segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O MILAGRE DE JUAZEIRO (Fernando Maia da Nóbrega)

           
No ano do centenário de morte da Beata Maria de Araújo, bem como, decorridos oitenta anos do falecimento do Padre Cícero Romão Batista, é oportuno se debruçar sobre os pretensos milagres ocorridos em Juazeiro do Norte, a partir de 1889, envolvendo os dois protagonistas desses fatos.
       Muito embora haja farta literatura abrangendo o assunto, a história real, verdadeira, ainda é bastante distorcida pelo público, gerando falsas interpretações e julgamentos tendenciosos, mormente por pessoas não especializadas na matéria, justificando, destarte, mais uma abordagem.
      Tudo teve início em 1º de março de 1889. Após exaustivo dia de confissões e comunhões, Padre Cícero ao ministrar a eucaristia à beata Maria Magdalena do Espírito Santo Araújo, constatou estupefato que a hóstia consagrada havia se transformado em sangue! Diante da gravidade do assunto o reverendo achou por bem silenciar. Entretanto, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, contrariando os desejos do Padre Cícero, divulgou oficialmente perante mais de três mil pessoas assistentes de uma missa, na Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, os acontecimentos extraordinários ocorridos anteriormente. Durante o ato litúrgico o reverendo exibiu aos atônitos fiéis as toalhas tintas de sangue!
            A notícia se espalhou rapidamente por todo o nordeste brasileiro atraindo milhares de romeiros a Juazeiro. Em Iº de maio de 1891, 20 mil pessoas presentes à missa realizada na matriz de Juazeiro assistiram ao momento em que a hóstia, novamente em contato com a boca da Beata, se transformou em sangue! Entre todos se destacava um médico do Rio de janeiro, Dr. Marcos Madeira, que clinicou imediatamente Maria de Araújo, a qual  apresentava um estado de êxtase, total arrebatamento espiritual, e de sua boca entreaberta, foi retirada a partícula de massa, ministrada na eucaristia, com marcas de sangue. Verificou também o médico que no corpo da Beata havia feridas sanguíneas nos pés, mãos, nas vértebras dorsais e  testa. Para espanto de todos, do corpo de Maria de Araújo brotava sangue nos mesmos lugares do Cristo crucificado!  Um milagre divino em pleno sertão nordestino!
            Contrariando a expectativa geral, em 18 de novembro de 1891, a Igreja Católica se pronunciava sobre os fenômenos ocorridos em Juazeiro, taxando-os de enganosos e falsos e não aceitando como científico o laudo emitido pelo Dr. Marcos Madeira  afirmando que Beata não estava doente e garantia que a aparição da hóstia era “(...) um fato sobrenatural para o qual não me foi possível encontrar explicação científica (...)”.
            Vale ressaltar que Dom Joaquim, Bispo da Diocese do Ceará, enviou para Juazeiro uma Comissão de Inquérito com o intuito de apurar os fatos ocorridos e foi constatada pelos integrantes a veracidade absoluta dos fenômenos sucedidos. Inconformado, Dom Joaquim mandou uma segunda inquisitiva que chegou ao resultado aspirado pelo Reverendo negando, desta forma, a possibilidade de manifestação milagrosa.
            Daí em diante a repressão eclesiástica se fez presente. No dia 10 de novembro de 1891, uma portaria de Dom Joaquim proibia a todos os sacerdotes de sua jurisdição de confessar, pregar e celebrar qualquer festa religiosa na cidade de Juazeiro.
            Já em 1897, a Igreja católica ameaçava o Padre Cícero de excomunhão caso não se retirasse do povoado no prazo de 10(dez) dias.
            Por fim, veio a palavra final da Igreja através da Suprema Congregação da Santa inquisição Romana Universal condenando definitivamente os milagres em Juazeiro.
            Hoje, cento e vinte anos após a ocorrência dos pretensos milagres, cem anos depois o falecimento da Beata, a Igreja ainda reluta em aceitar a transformação da hóstia em sangue e os estigmas de Maria de Araújo como milagre. Ainda é difícil a Igreja concordar que Deus possa ter se manifestado a um povo subdesenvolvido... Ela aceita como milagroso qualquer fato inexplicável e provado... se ocorrido na Europa.
             O povo, porém, teve a coragem de santificar um homem, o Padre Cícero, que um século antes da própria Igreja fez a opção pelos pobres. O povo teve a ousadia de cultuar uma mulher analfabeta, negra, no caso, Maria de Araújo.  Quem pode duvidar? Afinal como disse o Profeta Isaías 43;13 “Agindo Deus quem impedirá?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por que o Padre Cícero foi excomungado?

José Pereira Gondim

Há mais de cem anos a Igreja Católica Apostólica Romana excomungou o Padre Cícero Romão Batista, todavia, ultimamente já chega a celebrar missas em honra de sua memória, nas quais lhe dá "vivas" em abundância, muito embora nunca tenha sinalizado com uma data certa, onde um perdão oficial por parte dessa Entidade seria adicionado a sua trajetória de bom cristão. Durante longo período, no Brasil e por todo mundo católico, beatos e santos foram surgindo, no entanto, um ato de amor e perdão por parte da Igreja, e no tocante ao Padre Cícero, jamais foi cogitado, o que suscita as indagações: Onde andará esse amor pregado pela Igreja? E o apregoado perdão, onde reside? O Imperador Romano Flávio Valério Constantino (São Constantino) foi "guindado" a santo pela Igreja, apesar de ter mandado matar um filho, a esposa, dois meios irmãos, três sobrinhos e o sogro, enquanto o Padre Cícero não se enquadra em nenhum ato de violência. Muito pelo contrário foi conselheiro da massa, dos miseráveis, Prefeito, Deputado Federal e Vice-governador do Estado do Ceará. Foi também eleito o cearense do século, homenageado com a terceira maior estátua de concreto do mundo, e, além do filho mais ilustre de Juazeiro do Norte, a segunda maior cidade do Ceará, seu nome, literalmente é responsável por uma das maiores romarias do Brasil, ou a visita, exclusivamente a seu túmulo, anualmente, por 2,5 milhões de romeiros, ou pessoas de todos os extratos sociais do Nordeste, do País.

Quando a Igreja vai devolver as ordens sacerdotais do filho mais ilustre do Juazeiro, Padre Cícero Romão Batista excomungado há mais de um século?

Quando também devolverá os restos mortais da beata Maria de Araújo exumados clandestinamente por monsenhor José Alves de Lima visando o seu "descanso" em local conhecido e de acordo com a tradição cristã?

O entendimento do pretenso milagre do Juazeiro é uma questão meramente de fé (assim como falou Pio XII sobre a existência de Jesus, num Congresso sobre História, em 1955), pois os fatos "miraculosos" envolvendo sangue, como San Genaro, em Nápoles, e outros mais na Europa, além de polêmicos não são unanimidade quanto à procedência sobrenatural. Se você é juazeirense, nordestino, simpatizante da causa da reabilitação do sacerdote, romeiro residente ou não na Cidade, admirador ou não do Padre Cícero, mas, uma pessoa inimiga de injustiças tem plena condição de atuar na reversão do quadro (devolução in memoriam das ordens sacerdotais) mostrando a Igreja que faz parte daqueles que não veem com bons olhos esse comportamento cínico (celebra missas, e dá "vivas" ao Padre Cícero, no entanto, se nega a dar-lhe o perdão) e oportunista da Entidade. Junte-se a mim nessa "cruzada" e quando formos milhares, milhões a gente marca a data desses eventos, pois nada nesse mundo pode ir contra a vontade do povo unido e ciente do que quer, e nem mesmo a Igreja. O Vaticano sabe disso pode crer!

