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Padre Cícero Romão Batista - Por Antonio Carlos Siufi Hindo

Fonte: http://www.progresso.com.br/opiniao/padre-cicero-romao-batista

Na região mais pobre do sertão cearense, especificamente na cidade de Juazeiro do Norte, um padre de origem humilde transformou a vida de um punhado de pessoas, que viviam desesperadas, sem norte e sem nenhum destino numa quadra de esperança e de vida. Naquela rotina dramática o sertanejo resignado com a sua própria sorte outra alternativa não lhe restava senão lutar e de se apegar com Deus e com a sua fé para continuar vencendo os desafios que o destino reservava para cada um deles.

Foi nessa quadra de sofrimento e dor intenso que Deus na sua onipotência divina reservou para a vida daquela população a ação sempre santa das suas mensagens transubstanciada na pessoa física de Cícero Romão Batista. E tudo transcorria na mais absoluta normalidade na vida daquele povo, até o dia em que um hóstia consagrada colocada na boa da beata Maria de Araujo, se transformou em sangue. Pronto. Foi o que bastou para que a Igreja da época remetesse o sacerdote à condição de um visionário. Nada mais perverso. O tema desnudou a face mais retrógada dos principais líderes religiosos da Igreja Católica de então transubstanciada na inveja de seus pares. Foi essa mesma inveja incrustrada no coração das pessoas ao longo da história da civilização, que impediram o Cristo de realizar os seus milagres em sua cidade natal.

A inveja continua presente e viva no seio da nossa sociedade. Ela está em todas as oficinas de trabalho, nas relações pessoais, nas relações sociais, e em todos os outros campos de atividade em que estiver envolvido o ser humano. Não temos outra saída, a não ser conviver com o seu ranço que nos estigmatiza e transfigura a nossa alma.

Mas, o que fizeram com o padre Cícero em nenhum momento desencantou o valor da crença, da fé, da confiança, que aquele verdadeiro homem de Deus conseguiu despertar no seio daquela população sofrida. Esse fato é a mais contundente de todas as provas de que a fé das pessoas não precisa de nenhum tipo de prova para aceitar como verdadeiros os ensinamentos que lhes são ministradas por vocação divina. E o Papa Francisco voltou novamente a surpreender o mundo ao perdoar o santo de Juazeiro do Norte de todas as punições que lhe resultaram impostas pela igreja católica entre os anos de 1.892 e 1.926, em nosso território nacional.

A fé daquele povo sofrido pelo seu conselheiro continua inquebrantável. Suas palavras continuarão sendo a sentinela mais forte a animar os homens de bons propósitos a acreditar na vida e fazer dela um raio de luz para os que vivem na escuridão. A ação papal resultou digna dos melhores elogios e sinalizou para um outro dogma de regular a importância: ninguém salva ninguém a não ser os nossos atos, as nossas ações, os nossos sentimentos, nobres e elevados e o desejo sempre presente de auxiliar o nosso semelhante a encontrar o seu destino de grandeza e de esperança.

O perdão é a palavra mágica que nos salva e nos redime. Foi ele o grito tresloucado daquele que deu sua própria vida para nos salvar. Francisco sabe interpretar como ninguém esses fatos. O seu papado está sendo considerado por muitos como verdadeiro divisor de águas no seio da Igreja Católica. Isso é muito bom e alvissareiro.

É o prenuncio que a Igreja pode ainda oferecer novas e surpreendentes ações de um homem que, tendo saído da cidade de Buenos Aires rumo à cidade do Vaticano para escolher um novo pontífice por lá permaneceu para ser ele próprio o grande vetor da paz, da concórdia e da união entre os povos e as nações ao redor do mundo.
Promotor de Justiça aposentado. e-mail: dr.hindo@hotmail.com

sábado, 6 de fevereiro de 2016

“Tiramos o pe. Cícero do escuro da história”, disse Dom Fernando Panico

ZENIT, órgão da imprensa romana,  entrevista o bispo da diocese de Crato, Dom Fernando Panico. Temas: Igreja pede perdão ao pe. Cícero; diferença entre perdão, reconciliação e reabilitação; atividades políticas; padre e pastor; riquezas; acusações e perseguições; nove volumes de trabalho investigativo; dentre outros…

Cícero Romão Batista jamais soubera que um dia fora excomungado e, posteriormente, absolvido da pena, teve contato com Lampião, convidou Luis Carlos Prestes à rendição, movimentou o Nordeste Brasileiro, arrebanhou corações para Jesus Cristo, demonstrou-se sempre humilde e obediente perante as autoridades eclesiásticas, e, na impossibilidade de exercer o seu sacerdócio ministerial, tornou-se o “padrinho” de uma multidão órfã de pai. Essas e outras virtudes são muito bem demonstradas pelo jornalista Lira Neto na biografia mais completa já escrita sobre o santo popular: “Pe. Cícero, poder, fé e guerra no sertão”, Companhia das Letras.

Logo após a última missa celebrada na terra pelo “Padim” (como lhe chamavam os devotos, regionalismo de “padrinho”), no dia 4 de junho de 1921, minutos depois recebia o ofício diocesano que o proibia de exercer qualquer atividade como sacerdote dali por diante, até quando falecera em 20 de julho de 1934, tendo cumprido 90 anos.

“Instituo meu único e universal herdeiro a Santa Sé, representada na pessoa de Sua Santidade, o Papa, sendo o meu desejo que Sua Santidade aceite esta minha disposição de última vontade, incorporando a universalidade de minha herança ao patrimônio da mesma Santa Sé”, registrara alguns anos antes, em seu 1º testamento, lavrado no cartório em abril de 1918.

Testamento modificado em outras duas ocasiões, quando, em sua 3ª edição definitiva, deixou a Pia Sociedade de São Francisco de Sales como sua principal herdeira, com a condição de criar escolas e institutos de ensino e educação em Juazeiro. Acusado de escravizar os fieis na ignorância, esse mesmo sacerdote deixara metade da sua riqueza – não pouca, e doada por coronéis e romeiros ao longo da vida – para a educação dos concidadãos, e a outra metade para várias instituições religiosas da região.

Morreu paupérrimo, relatou a ZENIT Dom Fernando Panico, a ponto que os coronéis tiveram que fazer uma vaquinha para pagar o seu enterro.

Durante mais de um século atacado e manchado por intelectuais de todos os lados políticos e eclesiásticos. Durante mais de um século atraindo multidões, milhares de romeiros ao seu encontro, em vida, e mais ainda depois de morto, chegando aos milhões por ano atualmente… E sempre do lado de fora das Igrejas e dos templos.

O Nordeste inteiro, e não só, tem o nome do santo nas ruas, nas praças, nos monumentos… e somente nesse último fim de semana, quase 100 anos após a sua morte, pela primeira vez na história, um quadro do Padim Ciço entrou em procissão, passando pela Porta Santa da Basílica Nossa Senhora das Dores, no contexto do Ano Santo da Misericórdia.

A região do Cariri é um autêntico oásis de fauna e flora em meio a um deserto – principalmente para quem cruza de carro do litoral do Ceará ao interior, como foi o meu trajeto ao visitar essa cidade nesse último mês de Janeiro de 2016 e entrevistar pessoalmente Dom Fernando Panico para ZENIT.

Ao som dos passarinhos, pé da Chapada do Araripe, na sede no recém fundado seminário de Crato e Casa de Repouso Sacerdotal, sentados em uma varanda refrescante, às 10h da manhã.

Os entrevistados foram: Pe. José Vicente Pinto, vigário geral da Diocese de Crato, e Dom Fernando Panico, bispo diocesano.

Após uma conversa introdutória muito enriquecedora, Dom Fernando Panico dignou-se responder às minhas perguntas.