"Não seria justo e honesto trocar-se tanta missa e "vivas" em homenagem ao Padre Cícero por um pouco de amor e perdão através da Igreja e traduzidos na devolução de suas ordens sacerdotais"? "O "perdão informal" é ganhar tempo, não tem valor"!

"A Igreja pode até não querer, mas, os devotos e admiradores do Padre Cícero exigem dela a devolução de suas ordens sacerdotais, plenamente confiantes de que a 'voz do povo é a voz de deus', ou essa Entidade ignora ou não sabe disso"?

O perdão do Padre Cícero só depende de você! Use uma camisa, porte um cartaz ou uma faixa exigindo esse perdão que a Igreja cede. Faça circular um manifesto igual a este, na próxima semana, no próximo mês que a Igreja muda de atitude!

Durante quase um século, os fiéis, devotos e admiradores do Padre Cícero rezaram benditos, jaculatórias e nada conseguiram. E chegado o momento dos "manifestos, das passeatas", do contrário vamos morrer sem constatar a mínima mudança!

Afinal, que significam amor e perdão para a Igreja? Esperar mais cem anos? Já basta de Comissão de Estudos que a nada leva. Se a Igreja a não muda, mude você!

Assim como eu tome a iniciativa e reproduza esse manifesto, ou crie outro, no entanto, junte-se a mim e quando formos milhões a Igreja acorda, desce do muro!

NOTA: Não vai ser completamente estranho pra esse Autor, se pessoas que se dizem devotos, admiradores do Padre Cícero, mas, que nunca tiveram qualquer tipo de iniciativa para com o problema, ou de se exigir formalmente uma solução da Igreja sobre o assunto entenderem que o mesmo procura se promover. Pensem o que quiserem, mas, seu objetivo está ligado ao combate à injustiça tomando por base uma declaração de Martin Luther King: "Para criar inimigos não é necessário declarar guerra a eles, basta somente que você diga o que pensa". AMÉM!

José Pereira Gondim é um cidadão que abomina oportunismo e injustiças, autor das trilogias (livros): A Forja do Cinismo e Jesus e o Cristianismo, onde esse e outros temas conflitantes são tratados com responsabilidade, mas, sem eufemismos. Como não se trata de denúncia anônima o documento é assinado, pois a Igreja poderá optar em excomungá-lo, processá-lo, ou mesmo torná-lo "persona non grata" por se manifestar diferentemente da maioria.






terça-feira, 24 de junho de 2014

O Padre Cícero é santo - Fernando Azevedo

É Deus o único Santo por Si próprio, assim nos ensina a Tradição Católica. Dizemos muitas vezes na Missa: Só Vós sois o Santo, Só vós o Senhor. Entretanto, graças à Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo, atualizada na Igreja pelo Espírito Santo, todo batizado é portador da santidade, presença viva nele, do próprio Jesus Cristo; cujo Espírito nos santifica, e conduz à santificação completa, "sem a qual ninguém verá o Senhor". Não é a Igreja que santifica, mas Cristo, Vivo e atuante na Igreja, Quem santifica os fiéis pelo Seu Santo Espírito. A Graça, com efeito, não é dada somente para remissão dos pecados, mas também para incremento de vida sobrenatural, sempre frutífera, fecunda em boas obras. Jesus deu a receita para que todos tivéssemos nEle a santidade, que é a vida espiritual da Graça. "Todo ramo que permanece unido a mim, frutifica". O Padre Cicero é santo, porque sua vida, suas boas obras, seu testemunho de fidelidade à Igreja, mesmo em contradições institucionais, são inegáveis. O próprio Jesus nos deu o sinal de verdadeiros profetas: "Pelos seus frutos os conhecereis". O Padre Cícero foi e é até hoje, arauto da unidade na Igreja, símbolo vivo de uma Igreja que é ao mesmo tempo militante, padecente e triunfante. Uma Igreja composta de homens, mas por Graça e Presença Viva do Fundador, SANTA. Todos nós somos chamados a ser santos. "Sede santos como Eu Sou Santo". E para ser santo não precisa, como já foi dito, nem rezar muito, nem sofrer muito...Mas AMAR muito. Cada um de nós pode amar e dar um pouco mais de amor à Igreja, à humanidade, e ao mundo. O Padre Cícero fez isso a vida toda, amando e servindo os irmãos. Não fez dos "milagres" sua bandeira, mas dos pobres, a sua missão, como genuíno seguidor de Cristo pobre. Foi aos pobres que destinou Deus por Jesus, o anúncio do Evangelho. Ele mesmo o afirmou: "para proclamar o Evangelho aos pobres". E o Padre Cícero foi fiel, como santificado pelo Espírito da Vida e da Verdade, a lutar pela vida, e proclamar a Verdade da libertação evangélica aos pobres, dos quais é o Reino dos Céus. À medida que a Igreja se aproxima mais das suas fontes primitivas, reconhecendo seu tesouro verdadeiro, que é como já dizia São Clemente, Papa...OS POBRES...Aqueles testemunhos mais vivos da santidade próxima da santa pobreza, são reconhecidos, são declarados santos e assim canonizados. Temos agora um Papa com nome de FRANCISCO, e é de esperar que em breve tenhamos mais um santo dos pobres, um santo do povo, o Padre Cícero de Juazeiro. Assim Seja. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dom Samuel Dantas de Araújo: três sonetos sobre figuras da história do Ceará

O BISPO DOM JOAQUIM…

Como tantos outros antes de vós
Ao funesto cancro da inveja sucumbistes
Movendo a nosso padim, perseguição sem limites
Injusta, iniqua, criminosa e atroz

Vós, um alto dignitário da santa Igreja
Procedestes como um feroz tirano
Impiedoso, autoritário e desumano
Vítima do monstro chamado inveja

Por vossa causa, um homem justo e santo
No silêncio do seu calvário, padeceu tanto!
Como se da humana justiça fosse um réu…

Vos  comportastes como os vís algozes
De Jesus, que entre sarcasmos e blasfêmias atrozes
Deram-lhe para beber, amaríssimo fel.

A BEATA MARIA DE ARAÚJO

A semelhança do divino e manso cordeiro
Fostes neste mundo duramente perseguida
Passastes todo o curso de vossa sofrida vida
Misticamente cravada em um madeiro

Sem terdes tido jamais um instante de sossego
Trazíeis em vosso peito, de Cristo o amor
No corpo  portáveis  as dores do vosso Senhor
Perseguida por um invejoso néscio e cego

Deus porém, que não deixa sem copiosa recompensa
Quem nesta vida o serve, buscando-lhe a glória
Vos reservou no céu uma alegria imensa!

E já que estais, ó beata, de Deus tão perto
Rogai pelos que defendem na terra vossa memória
Enquanto peregrinam neste árido deserto.

AO PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Fidelíssimo dispenseiro da palavra divina
Digno administrador dos santos sacramentos
Santo entre os santos, bento entre os bentos
Cuja vida, nosso Cariri até hoje ilumina.

Pastor piedoso, que elegestes a dama pobreza
Como a suave companheira de vossa vida
Que fizestes da salvação do próximo, vossa ocupação preferida
E tivestes somente no céu, a única e verdadeira riqueza.

Vós que passastes por este mundo qual uma estrela
Peregrina, por Deus destinada a espargir a divina luz
Nos miseráveis perdidos que não conseguiam vê-la…

Ó santo já canonizado por todo querido nordeste
Na excelsa ventura da pátria eterna e celeste
Rogue por seus devotos ao Senhor Jesus…


quinta-feira, 3 de abril de 2014

SONETO LAUDATÓRIO AO PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Ó tu que passaste por este vale de dor
de miséria, de erro, de desacerto, de pranto
semeando a paz, a verdade e o amor
qual verdadeiro cristão, um autêntico santo

tu...que sentiste dos homens a inveja
e por iníquos decretos foste condenado
tu...que sempre obediente a santa igreja
soubeste a calunia odiosa sofrer calado!

tu que neste mundo...pavoroso caos
onde não raro triunfam os maus
viveste desprendido dos bens passageiros!

tu...que já ultrapassaste a tão temida morte
roga por essa multidão de cansados romeiros
que sempre acorre a teu Juazeiro do Norte!

Salvador, 2 de Abril de 2014
DOM SAMUEL DANTAS DE ARAÚJO, OSB
Monge do Mosteiro da Bahia
Zelador do Noviciado

domingo, 23 de março de 2014

Juazeiro do Norte comemora 170 anos de Padre Cícero Romão

23.03.2014
O aniversário será lembrado com várias atividades, entre elas uma Caravana que percorrerá o Brasil


Sacerdote ainda é venerado por milhares de fieis
de muitas regiões do Nordeste.
Foto: Eduardo Queiroz
Juazeiro do Norte. Um santo, visionário, profeta, conselheiro das massas ou um homem extraordinário. Todas essas definições podem caber muito bem para o cearense que ultrapassa as fronteiras da transcendência. Aos 170 anos de aniversário, completados amanhã, o Padre Cícero Romão Batista, 80 anos após a sua morte, chama a atenção de estudiosos de diversas partes do mundo.

Livros lançados sobre sua vida se tornam best-seller ou são até reeditados depois de quatro décadas. As obras também tornam-se produtos atrativos para uma boa leitura, pela análise de sua história.


Diante da dimensão da data de aniversário do religioso tão conhecido pelo Brasil afora, a partir da próxima quarta-feira, 25, sai por diversos estados do Brasil a Caravana do Meu Padim, com várias relíquias do sacerdote e do município de Juazeiro do Norte.

O caminhão, que leva muitos pertences importantes do religioso, irá percorrer os municípios brasileiros com uma instalação itinerante e bem diversificada para atrair olhares de curiosos e também de pesquisadores.

O percurso de milhares de quilômetros a ser seguido pela caravana pelo País afora, ainda é indefinido quanto à quilometragem. Durante a viagem serão colhidas assinaturas durante a viagem, para serem entregues ao Papa Francisco, como forma de chamar a atenção para o processo de reabilitação.

Os documentos pertinentes ao assunto já foram entregues pela comissão de reabilitação à Congregação para a Doutrina da Fé, em 2006. Ainda hoje não se tem nenhuma informação sobre o andamento do processo.

História e estudos

Muitas são as atividades para lembrar o
aniversário natalício do religioso, tão amado
 por seus devotos, entre elas uma Caravana
intitulada Meu Padim com reliquias do sacerdote
e também do município.
Foto: Elizângela Santos
O Padre Cícero Romão Batista nasceu no dia 24 de março de 1844, na cidade de Crato, e morreu, 90 anos depois, no dia 20 de julho de 1934. Em março de 1865, ingressou no Seminário de Fortaleza, para seguir a carreira eclesiástica, onde foi ordenado em novembro de 1870.

Em abril de 1872, com 28 anos de idade, Padre Cícero Romão passou, então, a residir em Juazeiro do Norte, onde foi vigário e também prefeito.

O religioso por anos vem sendo analisado por muitos estudiosos. Prova disso é que pesquisadores, este ano, irão se debruçar nos estudos do IV Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero E ...Onde está ele?, que será realizado de 16 a 20 de setembro deste ano.

A temática do evento mais um vez envolve o sacerdote, em busca de maior aprofundamento dos estudos sobre a atual condição em que é visto pela sociedade e o que ainda poderá ser explicitado a seu respeito, do ponto de vista da natureza histórica, sócio-política, antropológica, dentre tantos outros aspectos.

Enquanto o Simpósio não é realizado o Padre Cícero Romão será lembrado de outra forma: através da Caravana do Meu Padim. Para o coordenador da Caravana, Marcelo Fraga este será mais um grande itinerário, desta vez a ser seguido Brasil afora, para levar o nome e a história do religioso até as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de estar em Juazeiro do Norte.

Ele está ansioso quanto à surpresa que a caravana poderá causar, mas ao mesmo tempo lembra que ano passado a exposição com as relíquias do Padre Cícero foram expostas no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no bairro do Limão, em São Paulo, quando na oportunidade, percebia nas pessoas que visitaram o espaço a alegria de estar tendo acesso ao material.

Para o escritor Geraldo Menezes Barbosa, aqueles que jamais pensaram em ver algo relacionado à história do Padre Cícero, chegam em Juazeiro do Norte e parecem sentir que tudo foi verdade, pela expressão da segurança como os objetos pertencentes ao religioso aparecem aos olhos do moderno. "Mostra a verdade e o que era a beleza histórica do Padre Cícero", disse.

Mais fiéis

São quase 90 anos de vida do religioso e o escritor afirma não acreditar que as romarias estejam diminuindo, mas se multiplicam com as novas gerações. "Mudaram os números, mas o poder da fé continua da mesma maneira", avalia. Quanto à reabilitação do Padre Cícero, ele não acredita que haja tão cedo o reconhecimento. Conforme avalia, a Igreja sempre estará protelando essa análise e isso confirma que já foi decido pela igreja. "Mas a fé do Padre Cícero tem a força da imortalidade", ressalta.

Ainda conforme o escritor Geraldo Menezes, mesmo após os 170 anos de nascimento do Padre Cícero Romão, há mudanças na forma de ver o sacerdote, a partir das novas gerações. "O mundo é uma eterna mudança, mas no fundo, a história de Juazeiro do Norte tem essa raiz inabalável, que é o produto do milagre", afirma.

No dia 20 de cada mês, a data tradicional das missas do Padre Cícero, reúne na praça do Socorro milhares de pessoas e não foi diferente na data anterior ao seu aniversário, e também amanhã, cedo, quando será cantado o parabéns ao homem que se tornou santo para muitos sertanejos. "Esse, que significa um pai amoroso. Mesmo antes de ser afastado de ordens, já era considerado dessa forma pelos romeiros que o procuravam para conversar, pedir orientações e conselhos a ele", afirma o escritor Geraldo Menezes.

Bom sacerdote

"É uma expressiva demonstração de fé a uma pessoa santa, um padre virtuoso que morreu com a punição de suspensão das ordens declarada pela Igreja, da qual nunca se afastou", diz o pesquisador Daniel Walker.