O contato com um povo humilde, acolhedor, muitas vezes órfão de tudo, e que se aproxima da gigante imagem do Pe. Cícero na colina do horto para pedir proteção, inspira a unir a voz com um dos cantores da região, Jota Farias, deixando Juazeiro para uma outra vez voltar e com um novo CD no rádio:
“No caminho da fé o povo não se cansa.
Quem anda com jesus nunca perde a esperança.
Somos romeiros vivemos a caminhar
Visitando o juazeiro com Jesus nos encontrar
Confessar nosso pecado e assim nos libertar
E a cantar no santuário alegria de chegar”.

Acompanhe abaixo a entrevista completa concedida a ZENIT:
ZENIT: Vamos definir termos. Qual a diferença entre reconciliação, reabilitação, perdão, no caso do Pe. Cícero? (Nessa primeira resposta Dom Fernando Panico fez um apanhado geral sobre as principais questões relativas ao Pe. Cícero, acusado de rico, político, desordeiro, etc.)

Dom Panico: Começo a fazer um pouco o histórico, o relatório, desse processo que foi enviado a Roma no ano 2006 e entregue ao Papa emérito Bento XVI.

Nós, atendendo à própria sugestão que veio da Congregação para a Doutrina da Fé, enveredamos o processo todo sob a égide do nome reabilitação. Foi um nome que nasceu assim, do diálogo com o cardeal Ratzinger, com o secretário dele, Dom Bertone, hoje cardeal, então eu fiquei com esse nome: “reabilitação”.

E voltando para o Brasil depois daquela visita à Roma para tratar do assunto em questão reuni, graças à cooperação também da CNBB, uma equipe de estudiosos de todo o Brasil. Não só daqui da região do Ceará ou do Cariri. Eu queria formar uma comissão de estudiosos livres de preconceitos ou de paixões para que me ajudassem a formar um conceito, por quanto possível objetivo sobre tudo o que ocorreu ao redor do Pe. Cícero.

Então, reunindo essa comissão insistimos sobre o nome “reabilitação”. Todo o nosso trabalho visava, sem nos darmos conta, talvez, da diferença que depois foi mostrada pelo Papa Francisco, continuamos trabalhando em vista de uma reabilitação.

Ao mesmo tempo começaram as críticas dos intelectuais que sabendo dessa comissão, dos estudos que estávamos realizando – estudos de pesquisa, nos arquivos de todo tipo que pudessem ter referência ao pe. Cícero.

É a Igreja que deve reabilitar-se com o Pe. Cícero

Então, as críticas diziam: “reabilitar”? “reabilitar o quê?”, é a Igreja que deve se reabilitar com o pe. Cícero porque foi a Igreja que condenou o pe. Cícero e, portanto, deve reconhecer a história como foi a partir de certas atitudes que ela, a Igreja, tomou. Então nasceram aquelas indiretas próprias do mundo acadêmico.

Pe. Cícero, homem polivalente, culto

Fizemos também simpósio internacional sobre a figura do pe. Cícero e ressaltando a figura e a importância do pe. Cícero sob diversos enfoques, não só o enfoque da religiosidade, mas também o enfoque do homem polivalente, culto, que já naquela época entendia de tudo e, portanto, sabia aconselhar os pobres lavradores que fugiam da seca para resistir às calamidades da natureza, aonde, então, deviam plantar, como deviam plantar, aonde se podia encontrar água, como defender a natureza, para que a natureza não virasse o deserto… Já se falava na época do pe. Cícero em desertificação. E se falava do problema da água, se falava do problema da ecologia. Pe. Cícero que pedia para não fazer queimas de roças, que a terra é mãe, que não devia ser violentada pelo fogo, mas que os lavradores tivessem outros processos mais naturais para repousar a terra e dar à terra mais riqueza para produzir.

Pois bem, o pe. Cícero foi estudado sobre muitos aspectos.

Reabilitação… é Igreja que deve se reabilitar com o seu filho que foi colocado à margem, foi exilado, foi – digamos assim – não reconhecido.

Resultado dos trabalhos de investigação: nove volumes e uma resposta papal

Mas, apesar de todas essas críticas nós concluímos os nossos trabalhos, depois de quase quatro anos de estudos e apresentamos à Congregação da Doutrina da Fé no ano de 2006 nove volumes, nove volumes! Não fomos com pouco papel não! (sorriu Dom Fernando).

Nove volumes coletando tudo o que podíamos ler e saber sobre o pe. Cícero, incluindo também toda a correspondência dele, as cartas dele, e as cartas de outros a respeito dele, alguns a favor e outros contra, então, juntamos tudo e foi para Roma e, assim, no ano passado de 2015, depois de muita espera e muita insistência de minha parte, chegou a resposta. Uma resposta muito – digamos assim – iluminada.

Nós acolhemos essa resposta chorando. A comissão que viu comigo o conteúdo dessa carta do cardeal Pedro Parolin nos mandou, ao meu endereço, nos fez chorar de alegria. E já pensando na grande alegria que os romeiros, poderia e deveriam, encontraram na leitura das palavras que vêm do coração do Papa Francisco. Esse Papa que nos compreende porque ele sente na sua própria experiência espiritual a força e a importância da fé dos pobres e não impede que essa fé se manifeste. Não manipula, como sucessor de Pedro, a expressão religiosa numa determinada orientação.

Reconciliar é diferente de reabilitar

Então, quando nós lemos a carta vimos que não se falava de reabilitação e sim em reconciliação. Então, reconciliar é diferente de reabilitar.

Reabilita-se uma pessoa que já morreu? Como podemos dar ao pe. Cícero que já faleceu a mais de 90 anos, né, uma nova configuração canônica, jurídica? Como podemos devolver? Como a Igreja pode devolver o uso de ordens para um morto? Então, não se trataria, canonicamente falando, em reabilitação.

Agente não atinou para esse aspecto quando fizemos o processo. Mas o Papa, que é muito perspicaz e pastoral, sobretudo, entendeu que a questão do pe. Cícero deveria ser vista como uma questão de reconciliação da Igreja com o pe. Cícero e com os romeiros, que são os herdeiros espirituais de toda uma ação do pe. Cícero voltada para valorizar a vida dos últimos.

Um padre exemplar, que morreu pobre, deixando tudo aos pobres

O pe. Cícero manifesta para nós hoje o exemplo de um padre que não tem fronteiras, um padre aberto, um padre que sai ao encontro dos outros, embora ele não tenha nunca saído de Juazeiro; mas um padre aberto para acolher, um padre com cheiro de ovelhas, como fala o Papa Francisco. Um padre, então, sempre solícito para escutar, para dar bons conselhos e para ajudar até financeiramente.

O pe. Cícero é acusado de ter sido rico, mas a riqueza que ele tinha era dada a ele pelos coronéis que brigavam entre si e que o pe .Cícero fazia todo um trabalho de pacificação que eles – quem sabe se por amizade ou reconhecimento – ofereciam ao pe. Cícero bens, terras, para as quais o pe. Cícero enviava os afilhados dele que fugiam da seca, os flagelados.

Então, quando o pe. Cícero morreu, dizem os contemporâneos, pe. Cícero morreu pobre, paupérrimo, ao ponto que tiveram que fazer, os coronéis, uma vaquinha para custear as despesas da funerária: caixão, enterro e tudo. Então, de tão pobre que ele vivia… mas para muitos ainda permanece essa ideia do pe. Cícero rico.

Pe. Cícero Político: fundou a cidade de Juazeiro, da qual foi o primeiro prefeito

O pe. Cícero político. Bom, uma vez que o pe. Cícero foi proibido de exercer o ministério sacerdotal, e o povo continuava indo a ele, e dessa vez um povo exigido, pedindo, suplicando do pe. Cícero uma atenção em favor das famílias, então o pe. Cícero – digamos assim – não sei se cedeu ou assumiu como consequência da sua missão sacerdotal e pastoral, assumiu esse lado político, ou seja, para poder ajudar o povo fundou a cidade de Juazeiro, da qual foi o primeiro prefeito… foi nomeado também para outros cargos públicos, políticos, no Brasil, mas ele nunca chegou a tomar posse… preferiu, então, sempre ficar lá em Juazeiro cuidando do povo.

Então, em vez de reabilitação, reconciliação. Reconcilia-se com uma pessoa que, embora falecida, os valores dela continuam presentes e são eficazes para serem vistos e também assimilados sempre mais pelas gerações do povo.

Uma Igreja que sabe pedir perdão. Ninguém é tão puro de estar livre de qualquer suspeita

Então, reconciliação da Igreja com o pe. Cícero. Esse gesto, que parece tão humano e tão divino. Lembro-me que não é a primeira vez na história que a Igreja passa por um processo de reconciliação e de perdão.

Mais próximos dos nossos dias, dos nossos tempos, o Papa João Paulo II no jubileu do ano 2000, abraçado àquela cruz da basílica de São Pedro, do Vaticano, pediu publicamente perdão, em nome da Igreja, pelos erros cometidos ao longo da história. A Igreja sabe reconhecer também que errou, porque ela é humana, além de ser divina, instituição que vem de Deus, mas Ela é feita por homens, homens que podem errar, homens que, embora com todas as intenções melhores não deixam de transparecer a fraqueza deles como pecadores, das decisões que são tomadas. Ninguém tão puro para estar livre de qualquer suspeita.

E na história do pe. Cícero, infelizmente, assim como na história de todo ser humano tem elementos que contribuíram para a condenação dele.

ZENIT: Dom Fernando, existe algum projeto de publicar toda essa documentação, ou deixa-la à disposição de estudiosos, jornalistas e historiadores?

Dom Fernando Panico: Esse material se encontra à disposição dos estudiosos, dos pesquisadores, no nosso departamento histórico diocesano, na cúria do Crato. Existe, então, o departamento histórico que recolhe todos os documentos relativos à diocese.

Todos os livros, então, que falam da história da diocese, história nas paróquias, etc. E aí estão, agora, os nove volumes, que foram apresentados para o Vaticano. No Vaticano tem uns exemplares, ou melhor, dois exemplares, ou três, não me lembro, de cada volume, conforme nos fora pedido e outros exemplares ficaram aqui mesmo no Crato a disposição da Cúria.

ZENIT: Mas, publicar… há essa ideia?

Dom Fernando: Digamos que, no momento, uma ideia de publicar tudo… ainda não pensamos nisso não. Também para respeitar os tempos, para respeitar o estudo que a Santa Sé faria sobre aquele documento. Para não colocar, então, como costumamos dizer aqui no Brasil “o carro na frente dos bois”. Então, aquela prudência pastoral e também acadêmica, científica, para poder “vender o couro depois de ter matado o animal”.

ZENIT: Então, podemos entender que a Igreja pediu perdão. Mas pediu perdão pelo que, em concreto?

Dom Fernando: Meu irmão, cada um faz a sua leitura. Agora, o Papa, na carta, me recomenda, a mim, bispo da diocese de Crato, para dar ao povo uma justa interpretação daquilo que ele quer e escreve. E essa justa interpretação consiste em que a Igreja reconhece o pe. Cícero pelos frutos dele.

Ou seja, o Papa Francisco chega a desejar, a pedir até, a Deus, para que esta expressão das romarias, como Igreja em saída, Igreja missionária, não seja uma característica só para o Nordeste do Brasil. Mas seja para todo o Brasil e para a Igreja inteira. Então o pe. Cícero botou no coração e na boca e na caneta do Papa Francisco esse desejo de fazer da Igreja toda uma Igreja peregrina, a Igreja missionária, a Igreja que não fica tranquila nos seus lugares assim de status, mas arrisca. A Igreja como hospital, campo de batalha, a Igreja que não tem medo de ficar suja de barro ou de sangue, é a Igreja que mexe com a realidade humana para iluminá-la, para purifica-la e para redimi-la.

Então, o papa Francisco me pede para dar uma justa interpretação dessa carta. E ele disse: nós não entramos em mérito à questão política, à questão de outros aspectos, que são críticos na vida do pe. Cícero. Nós não vamos entrar em mérito nisso. E por isso, não podemos falar, por enquanto de processo de canonização.

Assim fala o papa com muita sabedoria. Isso poderá acontecer, mas não é já já não. É um processo. De modo que eu brinco e falo sério, para mim e para os outros nossos irmãos aqui da diocese, dizendo que certamente não serei eu que vai introduzir o processo de beatificação do pe. Cícero.

O Pe. Cícero saiu do escuro da história. O Romeiro vem ao encontro de Jesus Cristo.

Dêmo-nos por satisfeitos e agraciados pela misericórdia de Deus porque tiramos o pe. Cícero do escuro da história e colocamos ele diante da sua verdade que é reconhecida pelo sucessor de Pedro para que todo o Brasil e sobretudo os milhões de romeiros que todos os anos vêm aqui à Juazeiro atraídos pela memória dele saibam encontrar, não tanto o pe. Cícero, mas Jesus Cristo, porque o pe. Cícero não chamava o povo para visitar ele, mas para se encontrar com a eucaristia, com a confissão, com o sacramento da misericórdia, com Nossa Senhora das Dores, com o coração de Jesus. E o papa Francisco, nessa carta que ele escreveu, diz que é Jesus a origem, o centro e o fim das peregrinações que acontecem por causa do pe. Cícero.

Então, atribuímos a Jesus este movimento de Graça, que é a romaria, e o pe. Cícero naturalmente foi o canal e o instrumento, mas nós amamos o pe. Cícero porque ele nos ajuda a compreender melhor a ser discípulos missionários de Jesus, devotos de Nossa Senhora e fieis à Igreja católica.

ZENIT: E é isso que realmente se vê nos romeiros? Quer dizer, então, que os romeiros que vêm à Juazeiro frequentam os sacramentos, são acolhidos pelos sacerdotes da região, têm todo o apoio pastoral que necessitam?

Dom Fernando: Acontece que nas paróquias de origens, nos municípios e dioceses de origens desses romeiros tem também, além do povo que é devoto do pe. Cícero, tem também padres e bispos que a seu tempo, antes de serem padres e bispos, foram romeiros, então nunca perderam a sensibilidade e a espiritualidade romeira.

Mas, respondendo a sua pergunta: eu não posso afirmar categoricamente que os romeiros, hoje, vêm aqui à Juazeiro mais por causa do pe. Cícero do que por Jesus. Isso foge às minhas apreciações.

Mas, eu faria a mesma pergunta a outro santuário: quem vai venerar em São Giovanni Rotondo São pe. Pio, vai por causa do pe. Pio ou por Jesus? Creio que vão por Jesus por causa do Pe. Pio, mas vão visitar o pe. Pio para que o pe. Pio os ajude a se encontrar com Jesus. A mesma coisa diria com o pe. Cícero e Jesus.

ZENIT: Falando no pe. Pio, lembramos que ele também morreu com cinco processos nas costas…

Dom Fernando: É por isso que existe uma certa afinidade, né? Porém, analógica.

O Pe. Pio também sofreu e sofreu muito. E o grande mérito que a providência de Deus possibilitou-lhe é que o Papa João Paulo II era penitente dele e conhecia muito bem o pe. Pio.

Então, foi o Papa João Paulo II em tão pouco tempo depois que assumiu o pontificado, tirou da gaveta o processo, ou melhor, foi iniciado o processo – não sei bem dizer exatamente – e, em pouco tempo foi beatificado e canonizado; e o pe. Cícero não tem ninguém a favor dele lá na cúria romana. Mas, agora a providência de Deus mandou-nos Francisco que bem compreende a situação e com coragem apostólica, ousadia mesmo, que às vezes incomoda os bem-pensantes – ele toma decisões que são, certamente, expressão de uma luz que o Papa recebe para guiar a Igreja de acordo com o projeto do pai.