Para ele, Padre Cícero Romão Batista está canonizado pelo povo cearense, e de outras regiões, e a própria igreja sabe disso. "Padre Cícero é uma das personalidades mais festejadas que conheço. Até no aniversário de morte, dia 20 de julho", diz Walker, ao traduzir de forma simples o carisma e a grande devoção popular ao pároco, que fundou o município de Juazeiro e incentivou o seu desenvolvimento, sob o lema da fé e do trabalho.

Programação

A Semana Padre Cícero, dentro da programação pertinente ao seu aniversário natalício, inclui desde encontros e debates, a elaboração do tradicional bolo de aniversário, a ser instalado na praça do Socorro, a 32ª edição da Corrida Padre Cícero, que sairá da Praça da Sé, no Crato, chegando na Praça Padre Cícero, em Juazeiro, e a apresentação de grupos de tradição popular.

O Padre Cícero sempre gostou de comemorar o seu aniversário. Tanto que festejou os seus 90 anos com grande festa na cidade. Nesse dia foi feriado e começou com uma alvorada festiva e show pirotécnico, além de um almoço servido em sua casa.

O feriado continua, tanto que em todo o Estado, no dia 19 o comércio, escolas e repartições públicas são fechados, mas a cidade dá preferência à data de 24 de março, e funciona normalmente no Dia de São José. E tem também o bolo gigante. Os parabéns e o apagar das velas para o aniversariante acontece pouco depois da meia-noite.

Mais informações:

Caravana do Meu Padim
Rua Padre Cícero, 499
Centro
Juazeiro do Norte - CE
Telefone: (88) 8827.4015

Elizângela Santos
Repórter

FIQUE POR DENTRO
O suposto milagre do religioso

Em 1889, durante uma comunhão, a hóstia consagrada por Padre Cícero sangrou na boca de uma beata chamada Maria de Araújo. O povo considerou o fato um milagre. As toalhas utilizadas para limpar o sangue tornaram-se objetos de adoração. A notícia espalhou-se e Juazeiro começou a ser visitada por peregrinos, com a finalidade de conhecer de perto o religioso. Padre Cícero chegou a ser acusado por membros da Igreja de manipular a fé das pessoas e cometer uma heresia. O 'fenômeno' tomou proporções com sua divulgação em todo o Nordeste e foram realizados vários questionamentos sobre a veracidade do 'milagre'. A beata chegou a ser levada ao Crato, e o sacerdote foi punido com a suspensão de ordens, em 1894. Mesmo assim, uma grande quantidade de pessoas vinha à sua procura, e ele atendia com atenção e aconselhava a todos. Mesmo proibido de celebrar, ele lutou para ter a permissão da igreja. No ano de 1898, chegou a ir à Roma, encontrar-se com o papa Leão XIII. Durante a visita, ainda chegou a receber autorização parcial, mas ainda estava proibido de celebrar. Mesmo assim, continuava com suas orações junto com o povo, em Juazeiro.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Deus assina em baixo

Pedro Nunes Filho

Reabilitar Padre Cícero, por quê? O que ele fez de errado? Cometeu algum delito? Criminosos que andam na deslei é que precisam de reabilitação para se reinserirem no convívio social, e não mais voltarem a delinquir. 

Padre Cícero foi um homem de bem, um benfeitor da região que soube acudir o povo em estado de miséria absoluta.

A meu ver, quem precisa de reabilitação é a Igreja que errou feio. Roma é que carece se postar de joelhos e pedir perdão ao Padre Cícero e a todos os romeiros, que entenderam e incorporaram sua mensagem de fé, de simplicidade, humanismo e sabedoria. 

Padre Cícero já é santo e da forma mais legítima que pode haver: pelas mãos do povo ele subiu aos altares das casas humildes, sem precisar de processo de beatificação, muito menos de vultosos gastos com ridícula canonização, como costuma acontecer com pretensos santos. 
Acho que ninguém, ninguém mesmo, tem o poder de dizer que uma criatura é santa ou não. Na verdade, somos todos santos porque participamos da essência divina. Isso é o que importa. O julgamento dos homens e da Igreja é absolutamente irrelevante e dispensável. O homem é santo porque o povo assim o quis e Deus com certeza assina em baixo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A voz do povo é a voz de Deus?

   Lauro de Sá Barreto(*)  

      Agora é oficial: o próprio papa Francisco anunciou para breve a canonização do Padre Anchieta, após quase 400 anos de espera pela conclusão do respectivo processo, que teve início em 1617.
         Será o terceiro santo brasileiro. Nossa primeira santa foi a Irmã Paulina, nascida na Itália e radicada ainda criança em Santa Catarina, e o segundo, este sim genuinamente brasileiro, Frei Galvão, paulista de Guaratinguetá.
         Vem agora o espanhol de origem judaica José de Anchieta, natural das Ilha Canárias, onde nasceu em 1534, e brasileiro por adoção, pois aqui chegou aos dezenove anos de idade, onde desenvolveu notável trabalho de catequese entre os nativos. Foi um dos fundadores da cidade de São Paulo, poeta, historiador e estudioso da língua tupi. É, merecidamente, considerado como o Apóstolo do Brasil.
         Três santos, dois deles “naturalizados” brasileiro, é muito pouco para o país de maior rebanho católico do mundo. Os Estados Unidos, onde o catolicismo não tem a mesma força, já possui doze santos reconhecidos pelo Vaticano e quase todos legítimos filho da terra.
         Além deste minguado número de santos, é muito recente a presença de brasileiros nos altares da Igreja Católica: nossa primeira canonização, da Irmã Paulina, só ocorreu em 2002. E os processos mais antigos, como o da Madre Maria José de Jesus, filha do historiador Capistrano de Abreu, costumam ficar empacados anos a fio. Recentemente, a jornalista Anna Ramalho, sobrinha neta dela, publicou veemente artigo na imprensa reclamando da demora na canonização daquela que foi a primeira carioca beatificada, lá se vão mais de 20 anos.
         O mais grave, no entanto, é que nossos santos padecem de um “grave pecado”: não são bons de bilheteria, ou seja, não atraem uma plateia expressiva de devotos. É de se perguntar: você conhece algum devoto da Santa Paulina, do São Galvão ou do futuro São José de Anchieta? É difícil...
         Embora essa constatação não retire o mérito ou o grau da santidade de cada um deles, a verdade é que são santos que não empolgam a comunidade católica brasileira. E esta parece ser a tendência das próximas canonizações que podem se avizinhar, como, por exemplo, a da menina Odetinha e a do casal Zélia e Jerônimo, com processos de beatificação recentemente abertos com grande alerde pela Arquidiocese carioca: meros desconhecidos do grande público. E os próximos nomes cogitados vão pelo mesmo caminho: o médico surfista Guido Shäffer, cujo processo deve ser instaurado em maio deste ano, e o teólogo Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, que viveu maior parte de sua vida na Europa e é pouco conhecido entre nós.
         De apelo popular visível e considerável, só mesmo o Padre Cícero, cujo processo de reconciliação da Igreja com ele ainda engatinha lerdamente pelos corredores da Santa Sé, e a mineira Nhá Chica, de Bependi, recentemente beatificada, mas longe ainda da canonização. Ambos contam com imensa aceitação na devoção dos fiéis, embora a Igreja ainda não os tenha declarado santos.
         Fora isso, nossos candidatos à santidade possuem diminuta torcida de devotos, o que de certa forma torna sem graça suas candidaturas e lança uma dúvida: será que a voz do povo, que já consagrou o Padre Cícero e Nhá Chica, é mesmo a voz de Deus? Ou em matéria de santidade isso não tem nenhum valor?
         A Igreja precisa refletir sobre este tema reconhecer as opções da devoção de seu rebanho pode ser um caminho para ajudar conter o crescente enfraquecimento do Catolicismo.
             