ZENIT: Por fim, com relação à notícia da reconciliação da Igreja com o pe. Cícero, ouve-se dizer também que a Igreja está se aproveitando agora da situação, de certa forma instrumentalizando o pe. Cícero, para atrair novamente os católicos para a Ela, por causa da quantidade de fieis que está perdendo para as seitas no Brasil. O que dizer sobre isso?

Dom Fernando: Bom, cada um pensa como quer. Agora, posso garantir, com toda transparência e honestidade de minha parte, que nunca quisemos manipular a memória do pe. Cícero para salvaguardar a perseverança dos romeiros na Igreja católica. Eu diria o contrário. São os próprios romeiros que chegam aqui, em Juazeiro, atribulados pela campanha, pelo proselitismo das seitas que assediam – a palavra é feia mas existe também o assédio religioso – assedia a fé simples dos romeiros para poder agregar os romeiros às seitas.

Foi feito um estudo pela CNBB, anos atrás, um mapa onde estão escritas as migrações religiosas do nosso povo em todo o território nacional. Então, tem regiões aonde é muito clara e evidente a passagem de católicos para os protestantes ou os evangélicos. Mas aqui, dessa nossa região, existem sim alguns “pontos vermelhos”, mas a maioria da região é positiva, ou seja, não têm essa presença.

Eu me pergunto, a que se deve tudo isso? Qual é o porquê dessa situação? E a resposta que me vem de uma maneira talvez ingênua, mas certamente uma resposta que me vem, da contemplação de como Jesus “te louvo, ó Pai, porque essas coisas as escondes aos grandes e as revelastes aos pequenos. Te louvo, ó Pai, porque são os últimos, os humildes, que podem, então, mais te glorificar. Te louvo, ó Pai, porque da boca daqueles que não sabem falar vem para ti o melhor louvor”.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Inédito: Padre Cícero entre pela Porta Santa na Basílica de Nossa Senhora das Dores

Na noite do dia 29 de janeiro de 2016 se deu a abertura da Porta Santa da Misericórdia na Basílica de Nossa Senhora das Dores, a qual foi presidida pelo Bispo Diocesano Dom Fernando Panico que abençoou  e aspergiu água benta  nos fieis. Foi um momento ímpar,  esperado por tanto anos... Como início da Romaria das Candeias, após a abertura, aconteceu  a entrada oficial do Padre Cicero através de um quadro (tela de Assunção Gonçalves) conduzido pela irmã Annete e demais membros da pastoral da romaria. No momento, sob o canto de benditos, toda igreja acolheu com uma calorosa salva de palmas o cortejo inédito na Basílica de Nossa Senhora das Dores. Viam-se faces molhadas de emoção pura na multidão de romeiros e devotos do Padre Cícero e da Mãe das Dores. Em seguida deu-se início à celebração da santa missa concelebrada por vários padres e presidida pelo bispo.
A porta principal de acesso à Basílica, agora como Porta Santa, é um grande portal todo trabalhado com cenas do evangelho. (Texto e fotos de Pautília Ferraz)



Dom Eraldo, da Diocese de Patos – PB, preside Santa Missa no terceiro dia da Romaria das Candeias

Usando um chapéu de palha, símbolo do romeiro, Dom Eraldo Bispo da Silva, Pastor Diocesano da cidade de Patos, Paraíba, presidiu a Santa Missa que marcou o terceiro dia da Romaria das Candeias em Juazeiro do Norte.

A celebração, que teve início às 19h, foi aconteceu no largo da Basílica Santuário de Nossa Senhora das Dores e contou com a participação do Frei Roberto, da cidade de Bom Conselho, e Padre Zito, de Garanhuns, ambas localizadas em Pernambuco.

Durante a homilia, Dom Eraldo falou sobre a alegria de celebrar a eucaristia na primeira romaria desde o anúncio da reconciliação histórica da Igreja com o Padre Cícero. Também arrancou longas risadas dos milhares de romeiros ao proferir sua reflexão de maneira livre e coloquial sobre a necessidade de os fiéis também se reconciliarem uns com os outros nos desafios e dificuldades do dia a dia.

Após a Santa Missa ainda aconteceu o tradicional “show do chapéu” com animação do cantor juazeirense Jota Farias, além de quermesse nas imediações da Basílica.

Para esta segunda-feira, dia primeiro de fevereiro, véspera da grande romaria, estão previstas confissões antes de cada Missa, Ofício de Nossa Senhora, Coroa das Dores, Maria Valei-me e bênção do Santíssimo Sacramento. Os horários da programação podem ser acessados em: http://maedasdoresjuazeiro.com/candeias2016
Fonte:Diocese do Crato

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

As doenças do 'Padim'

As doenças do 'Padim'
Seria ele portador de uma doença reumática? Por meio da bio-história, médico cearense estuda os múltiplos aspectos da saúde do religioso
01.11.2015 por Giovanna Sampaio - Editora do Vida - Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará

A história de vida de Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), sobretudo a relacionada à saúde, suscitou um estudo aprofundado sobre a plausibilidade de essa figura mitológica do sertão nordestino ser portadora de espondilite anquilosante, doença inflamatória crônica que afeta as articulações do esqueleto axial (coluna, quadris, joelhos e ombros).

O achado foi apresentado pelo reumatologista cearense Francisco Airton Castro da Rocha, professor e pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC), durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado em outubro, em Curitiba, com o título "Padre Cícero teria uma doença reumática?"

Questionamentos

O interesse pelo tema, segundo o médico, ocorreu de forma fortuita, após ler a biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" (Companhia das Letras), do escritor cearense Lira Neto. Mais que enxergar a figura do homem religioso por trás do líder popular, o médico se deteve a analisar e questionar a série de doenças e diagnósticos atribuídos ao Padim Cícero, nome pelo qual é reverenciado pelos milhares de romeiros que visitam Juazeiro do Norte.

A curiosidade pelos achados o levou a levou a ler, ao todo, 12 obras sobre a vida do religioso, cujas imagens o retratam sempre com a cabeça inclinada para o lado direito, portando batina, chapéu e seu cajado. Em sua pesquisa, Dr. Airton Rocha também destaca as obras "Milagre de Juazeiro" (Ralph Della Cava), e "Padre Cícero que Conheci" (Amália de Oliveira), essenciais para elucidar a bio-história de seu objeto de estudo.

Para o presidente da Sociedade Cearense de Reumatologia, Dr. José Eyorand Castelo Branco de Andrade, "a entidade vê com bons olhos, pois busca identificar uma doença para a qual não se tinha ainda chamado atenção. São propostas, indícios e tudo leva a crer que o religioso poderia ser portador de espondilite". Destaca que, ainda hoje, muitas pessoas acometidas dessa doença sequer o sabem e, em média, leva-se oito anos para o diagnóstico, após o início dos sintomas.

Histórico dos sintomas

No artigo "Padre Cícero Romão Cícero - Aspectos sobre a saúde do Patriarca de Juazeiro", o reumatologista enumera uma série de indícios, que, aos olhos de um leigo, podem passar despercebidos. A começar pelo fato de, apesar de sua vida longeva, Padre Cícero apresentar o pescoço inclinado, fato particularmente visível quando tinha 44 anos (como mostra uma foto ao lado de sua irmã), e em várias outras posteriores revelando a existência de um desvio cervical lateral.

Outro ponto que chamou atenção foi o histórico de o religioso ter sofrido de dores lombares ao longo da vida, assim como de distúrbios do tubo digestivo (intestinos) e infecções de pele recorrentes (nos últimos anos de vida) e de manter uma posição anteriorizada (para frente) do tronco em relação à região lombar. "Em um vídeo da época, é claro observar que ele tem uma postura rígida e que se desloca em bloco, movendo toda a coluna", diz o reumatologista.