______________
(*) advogado e escritor

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Época de romaria

Pedro Nunes Filho

Um mar de gente espalhada por toda parte. Em sua maioria, pessoas humildes, provenientes de vilarejos e sítios perdidos em terras distantes. No semblante de cada um, convicção e serenidade. Mesmo os que ali estão premidos pelos arrochos da vida e pela miséria não deixam transparecer suas dores, antes, semblantes de alegria e serenidade. Alguém que não tenha conhecimento do fenômeno religioso que um dia aconteceu de acontecer aos pés daquela serra imensa e lendária não teria a menor ideia da movimentação pacificiosa que ali se desenrola aos olhos de todos. Para uma aglomeração tão grande de pessoas, a única razão é a fé, a busca do transcendental. Acaso a motivação fosse outra, bastaria um barbudo qualquer metido a revolucionário dar um grito e pronto! A confusão seria grande naquele mar imenso de necessidades humanas. Mas o propósito de cada um ali, como já disse, é o exercício da fé, o desejo de agradecer, a crença num Deus que atende àqueles que suplicam e imploram a proteção divina. Basicamente, pedem chuva, pão, saúde, cura para os males que afligem o corpo e dilaceram a alma. 

Gente de todas as idades num exercício de amorosidade em duas dimensões: Deus e o próximo. Em cada esquina, penitência, orações e louvores. O Deus daquela gente humilde tem forma humana. Não conseguem crer num ser abstrato ou num conjunto de energias vitais responsável pela criação de múltiplos cosmos e de essências imutáveis. Seria irreal, distante. Melhor um Deus forte, valente, guerreiro, à moda do Antigo Testamento, sempre ao lado de seu povo na hora das necessidades que são tantas e desconhecidas dos governantes. Suas carências exigem respostas concretas, soluções radicais e imediatas. Não dar mesmo é para esperar. Não podem! Para muitos, esperar significaria morrer. Morte é tragédia, fim, fracasso existencial. Por isso, tanto sacrifício para obter graças e favores no plano material.

Muitos ali estão em busca de perdão por deslizes, fraquezas humanas ou por terem trilhado os caminhos da deslei. Não importa. O que vale mesmo é a presença, o testemunho e a fé num homem de palavra forte que ainda hoje consegue arrebanhar multidões e tangê-las para a banda de Jesus.

Verdade: quem passa por aquele reduto tido como sagrado nunca mais é o mesmo. Alguma coisa, por menor que seja, melhora em suas vidas depois de erguerem seus chapéus de palha para a bênção e de vivenciarem o exercício da caridade e do perdão. Humildade, arrependimento, penitências e ofertas para construir aquele reduto dedicado à benemerência são demonstrações concretas que atraem o olhar divino.
Melhor que um santo ausente ou distante é um pecador que incorpora as dores e sofrimentos do povo e delas participa, tentando minorá-las.   Ele era assim: de braços abertos, recebia chagados de lepra, aleijados, feridentos, cegos, loucos e todo tipo de criaturas que fediam e davam repugnância. Para ele, a alma não tem cheiro. Nem bom nem ruim. Com esta visão, recebia criminosos, cangaceiros, prostitutas, viciados, pessoas vítimas de injustiça, perseguição política, descriminação social ou qualquer outro tipo de degradação humana. Estava convicto de que o amor e a solidariedade é que dão significado à vida. Conselhos sábios, soluções práticas. Já naquele tempo, recomendava cuidados com o meio-ambiente.

Não elogiava nem condenava ninguém. Apenas escutava e compreendia. A solidariedade era uma nova forma de representar o sagrado, a única capaz de revolucionar a existência humana em qualquer época. 
Com a ação daquele homem, surgiu um humanismo preocupado em fortalecer o espaço público, coletivo e político em benefício de todos, mas especialmente daqueles que nada possuem. Incentivador de artes, ofícios e saberes, uma porta aberta para o trabalho e a profissionalização. Deu exemplos de como sair de si, de como superar o egocentrismo individualista e a opulência da instituição a que pertencia. Sua ação solidária se voltou para as pessoas, não para as abstrações. Dedicou seu tempo aos seres humanos de carne e osso, sacralizados pelo amor. Neste sentido, refundou um novo tempo que sequer foi percebido. Pregou uma transformação que atinge todos os setores da vida humana, uma mudança de perspectiva no plano coletivo. O sagrado não estava no cosmo, mas no outro. 

Não pretendo aqui embelezar os fatos, mas reexaminá-los sem os ranços de ideologias, preconceitos ou dogmas. 
Justiça!
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O AUTOR. Pedro Nunes, residente em Recife, é advogado e escritor, autor de vários livros entre os quais Guerreiro togado, que tem um capítulo sobre o Padre Cícero.  

sábado, 5 de outubro de 2013

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes


Alguns ancestrais do Pe. Cícero pertenciam à Família Bezerra de Menezes. Quem lê estudos mais aprofundados sobre a biografia de Cícero Romão Baptista, o padre secular que revolucionou a Povoação do Joazeiro, entre 11 de abril de 1872 - quando chega na povoação para residir, na companhia de sua família (a mãe Joaquina Vicência – chamada Dona Quinô, duas irmãs – Mariquinha e Angélica, e uma escrava, Terezinha) e 20 de julho de 1934, quando falece - deve ter encontrado alguns destes registros. As suas tetravó e trisavó paternas, respectivamente, Petronila Bezerra de Menezes e Ana Maria Bezerra de Menezes, filha de Petronila, eram relacionadas por genealogistas como oriundas da contribuição étnica da família, dos troncos existentes entre velhos povoadores da Bahia, de Pernambuco e de Sergipe, especialmente. Contudo, as ressalvas eram feitas, admitindo-se que eventualmente fossem estes ancestrais consanguíneos. Levantamentos mais recentes mostram de forma inequívoca, as relações familiares destes avoengos com as mesmas heranças espanholas e portuguesas já referidas para a ancestralidade do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. O nono filho do casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronilla Velho de Menezes, se não teve uma grande importância no povoamento do Cariri, menor não é o significado de sua descendência, especialmente, para Juazeiro do Norte, pois representou o berço do patriarca da extensa Nação Romeira, o reverendíssimo padre Cícero Romão Baptista . Assim:
1. João Bezerra de Menezes matrimoniou-se com Maria Gomes, e foram os pais de:
2. Petronila Bezerra de Menezes que casou com o Cap. João Carneiro de Morais, e geraram:
3. Ana Maria Bezerra de Menezes, que desposou o Cap. Francisco Gomes de Melo, pais de:
4. José Gomes de Melo, capitão, de cujo enlace com Ana de Farias, tornaram-se pais de:
5. Vicência Gomes de Melo, que uma vez casada com José Ferreira Castão, foram os pais de:
6. Joaquina Vicência Romana (ou Joaquina Ferreira Castão – Dona Quinô), de cujo casamento com Joaquim Romão Baptista Mirabeau, foram os pais de:
7. Padre Cícero Romão Baptista.