Justificativa do 'achado'

A probabilidade de o quadro indicar que o religioso era portador de espondilite anquilosante, à luz da realidade diagnóstica de hoje, é justificada por Dr. Airton Rocha por uma série de fatores, sendo o genético uma delas.

O componente hereditário - olhos azuis e cabelos louros de Padre Cícero (filho de pai português e mãe índia) - é um elemento a ser considerado, uma vez que a ocorrência de espondilite anquilosante está mais presente em indivíduos brancos caucasóides (do norte europeu).

Em relação às fortes dores na coluna, Dr. Airton Rocha descarta a possibilidade de o padre ter escoliose (como é aventado em suas biografias), uma vez que, ao contrário do imaginário popular, a escoliose não é uma doença que provoca dor e raramente acomete a coluna cervical. Sobre Padre Cícero é relatado que ele sofria dores frequentes, em plena maturidade, que chegaram a prostrá-lo e indicavam não depender da realização de algum tipo de esforço físico. Isso sugere ter sido tratado de dor de caráter inflamatório, como é próprio desse grupo de doenças inflamatórias da coluna (como as espondiloartrites).

Patologia de base

O reumatologista cita outra passagem do histórico de saúde do religioso na qual, aos 60 anos, ele ter sido diagnosticado por seu médico, Dr. Antonio Mariz, como portador de gota. "Possivelmente, seria consequência da doença de base (espondilite), uma vez que Padre Cícero tinha dieta frugal e fazia jejuns prolongados, abstêmio de bebida alcoólica, um perfil muito diferente de quem tem gota (artrite associada à deposição de cristais de ácido úrico). Devido aos problemas intestinais, o religioso, por volta dos 70 anos - teve a dieta líquida restrita a chás e água de coco", relata o pesquisador.

Esse recorte de evidência sugere que problemas digestivos, que estariam relacionados às espondiloartrites, lhe levaram a pensar que a "água-do-Juazeiro", por não estar adequadamente tratada, lhe prejudicasse. Na verdade, poderia se tratar de distúrbios intestinais que acometem pessoas com espondiloartrites, como a espondilite anquilosante. Sugere que o uso do cajado, além de sua função pastoral, tenha sido a forma encontrada pelo religioso para facilitar o apoio e permitir-lhe grandes marchas e trabalho incessante, para compensar a fragilidade de sua postura.

Além de submeter seus achados à crítica de seus pares, junto à Sociedade Brasileira de Reumatologia, Dr. Airton Rocha finaliza artigo que será publicado, em breve, em revista científica da área de reumatologia.

Outro olhar

Para examinar a legitimidade desse achado, o reumatologista José Tupinambá Sousa Vasconcelos realizou análise sob o título "Padre Cícero teria reumatismo". Segundo ele, a pesquisa faz parte do campo da bio-história, que envolve diferentes áreas, desde a médica, passando pela genética, antropologia, química, psicologia e a própria história. "Não é uma questão de diagnóstico".

"É possível admitir a plausibilidade nosológica para a fenotipia de espondiloartrite", afirma o reumatologista, para quem considera muito difícil o fato de o religioso - a quem são atribuídos vários milagres - ter sido acometido de escoliose. Outras possibilidades diagnósticas foram excluídas pelo Dr. Tupinambá, incluindo poliomielite, osteoartrite e osteoporose, além da gota, embora considere "ser razoável admitir que Padre Cícero teria sido portador de uma espondiloartrite".


 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

CADÊ OSSOS DA BEATA? José Pereira Gondim


Padre Cícero e Beata  Maria de Araujo, no museu-Juazeiro
A Beata Maria de Araújo, conforme registro Oficial, foi sepultada num túmulo construído pelo Padre Cícero, no interior da nave e no lado direito da Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Juazeiro do Norte. Mesmo condenada a um ostracismo palpável, seu jazigo não estava situado na sacristia, longe dos olhares de quem adentrava a capela, mas, bem no centro da mesma. Ademais, a Beata fora protagonista central do suposto milagre, que praticamente deu vida ao Juazeiro, bem como foi ela o fator desencadeante das romarias que projetaram a acanhada Vila do Joaseiro tornando-a, uma das cidades mais importantes do Nordeste e reconhecida até no exterior, como um local de trabalho, oração e fé. Maria de Araújo fez tremer um bispado e lançou sombras sobre a Igreja, uma Entidade com dezessete séculos de trajetória. A possibilidade de um cisma no catolicismo nordestino, somente não foi pressentido pelo Padre Cícero, em face de sua bondade e o grande amor por sua Igreja, uma Entidade que o maltratou de forma maiúscula, mas, que anteviu, nessa época nevrálgica, que essa divisão não seria difícil, pois, para onde o Padim se inclinasse, seus romeiros o acompanhariam. Portanto, a Beata Maria de Araújo, mesmo morta e aparentemente esquecida poderia ter seu culto despertado a qualquer momento, principalmente por seu túmulo está colocado numa posição estratégica, bem visível e diariamente lembrado pelos romeiros que visitavam a capela. Quem sabe, um belo dia, aquela primeira romaria de 07 de Julho de 1889, muito bem poderia ser reeditada, e, a partir daí transformar-se em devoção? Destarte, Maria de Araújo, mesmo morta
continuava sendo um estorvo no caminho da Igreja, mormente por seu túmulo está colocado numa situação de realce, e, com muito mais projeção do que o próprio altar de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A capela fora concluída em 1908, todavia, em função das perseguições ao Padre Cícero, ainda não recebera a devida bênção religiosa, episcopal, e, agora, com a presença dos restos mortais da Beata Maria de Araújo, no seu interior, essa bendição devia está totalmente fora dos planos da Igreja. Abençoar a capela com ela lá dentro, impossível (?) Pois foi justamente por isso, que no dia 22 de Outubro de 1930, seus restos mortais foram exumados de forma criminosa, clandestina, e seu túmulo foi destruído sob alegativas tolas de rebaixamento de piso, enquanto seus ossos (os 206 ossos que compõem o esqueleto humano) foram irresponsavelmente e truculentamente jogados numa vala qualquer, ou incinerados, assim como o foram os"paninhos" do pretenso milagre. Nessas alturas dos fatos soa até ridículo, para esse Autor procurar-se em nível de bispado, da diocese do Crato, quem ordenou esse crime de vilipêndio, a premeditada ocultação dos ossos da infortunada Beata Maria de Araújo. Obviamente houve um responsável por esse ato de tamanha intolerância e indisfarçável arrogância, no entanto, o vigário do Juazeiro do Norte, monsenhor José Alves de Lima foi apenas um cumpridor de ordens, ou como se diz no vulgo, o "testa de ferro" de alguém, ou algo mais poderoso. É notório, que a Beata Maria de Araújo, apesar de mergulhada no ostracismo era alguém conhecida no Vaticano. Ela foi a mulher que abalou essa Entidade poderosíssima e seu nome foi citado em expedientes e decretos da Instituição, como foi o caso do fatídico documento assinado pelo cardeal Mônaco, em 04 de Abril de 1894. No que tange ao bispado do Ceará, na época de dom Joaquim, o nome de Maria de Araújo, embora de forma sofrida e ligado a perseguições e punições, sem nenhum exagero foi uma constante. Nesses termos, mandante do crime foi a conveniência, foi a necessidade de se expulsar de dentro da capela os restos mortais de alguém, que apesar do: "viva a Beata Maria de Araújo (viva!); viva o Padre Cícero (viva!)"que lhe são dados hoje, nas procissões e por ocasião das celebrações das missas do dia vinte de cada mês, em lembrança da morte do Padim foi alguém que preocupou, e muito, a Igreja, não só no passado, mas, também agora. É bom deixar claro que o vigário monsenhor Lima cumpriu ordens, enquanto o Vaticano necessitava derriscar a última lembrança da Beata, que continuava bem à vista, e, "seguro morreu de velho". Independente do encontro de algum documento ou alfarrábio puído, que aponte um culpado menor, não se consegue calar-se a interrogação de alguns cidadãos livres, num País laico e democrático:1) Por que a Igreja não lhe devolve os ossos?; 2) Por que ela não pode ter um túmulo, onde os parentes, amigos e admiradores possam reverenciá-la?; 3) Se a Igreja prega amor e perdão, por que isso não reverbera nos castigos impostos a Beata, ao Padim, ou esse amor e perdão são vivenciados na casa e na vida dos outros? Segundo o velho professor de latim desse Autor evocando o filósofo romano Sêneca: "é torpe dizer-se uma coisa e fazer-se outra"! Atualmente, Maria de Araújo recebe vivas efusivos e a sua caridade e pureza são reconhecidos dentro e fora da Igreja. Já é tempo de devolver-lhe os ossos, a fim de que eles descansem em local público e conhecido. Basta de tanto sofrimento! 
Nota: Esse texto faz parte de um livro deste Autor, em acabamento - Padre Cícero: Quando a Igreja vai lhe pedir perdão? 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Afinal, Padre Cícero foi ou não foi excomungado? Daniel Walker

Padre Cícero
Existe uma polêmica muito grande quanto a saber se Padre Cícero foi ou não foi excomungado pela Igreja Católica como decorrência das investigações dos chamados Milagres da Hóstia, ocorridos no povoado de Juazeiro a partir de 1º de março de 1889. Muitos escritores chegaram a dizer em seus livros publicados que ele morreu excomungado; outros disseram que ele não foi e outros que ele foi, mas a pena foi revogada antes de ele morrer. Quem está com a razão? Este texto foi escrito no intuito de tentar dirimir as dúvidas e elucidar a verdade, tendo como base documentos oficiais emitidos pelo Santo Ofício (hoje denominado de Congregação para Doutrina da Fé) e informações de fontes insuspeitas. Para melhor compreensão vamos detalhar os fatos seguindo uma ordem cronológica e sempre que possível será feito um pequeno comentário para maior clareza da informação. Antes de falarmos sobre a excomunhão propriamente dita fazemos uma retrospectiva da evolução das penas aplicadas ao Padre Cícero, as quais tiveram início  com uma repreensão por escrito feita pelo bispo Dom Joaquim. 

- 4 de novembro de 1889. Inconformado com as notícias veiculadas na imprensa sobre os milagres  o Bispo Dom Joaquim envia carta a Padre Cícero na qual o proíbe expressamente de fazer qualquer manifestação pública sobre o assunto.
Comentário: depois dessa carta o bispo mandou outra e como não ficou satisfeito com o comportamento do Padre Cícero no atendimento as suas determinações resolveu ser mais duro, aplicando penas mais severas. 

- 6 de agosto de 1892. Através de Portaria o bispo D. Joaquim suspende o Padre Cícero das faculdades de confessar, pregar e administrar sacramentos. 
Comentário: Esta foi a primeira pena grave imposta oficialmente a ele como desdobramento das investigações dos fenômenos ocorridos no povoado de Juazeiro a partir de 1º de março 1889, denominados popularmente de Milagres da Hóstia.

- 13 de abril de 1896. O bispo dom Joaquim aumenta a punição ao Padre Cícero e o proíbe de celebrar Missa. 
Papa Leão XIII
Comentário: Em 26 de junho do mesmo ano Padre Cícero envia sua apelação ao Papa Leão XIII e pede que seja enviada uma comissão a Juazeiro para averiguar os fatos relativos ao Milagre da Hóstia. Tudo em vão, o Santo Ofício não mandou a Comissão e a proibição de celebrar Missa permanece. 

- 10 de fevereiro de 1897. O Santo Ofício  emite um novo Decreto, agora proibindo a permanência de Padre Cícero em Juazeiro, sob pena de excomunhão. 
Comentário: as proibições aumentam tendo em vista as péssimas informações chegadas a Roma sobre o Padre Cícero. O bispo Dom Joaquim estava tão indignado com o comportamento do Padre Cícero que nem sequer sabia mais distinguir entre verdade e boatos e colocava no papel e enviava a Roma qualquer informação recebida dos padres a seu serviço (principalmente Padre Alexandrino de Alencar) que espionavam a vida do Padre
Pe.Alexandrino
Cícero. Temeroso de incorrer na pena de excomunhão,  Padre Cícero resolve sair de Juazeiro e vai para Salgueiro. Isto foi em 29 de junho de 1897. Em  25 de fevereiro de 1898 Padre Cícero chega a Roma para se entender com as autoridades religiosas na esperança de elucidar tudo sobre a Questão Religiosa em que se  envolveu e, principalmente, ser reabilitado.

- 22 de junho de 1898. Após cinco interrogatórios os cardeais do Santo Ofício decidem absolver o Padre Cícero das censuras até então impostas, mas ele permanece com a proibição de pregar, confessar e dirigir as almas e é aconselhando a procurar outra diocese. 
Albergue da Igreja de São Carlos 
Comentário: Um fato interessante aconteceu nesse momento. Como o Padre Cícero não foi encontrado no endereço em que estava hospedado, os cardeais  determinaram que ele deveria permanecer suspenso a divinis até se apresentar, de novo, ao Santo Ofício. A expressão latina suspensão a divinis se refere à suspensão de um eclesiástico de suas atividades ou ofícios religiosos. Sobre o suposto desaparecimento do Padre Cícero uma explicação plausível é dada por Padre Antenor Andrade no seu livro  Padre Cícero: o calvário de um profeta dos sertões, publicado recentemente. Ocorreu o seguinte: ao chegar a Roma Padre Cícero ficou provisoriamente hospedado num hotel. Mas como suas finanças estavam se esgotando ele pediu às autoridades eclesiásticas que lhe arranjassem outro local, de preferência pertencente à Igreja, onde ficaria isento de despesa, e a assim foi atendido. Passou a residir no Colégio São Carlos, ao lado da imponente Igreja de São Carlos na Vila Del Corso, bem no Centro de Roma. Acontece que Padre Machado, encarregado de notificar ao Padre Cícero sobre a decisão do Santo Ofício não foi informado que ele havia mudado de endereço e não o encontrando no endereço anterior, informou às autoridades que não encontrara o destinatário. Daí a  confusão gerada. Mas depois ficou tudo esclarecido e Padre Cícero foi finalmente notificado da sua absolvição, quando compareceu ao Santo Ofício em 1º de setembro de 1898.  

- 5 de setembro de 1898. Após vários requerimentos enviados ao Santo Ofício para regularizar sua situação ele consegue autorização e com muita alegria celebra Missa na Capela de São Carlos. E os cardeais foram mais benevolentes ainda, pois lhe concederam também permissão para celebrar durante a viagem de volta ao Brasil.

- 15 de novembro de 1898. Padre Cícero se apresenta a Dom Joaquim em Fortaleza e lhe informa que fora absolvido em Roma. Mas o bispo, certamente insatisfeito com a decisão do Santo Ofício, foi implicante mais uma vez e não permite que ele celebre em Juazeiro. 
Comentário: diante dessa atitude do bispo fica claro que ele não estava nada satisfeito com o desdobramento favorável da viagem do Padre Cícero a Roma. E como Padre Cícero continuou residindo em Juazeiro, as proibições permaneceram. 