Por conseguinte, o Pe. Cícero Romão Baptista é um Bezerra de Menezes. Neste caso, sem nenhuma dúvida, este parentesco com os povoadores do Sítio Joazeiro se verifica bilateralmente, pelos lados materno e paterno. (Daniel Walker e Renato Casimiro)

domingo, 22 de setembro de 2013

Igreja prepara reabilitação de Padre Cícero -

Processos de reabilitação e, depois, de oficialização como beato e santo, estão sob exame do papa Francisco. Ele decidirá se o Padim Ciço do Juazeiro, que se tornou líder popular no início do século passado, será beatificado e canonizado numa de suas duas visitas ao Brasil, previstas para 2017 e 2018.
    
O padre Cícero Romão Batista, o maior líder religioso e político do interior do Ceará, nos anos 30, já foi reabilitado, na prática, pela Igreja Católica Romana, depois de ter sido silenciado e excomungado há mais de 100 anos. Os processos de reabilitação e, depois, de oficialização como beato e santo, estão sob exame do próprio papa Francisco. Ele decidirá se o Padim Ciço do Juazeiro será beatificado e canonizado numa de suas duas visitas ao Brasil, previstas para 2017 e 2018.

Seu nome já integra, como referência para a comunidade católica, o programa oficial do 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), que será realizado de 7 a 14 de janeiro de 2014, em Juazeiro do Norte, a cidade do padre Cícero, a 500 km de Fortaleza, sobre o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida”.

As Cebs foram duramente afetadas pela política neoconservadora dos papas João Paulo II e Bento XVI, mas nunca deixaram de se reunir, inspiradas na Teologia da Libertação e nos documentos aprovados pelo Concílio Vaticano. Vários líderes assassinados por participarem das lutas populares urbanas e rurais – como é o caso de Chico Mendes, padre Josimo Moraes Tavares, Santo Dias da Silva, Margarida Maria Alves, Marçal Tupã-Ý e irmã Dorothy Stang – participaram do trabalho das comunidades de base.

Nove encontros preparatórios e círculos bíblicos já começam a ser realizados em todo o Nordeste, preparando o intereclesial de janeiro. O encontro terá também a participação de representantes de outras igrejas cristãs que apoiam o diálogo ecumênico (Luterana, Presbiteriana, Anglicana, Católica Brasileira, Ortodoxa, entre outras).

Semiárido
Um dos temas a serem debatidos em Juazeiro será o papel dos beatos e sua atuação na realidade do sertão semiárido nordestino. “Essa região – diz o texto-base das CEBS – é marcada pela violência no campo, pela luta pela terra e pela concentração da pobreza e da miséria, mas o semiárido não é apenas clima, vegetação, solo, sol ou água. É povo, música, festa, arte, religião e política. É um processo social”. Para as Cebs, a realidade nordestina exige uma verdadeira revolução cultural, que passa pela dimensão religiosa do povo do sertão.

O recurso à história é incluído no texto-base das Cebs como algo fundamental nesse resgate do catolicismo popular. Os “desvalidos dos currais do coronelismo sertanejo” partiram, em massa, no final do século XIX e começo do século XX, para o sertão do Cariri. Esses homens e mulheres empobrecidos já haviam ouvido falar do Padim Ciço, um missionário que anunciava a terra prometida. Sabiam do “milagre da hóstia” que tinha se transformado em sangue quando dada à beata Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo. Nesse período histórico aconteceram várias rebeliões de camponeses pobres em Canudos (1896-1897), Contestado (1912-1916) e Caldeirão (1926-1937).

A religiosidade popular desses sertanejos chocou-se com a ortodoxia do catolicismo dominante. O padre Cícero foi destituído de suas funções e expulso da Igreja. Chegou a viajar ao Vaticano para tentar o perdão do Papa, sem sucesso. Tornou-se o líder político de sua região. Cumpriu até mesmo missões políticas a serviço do governo federal: ofereceu, por exemplo, ao líder do cangaço, Lampião, uma patente de capitão, se envolvesse os cangaceiros na resistência armada à Coluna Prestes.

Preceitos ecológicos
O Padim Ciço tornou-se um líder popular e, já naquela época, tornou-se defensor do meio ambiente. No encontro das Cebs, serão distribuídos folhetos com os 10 conselhos ecológicos elaborados por Cícero: 1. Não derrube o mato, nem mesmo um pé de pau; 2. Não toque fogo no roçado em na catinga; 3. Não cace mais e deixe os bichos viverem; 4. Não crie o boi nem o bode soltos faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer; 5. Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e para que não se perca a sua riqueza; 6. Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva; 7. Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta; 8. Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá, ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só; 9. Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca; 10. Se o sertanejo obedecer a esses preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá o que comer. Mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai vira um deserto só. 

A notícia acima foi estampada no
e foi enviada pela nossa colaboradora Maria do Carmo. 
Com a participação das CEBs é possível que o processo de reabilitação do Padre Cícero ganhe novo ânimo. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