- 12 de julho de 1916. O Santo Ofício declara o Padre Cícero incurso na excomunhão latae sententiate. 
D. José Anversa
Comentário: Este é um dos vários tipos de excomunhão adotados pela Igreja Católica e é aplicado quando o fiel incorre no momento que comete a falta previamente condenada pela religião. 
Assim, está bastante claro: de fato, foi lavrado um documento de excomunhão do Padre Cícero pelo Santo Ofício. Em 27 de julho de 1916 o cardeal Merry Del Val comunica o fato oficialmente ao Núncio Apostólico, Dom José Anversa. Eis o decreto na íntegra:
“Ilmo. e Rmo. Senhor,
Por informações desta Nunciatura Apostólica às Sagradas Congregações Consistorial e dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários resulta evidente que o famigerado Sacerdote Cícero Romão Baptista de Joaseiro no Estado do Ceará, diocese de Fortaleza, nunca obedeceu, como devia aos repetidos Decretos do S. Ofício a seu respeito; que a sua obstinada permanência em Joaseiro é de gravíssimo dano para as almas; e que gravíssimas consequências se havia de deplorar se o mesmo, que já é bastante avançado nos anos, viesse a morrer naquele lugar.
Cadeal Merry
Tendo sido tudo isto referido na Congregação Feria IV, 21 de junho pp., os Emos. Senhores Cardeais, Inquisidores Gerais, meus Colegas, ordenaram que os lugares da mencionada Diocese nos quais forem necessários e no modo que V.S. julgar mais oportuno seja emanada uma pública declaração com a qual resumidos os Decretos de 4 de abril de 1894, com os quais se declaravam falsos os pretensos milagres de Joaseiro e se condenava a protagonista da indigna comédia e os seus fautores, entre os quais especialmente o Cícero; o outro dia 10 de fevereiro de 1897, com o qual se impunha ao Cícero afastar-se de Joaseiro sub pena excomunicationis latae sententiae Romano Pontifici reservatae; e finalmente o de 17 de agosto de 1898, com o qual se confirmaram as precedentes disposições e se acrescentaram outras; faça-se claramente entender aos fieis que a S. Sé e confirmando tudo que foi ate agora estabelecido reprova decididamente e condena a conduta do Cícero, declara-o incorrido na excomunhão reservada ao Sumo Pontífice, e exorta calorosamente todos os fieis a não se deixar enganar pelas suas falácias e tergiversações.
Neste interim, tenho o cuidado e participar-lhe que queira providenciar a sua plena e pronta execução e lhe desejo todo o bem de Deus. De V. S.Ilma. e Rma. Devmo. Servidor verdadeiro R. Card. Merry Del Val”.

Dom Quintino
D. Quintino, bispo do Crato, só tomou conhecimento desse documento no dia 14 de abril de 1917, portanto nove meses depois da sua publicação. E só resolveu comunicar por carta ao Padre Cícero no dia 29 de abril de 1920, portanto três anos depois. E aconteceu um fato curioso: a carta foi escrita e enviada, mas Padre Cícero não a recebeu por decisão de Dr. Floro Bartholomeu da Costa, cujo motivo depois explicaremos. Antes vamos mostrar o conteúdo da carta de Dom Quintino:
“Crato 29 de abril de 1920
Revmo. Sr. Pe. Cícero Romão Baptista
Não tendo a Suprema Congregação do Santo Oficio, até hoje reformado a sua venerada decisão de 21 de junho de 1916, na qual, considerando que o sacerdote Cicero Romão Baptista desta diocese nunca obedeceu, como devia, aos repetidos Decretos do Santo Ofício a seu respeito; que a sua obstinada permanência em Joazeiro e de grandíssimo dano as almas e que gravíssimas consequências se haveriam de deplorar se o mesmo viesse a morrer naquele lugar... ordenou que nos lugares da mencionada Diocese, nos quais se julgar necessário e no modo o mais eficaz, seja emanada uma pública declaração, com a qual, retomados os Decretos de 4 de abril de 1894, com o qual se declaravam falsos os pretensos milagres de Joazeiro e se condenava a protagonista da indigna comédia e os seus fautores, entre os quais especialmente o Cícero; o outro de 19 de fevereiro de 1897, com o qual se impunha ao Cícero afastar-se de Joazeiro, sub pena excomunicationis latae sententiae Romano Pontificireserva qual se confirmaram as precedentes disposições e se acrescentar outras; se faça claramente entender aos fieis que a S. Sé mantém firme tudo o que foi até agora estabelecido, decididamente reprova e condena a conduta do Cícero, declara-o incurso na excomunli reservada ao Sumo Pontifice, e exorta calorosamente todos os fieis a não deixar-se levar em engano pelas suas falácias e tergiversações (Carta do Núncio Ap., de 14 de abril de 1917); não sem pesar no antes de tudo, fazemos sentir a V. Revma. que a provisão que lhe concedemos para celebrar nesta Diocese, já por se ter esgotado seu prazo, desde 31 de dezembro de 1917, já sobretudo pelo fato da supracitada decisão, que agora lhe intimamos, por escrito, está sem nenhum vigor e não poderá ser renovada enquanto não for para isto autorizado por aquele Sagrado Tribunal.
Deus guarde e ilumine V. Revma.
Ass. + Quintino, Bispo Diocesano”. 

Dr. Floro
Padre Cícero não chegou a receber essa carta porque Dr. Floro foi quem a viu primeiro e diante do conteúdo exposto achou por bem não lhe entregar, pois achava que em face da avançada idade Padre Cícero não estava em condições de saúde e psicológicas para suportar tamanho baque. E foi isso mesmo que Dr. Floro informou ao bispo, conseguindo convencê-lo a não dar conhecimento da gravíssima pena de excomunhão a que padre Cícero incorreu. 
Dom Quintino tinha, então, um documento provando que Padre Cícero estava excomungado, mas mesmo assim deixou que ele continuasse celebrando missa fora de Juazeiro. Ele celebrava no sítio Saquinho, município do Crato. 

No dia 1º de janeiro de 1917, estando excomungado, mas sem saber, Padre Cícero recebe autorização do bispo para celebrar Missa na capela de Nossa Senhora das Dores, onde deixara de celebrar desde o dia 6 de agosto de 1892. 

Tudo corria mais ou menos normal entre Padre Cícero e o bispo Dom Quintino. Mas no dia 2 de junho de 1921 Padre Cícero lhe escreve uma carta pedindo autorização para ser padrinho de batismo de uma criança, filha legítima do Sr. Antônio Luiz de Assis Chitafina e Lucila Tenório de Assis, residentes em Juazeiro. Para sua surpresa, Padre Cícero recebeu a seguinte resposta:

“Visto como o Revdmo. suplicante não está cumprindo exatamente todas as cláusulas das declarações que em Dezembro de 1917 depositou em nossas mãos, depois de serem lidas em público; e não só está fomentando a venda e divulgação das medalhas proibidas (quais são as que têm a sua efigie), mas frequentando o estabelecimento do vendedor e benzendo-as, como ainda a certa mulher que deixou de confessar-se para casar por ter declarado que acreditava "Nos milagres do sangue precioso do Juazeiro" aconselhou-lhe que fosse para Cajazeiras, da Paraíba, onde há trabalhos públicos, e depois de algum tempo de estadia ali, efetuasse, lá mesmo, seu casamento; não podemos dar licença ao mesmo suplicante para apadrinhar crianças e nem lhe conceder uso de ordens nesta diocese.
Crato, 3 de junho de 1921
Ass. Quintino, bispo diocesano”.
Comentário: Segundo escreveu Amália Xavier de Oliveira em seu livro O Padre Cícero que eu conheci, “este despacho só chegou ao conhecimento do Padre Cícero no dia 4 de junho, quando ele já havia celebrado, sem o saber, sua última Missa”. 

Papa Bento XV
Apesar de muita gente ter o bispo dom Quintino como algoz e inimigo do Padre Cícero, ele, na verdade foi muito benevolente para com o Padre Cícero. Chegou a pedir a reabilitação do padre, conforme esclarece a carta transcrita a baixo que ele enviou (quando estava no Rio de Janeiro) ao Papa Bento XV
“Beatíssimo Padre,
O Bispo do Crato, tendo recebido pelo Núncio Apostólico, em maio de 1917, o mandado de tornar pública em sua Diocese a sentença pela qual a Sé Apostólica declara que o sacerdote Cícero Romão Baptista, na mesma Diocese bem conhecido, incorreu na pena que lhe foi cominada de excomunhão latae sententiae, reservada ao Romano Pontifice, em virtude de ter negligenciado as determinações a ele impostas pela Sagrada Congregação do Santo Ofício nos três Decretos dos dias 4 de abril de 1894, 10 de fevereiro de 1897 e 17 de agosto de 1899, e por ter obstinadamente permanecido na cidade de Joazeiro, que pelo Decreto de 10 de fevereiro de 1897 deveria deixar, vem, prostrado aos pés de Vossa Santidade, humildemente implorar que lhe seja permitido expor o seguinte: O mencionado sacerdote Cícero Romão Baptista sofre há tempo de lesão cardíaca, de acordo com os atestados médicos, confirmados pelos sintomas que nele se manifestam; donde surge o grande perigo de que ele tenha um desenlace fatal, com a publicação da referida sentença. Em tais circunstâncias, o suplicante decidiu submeter ao sapientíssimo juízo da Sagrada Congregação do Santo Ofício, em cópia autentica, as declarações claras e categóricas que o mesmo Pe. Cicero escreveu, de livre e espontânea vontade, no mês de dezembro de 1917, e que foram lidas em sua presença a numerosa multidão de fieis, por ocasião de uma santa missão que, então, se realizava com grande fruto na referida cidade de Joazeiro. A partir disto, considerando,
1°) Que as condições religiosas da recente paroquia, depois  da santa missão, ter melhorado sensivelmente, contando mais de mil comunhões mensalmente;
2°) Que a permanência do Pe. Cícero nessa cidade, com a faculdade de  celebrar em qualquer outro lugar da Diocese, e bem assim o fato de ele ter se confessado sempre, e até feito duas vezes os exercícios espirituais do Clero, indicam que a autoridade diocesana tenha admitido a legitimidade dos motivos dessa permanência e tenha tolerado; 
3°) Que o perigo de gravíssimas e deploráveis consequências, que se temia pela sua morte naquele lugar, vem sendo pouco a pouco, removido pela  sensível diminuição de seu prestigio nos assuntos religiosos; e mesmo se assim não fosse, não haveria de se esperar o desejado efeito, nem pela sua ida para outro lugar nem pela declaração de sua excomunhão; 
4a) Que, enfim, já alcançou a avançada idade de setenta e cinco anos e tem  precário estado de saúde.
O mesmo suplicante pede permissão para manifestar o seu parecer de que não seja executada a publicação do mandado, e exprime seus desejos de que, pelo bem da paz, seja o Pe. Cicero Romão Baptista absolvido das censuras em que incorreu e lhe seja concedida a faculdade de celebrar a Santa Missa também em Juazeiro, suposta a cláusula especial de observar fielmente as declarações por ele emitidas.
Rio de Janeiro, 9 de novembro do ano do Senhor 1920 +Quintino, Bispo Diocesano do Crato.”

No dia 23 de fevereiro de 1921, o Santo Ofício analisou a solicitação de Dom Quintino ao Papa, que pede a absolvição das censuras e a permissão de celebrar, e resolveu atender apenas à primeira parte (absolvição das censuras, aí incluindo a excomunhão), mas não concedeu o direito de celebrar, podendo o Padre Cícero receber os sacramentos como simples leigo. Também é feita mais uma vez a recomendação de ele deixar Juazeiro. 

- 3 de junho de 1926. Como Padre Cícero adotou a opção de permanecer em Juazeiro Dom Quintino acatando determinação do Santo Ofício o suspende novamente, retirando-lhe  o uso de ordens. Foi esta a última e definitiva punição.
Comentário: foi nessa situação – suspenso de ordens e não excomungado -  que Padre Cícero encerrou seus últimos dias de vida, em 20 de julho de 1934.  

Bento XVI
CONCLUSÃO: Pela explanação exposta neste trabalho fica evidente que Padre Cícero foi realmente excomungado, mas não morreu excomungado, pois a pena  foi revogada pelo Papa Bento XV, permanecendo as outras censuras especialmente  a proibição de celebrar. Muitos pedidos implorando a sua reabilitação foram enviados a Roma, todos em vão.  O último, protocolado oficialmente e pessoalmente pelo atual bispo da Diocese do Crato, Dom Fernando Panico, na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, ocorreu no dia  31 de maio de 2006, mas até agora está sem resposta. A petição acompanhada de relatório e farta documentação, inclusive abaixo-assinado com mais de cem mil assinaturas de devotos do Padre Cícero e 254 de bispos do Brasil, com aval da CNBB,  foi entregue  ao Cardeal  Josef William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O Bispo acompanhado de alguns membros da
Cardeal Josef Levada
Comitiva ainda conseguiu falar com o Papa Bento XVI numa deferência toda especial de Sua Santidade. Naquele momento histórico chamou a atenção dos membros o olhar de Sua Santidade à foto do Padre Cícero estampada nas camisas vestidas por vários membros da Comissão que foi a Roma. Irmã Annnette Dumoulin, uma das presentes, contou o seguinte: “Ana Teresa e eu, estávamos de cadeira de roda. O Papa cumprimentou todos os cadeirantes. E quando chegou para mim, falei em francês, mostrando a foto do Padre Cicero na minha camisa: "Santo Padre, em nome de milhões de Brasileiros, especialmente nordestinos, estamos aqui pedindo a reabilitação do Padre Cícero." E o Papa me respondeu em francês, olhando o Padre Cícero na minha camisa: "Sim, o Bispo acabou de me falar sobre ele." Então o papa viu Padre Cicero três vezes! Nas camisas de Ana Teresa, de Maria do Carmo e da minha.”
Pelo exposto fica também evidente que se Padre Cícero saísse de Juazeiro e nunca mais falasse nos Milagres da Hóstia ele continuaria como padre católico. Aí é o caso de perguntar: se ele realmente saísse de Juazeiro e nunca mais falasse nos Milagres ele seria o mesmo Padre Cícero? E sua criação – Juazeiro - o que seria? Teria crescido ou ficaria para sempre como um simples povoado dependente do Crato? Impossível imaginar. Mas, raciocinando dentro do que realmente ocorreu, ousamos afirmar: pagando o alto preço de ter suas ordens suspensas porque preferiu permanecer em Juazeiro, o Padre Cícero certamente morreu consciente de ter feito a coisa certa e, com isso, seu filho - o Juazeiro - só teve a lucrar, pois só chegou aonde chegou (ser uma grande cidade e centro de romaria) por causa dele. E mais, não resta dúvida, a decisão de ficar em Juazeiro, mesmo sacrificando sua carreira eclesiástica, provocou o surgimento de um santo popular e a fundação de uma Nação Romeira. São dois fenômenos que a Igreja jamais destruirá porque  ambos foram resultados de ação popular. 
Irmãs Annette e Ana Tereza e Maria do Carmo Pagan Forti quando eram cumprimentadas pelo Papa Bento XVI

FONTES
Della Cava, Ralph. Milagre em Joaseiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Maia, Helvídio Martins. Pretensos milagres em Juazeiro. Petrópolis, 1974
Neri, Feitosa (Pe). Padre Cícero e Juazeiro. Textos reunidos. Fortaleza, Imeph, 2011
Neto, Lira.  Padre Cícero, poder, fé e guerra no sertão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Oliveira, Amália Xavier de. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro, 1966.
Silva, Antenor de Andrade Silva. Padre Cícero: o calvário de um profeta dos sertões. Recife, 2015. 
_____. Cartas do Padre Cícero. Salvador: Escolas Profissionais Salesianas, 1982.
_____. Padre Cícero mais documentos para sua história. Salvador: Escolas Profissionais Salesianas, 1989.