PADRE CICERO: ADVOGADO CRIMINALISTA - Por Arao Pereira e Silva Neto

      Ao se falar na figura ilustre do padre Cícero Romão Batista, patriarca da cidade de juazeiro do norte, cidade localizada no sul do Ceara, torna-se impossível não analisar sua imagem como religioso, como político e principalmente como advogado que foi para o povo nordestino.
Historicamente, Juazeiro do Norte mantinha relações de forma interina com a cidade do Crato, pois não possuía nenhuma estrutura capaz de realizar-se por si só, tendo em seu território apenas algumas casas e uma capela em homenagem a Nossa Senhora das Dores, sendo esta o ponto de oração para as poucas famílias que ali residiam. Motivados pela fé, os fieis do pequeno vilarejo encontraram na figura de um jovem padre formado pelo seminário de Fortaleza e recentemente chegado da capital uma luz para a manutenção das atividades da então capela, que tivera seus trabalhos encerrados pela ausência de celebrante. Na missa do galo do ano de 1871, é celebrada a 1ª missa presidida pelo Pe. Cícero, sendo que, em meados do mês de abril do ano de 1872 fixa-se o então pároco para a vila juntamente com sua mãe e suas irmãs.
Inicialmente tendo seu sustento baseado nas doações dos fieis da vila, o Pe. Cícero realiza um forte e relevante trabalho no aconselhamento dos moradores do lugar, os seus sábios ensinamentos atraíram novas pessoas para a busca de conselhos dados pelo “padim”. Essa elevação no contingente de moradores da região fez como que estimulasse de certa forma a ira de certos fazendeiros que viram seus empregados saírem de suas terras na busca por uma melhor qualidade de vida. O Nordeste em si por possuir em seu levante um histórico baseado na violência através dos cangaceiros, que matavam sem nenhum escrúpulo, teve também em juazeiro um palco para realização de vários atos deste caráter. Muitas vezes familiares de vitimas revoltados com a ação de cangaceiros procuravam o padre Cícero no intuito de ser aconselhado quanto à questão de vingança, e as palavras dadas pelo vigário era apenas do perdão e que buscassem no trabalho e nas orações a força para superar tais aflições. Neste levante, quando muitos dos agentes do cangaço de maneira arrependida procuravam a benção do padre, recebiam-na de fato levando consigo o conselho muitas vezes firmado por ele que dizia: quem matou não mate mais, quem pecou não peque mais.
O numero de episódios desta natureza aumentava a cada dia e a força do padre Cícero aumentava paulatinamente e passava por todo o nordeste e por que não dizer por todo o Brasil, tendo alcançado ate mesmo a imortal figura do rei do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Na busca pelo perdão do padrinho obtém-no de fato. Sendo empossado do dever em parar de cometer os crimes que antes cometia recebendo ainda mais a ordem de evitar voltar às terras juazeirenses enquanto não erradicasse de sua natureza a ação de matar ou roubar, não tendo parado de realizar tais atos não voltou mais a Juazeiro, tendo sido capturado pouco tempo depois e de maneira cruel teve sua cabeça, assim como de seu bando decepada. Este episódio evidencia de forma clara que o padre Cícero, ao contrario do que se diz por ai em ter escondido Lampião por debaixo da batina, sempre primou à honestidade e a dignidade do homem. 
Neste rol de informações defendo minha idéia de que o Pe. Cícero diferente de ter sido um advogado criminológico das ilicitudes e das contravenções foi sim um grande combatente das desigualdades sociais e um grande seguidor das doutrinas católicas. Encerro o presente trabalho deixando claro minha admiração pela figura do patriarca de Juazeiro que até hoje através de suas ações e de suas defesas como advogado do povo sofredor ainda mantém um forte levante de devotos. Não sendo somente neste sentido, deixa-se claro sua firme inteligência, sendo ele o imponente e imortal condutor da economia que ate os dias de hoje rege o município de Juazeiro do Norte.
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Arão Pereira e Silva Neto, é bacharel em Direito, formado pela URCA, atualmente acadêmico de Medicina em Sta Cruz de La Sierra - Bolivia. Escreveu este texto quando cursava o primeiro semestre na disciplina DE SOCIOLOGIA JURIDICA.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

História de uma placa em homenagem ao Padre Cícero

Quem passa pela Praça Padre Cícero dificilmente para a fim de ler os dizeres que têm nas placas afixadas na estátua do Padre Cícero ali localizada. De todas somente uma tem uma história para contar, pois foi tudo documentado pelo seu idealizador, desde a  concepção da ideia até a sua confecção. Essa história está contada com detalhes no livro de Odílio Figueiredo Filho intitulado Odílio Figueiredo, um juazeirense de expressão, cuja transcrição fazemos abaixo devido ao seu valor histórico e para conhecimento das gerações presentes. 

Placa comemorativa do centenário de nascimento do Pe. Cícero

Em março de 1944, Odílio Figueiredo encontrava-se no Rio de Janeiro, então capital da República, com Adelina, sua mãe, Edith sua mulher e seu irmão, Pedro. No dia 24 do mês, comemorar-se-ia o centésimo aniversário de nascimento do Padre Cícero Romão Batista. Sendo um dos líderes de Juazeiro do Norte, ocupando naquele ano, o cargo de Presidente da Associação Comercial do município, resolveu promover algumas reuniões com cearenses radicados naquela cidade para darem uma dimensão mais ampla à efeméride. No dia 19 de março do referido ano, no hotel onde se encontrava hospedado, tendo às mãos um álbum19 com páginas em branco para registro das atas que seriam realizadas nessas reuniões, assinalou: "Aos dezenove dias do mês de março de 1944, à Rua do Catete 160, hotel onde se achava hospedado o Sr. Odílio de Figueiredo, teve lugar a primeira reunião de cearenses no Rio convidados especialmente para tratarem dos assuntos relativos às comemorações que seriam prestadas na passagem do 1º centenário de nascimento do Padre Cícero, fundador de Juazeiro e homem de incontestável valor no desenvolvimento de toda zona sul do Estado do Ceará. A ele se deve o desenvolvimento da cidade desde os seus primórdios, a cuja obra se dedicou inteiramente desde sua chegada ali, como Capelão, no ano de 1872. Graças a essa dedicação e ao incomparável trabalho por ele ali desenvolvido, Juazeiro tornou-se em pouco tempo, o centro mais populoso do interior do Estado e uma das maiores e mais florescentes cidades do Nordeste. O acelerado desenvolvimento de Juazeiro veio contribuir também de modo acentuado para o povoamento de todo o Vale do Cariri, da Serra do Araripe e das zonas circunvizinhas, concorrendo como fator preponderante para o grandioso cenário produtivo de que desfruta hoje toda aquela rica região do Estado. Mais que justas, portanto, são as homenagens que lhe serão prestadas por ocasião da passagem do seu 1º centenário de nascimento, porque qualquer que seja o conceito formado em torno de sua personalidade, jamais será possível duvidar tenha sido ele um dos maiores responsáveis pelo crescente progresso em que se encontra hoje a região sul cearense. Assim, movidos pelos mesmos sentimentos de gratidão para com o benemérito fundador da cidade de Juazeiro, reuniram-se os cearenses no Rio, numa demonstração de veneração e apreço à sua memória. Organizada a reunião, foi constatada a presença dos senhores: Odílio Figueiredo, Apício Macedo, José de Almeida Cavalcante, José de Figueiredo Matos, Odilon Calheiros Sobreira, Pedro da Franca, Geneflides Matos, Lauro Brizeno Costa, Souza Alves Leite, Enoque Pereira Guimarães, Antonio Nascimento Rocha, Paulo Alves Pontes, Raul Loyola de Alencar, Jeffé Matos, Joaquim Sisino Rocha, Paulo Sampaio, José Cordeiro, Ernâni Silva, Pedro Figueiredo e José Brizeno de Almeida." Na Assembleia foram aprovados os nomes de Odílio Figueiredo, Apício de Macedo e José Almeida Cavalcante, respectivamente para os cargos de Presidente, Secretário e Tesoureiro para direção daquela evento. Dessa reunião resultou a constituição de um grupo de trabalho para dar sequência às resoluções, discriminadas a seguir, aprovadas naquela Assembleia: Ia - construção de uma placa de bronze em alto relêvo, de 40cm X 60cm, contendo os seguintes dizeres:
"23.03.1844 - 23.03.1944. No transcurso do 1º Centenário de Nascimento do Padre Cícero, os cearenses no Rio de Janeiro mandaram colocar esta placa em homenagem ao fundador da cidade"; 2ª - Transmissão de telegramas aos senhores Presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa(ABl), Interventor Federal do Estado do Ceará, Presidente da Associação Comercial de Juazeiro do Norte, Presidente da União Beneficente de Juazeiro, Centro Regional de Publicidade de Juazeiro e Gazeta do Cariri de Crato; 3ª - Nomeação da Comissão da Placa que ficou assim constituída: Presidente: Dr. Deoclécio Dantas; demais membros: Antônio Apício Macedo, Dr. Jeffé Matos e José de Almeida Cavalcante; 4a - Constituição da Comissão de Propaganda que ficou assim constituída: Presidente: Edmar Morel; demais membros: Pedro da Franca, Geneflides Matos e José Cordeiro Sobral. Por sugestão do Presidente da Assembleia correu-se uma lista entre os presentes para coleta dos recursos financeiros necessários ao custeio da placa. 
As contribuições financeiras recebidas totalizaram a importância de Cr$ 1.110,00 (Um mil cento e dez cruzeiros), discriminada, a seguir, segundo o valor doado por alguns dos presentes:
Doador Cr$
Odílio Figueiredo 100,00
Pedro da Franca 100,00
José de Almeida Cavalcante 100,00
Joaquim Sisino Rocha 100,00
Ernâni Silva 50,00
Jeffé Matos 50,00
Geneflides Matos 50,00
Antônio Nascimento Rocha 40,00
Pedro Figueiredo 40,00
Enoque Pereira Guimarães 30,00
José Cordeiro 50,00
Souza Alves Leite 50,00
Raul Loiola de Alencar 40,00
Paulo Alves Pontes 40,00
José de Figueiredo Matos 25,00
Odilon Calheiros Sobreira 25,00
Paulo Maia 30,00
Lauro Brizeno Costa 50,00
Apício de Macedo 40,00
João batista S. Cavalcante 100,00

A essa reunião seguiram-se mais duas, sendo a última realizada no dia 24 de abril daquele ano para a sessão solene comemorativa do 1º centenário de nascimento de Padre Cícero, realizada na Praça Floriano, 55-10° andar e presidida pelo Sr. Deoclécio Dantas. Foram oradores oficiais dessa Assembleia: José de Almeida Cavalcante que falou sobre o padre e a fundação da cidade; Dr. Pedro Coutinho Silva que abordou a vida do padre sob o aspecto político; Bacharel Jéferson Matos que enfocou a vida sacerdotal do Pe. Cícero; e Dr.Geneflides Matos que deu ênfase, em seu discurso ao Padre Cícero como educador e Edmar Morel que fez uma abordagem sobre o espírito nacionalista do Padre Cícero. Fizerem uso da palavra, ainda, Odilon Sobreira, Francisco José da Silva, Odílio Figueiredo. Os membros que participaram dessa reunião delegaram a meu pai a incumbência de transportar do Rio para Juazeiro, a placa de bronze, que deveria ser colocada, como efetivamente o foi, no pedestal da estátua do Padre Cícero, na Praça que leva o seu nome em Juazeiro. Esse álbum, que para mim é uma relíquia histórica, além dos registros à mão relativos às reuniões havidas no Rio, contém fotos, notas de jornais, crónicas de Austregésilo de Athayde e de Rachel de Queiroz sobre o evento, publicadas em jornais do Rio de Janeiro e uma carta do Padre Azarias Sobreira, sobre o referido "álbum" encaminhada a meu pai em 17 de julho de 1944, da qual eu pincei o seguinte texto: "Tirante Xavier de Oliveira e o Padre Macedo, nenhum outro juazeirense meteria ombros a semelhante empreendimento, se levarmos em conta a hostilidade característica da metrópole (Rio) e a sua condição de forasteiro recém-chegado ali." O documento em referência será entregue por Odílio de Figueiredo Filho, ao Prefeito de Juazeiro do Norte, para ampliar o acervo de bens do Memorial Padre Cícero.
Memória fotográfica do evento



domingo, 23 de junho de 2013

Os preceitos ecológicos do Padre Cícero como lições de convivência harmoniosa com o semiárido nordestino Por Judson Jorge da Silva

A região Nordeste vivenciou nos últimos dois anos (2011-2012) mais um período de seca. Em 2013, os institutos meteorológicos apontam que novamente os índices de precipitação ficarão abaixo da média necessária para garantir o abastecimento satisfatório dos reservatórios hídricos, tampouco serão capazes de garantir condições para a safra de grãos, sobretudo dos pequenos produtores que realizam seus plantios sem uso de técnicas de irrigação, dependendo exclusivamente da quadra chuvosa para o cultivo.

No Ceará, que possui uma área total de 148.825,6 km 2, 86,8% desse total, ou seja, 126.514,9 km 2 estão inseridos em pleno semiárido, que abrange um total de 150 dos 184 municípios cearenses. Em 2013, apesar de nem todo o estado se encontrar dentro do semiárido, dos 184 municípios que o compõem, 177 declararam situação de emergência em virtude da falta de chuvas, demonstrando a gravidade da situação.

Se em pleno século XXI, período no qual se dispõe de maiores recursos técnico-científicos, tanto para prever quanto para mitigar os efeitos da seca, as consequências desse fenômeno natural são alarmantes para as lavouras, os rebanhos e a sociedade, sobretudo para o homem do campo, em especial os mais pobres, observando seus efeitos na atualidade, podemos concluir como eram devastadoras as consequências da seca nos séculos anteriores. Mas é justamente do passado, de experiências ocorridas em comunidades rurais da região do Cariri, surgidas em torno de aconselhamentos do Padre Cícero, de Juazeiro do Norte, que podemos buscar lições de como melhor conviver com o semiárido, na tentativa de encontrar metodologias e ações que, se postas em prática, podem vir a amenizar os efeitos das periódicas secas que assolam parte da região nordestina.

Primeiramente, é necessário desmistificarmos alguns (pré)conceitos sobre o Nordeste brasileiro. É muito comum que essa região seja, muitas vezes, associada apenas à paisagem da Caatinga em seu período de queda das folhagens em virtude do período de estiagem e a contextos de miséria em decorrência da seca. No entanto, não é todo o Nordeste do Brasil que sofre com esse fenômeno natural. Nem todo o Nordeste é abrangido pela Caatinga, existindo outros biomas na região. É preciso desmistificar também a falsa compreensão da Caatinga como sendo uma área “sem vida”. Ao contrário do que o senso comum imagina, a Caatinga possui uma rica biodiversidade de fauna e flora, ainda pouco conhecida e pesquisada.

Também é preciso compreender que a seca é um fenômeno natural recorrente e que as mazelas vivenciadas pela população, quando ela ocorre, são de caráter eminentemente social. Se a concentração de renda e concentração fundiária não fosse tão intensa, se o desenvolvimento regional do Nordeste não se desse de maneira tão desigual entre capitais, cidades médias e o interior, os efeitos da estiagem não seriam tão impactantes. Da mesma forma, se o acesso à educação e o nível de escolaridade da população fossem maiores, se o acesso a recursos financeiros, tecnológicos e a assistência técnica fossem satisfatórios e se existisse diversificação produtiva e que ocupasse a população economicamente ativa em atividades dinâmicas, a realidade do semiárido seria bastante diferente.

É na área definida como polígono das secas, que compreende partes dos territórios dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e extremo norte de Minas Gerais e do Espírito Santo que a semiaridez e os efeitos da escassez de chuva são mais intensos. Porém, mesmo nessa área politicamente delimitada, não existe homogeneidade do quadro ambiental. Nos estados mencionados existem áreas mais úmidas, menos úmidas, há os microclimas que favorecem a ocorrência de precipitações, diminuindo o déficit hídrico e dando origem a solos profundos, férteis e propícios ao cultivo agrícola. Esse é caso da região do Cariri cearense, localizada no extremo sul do Ceará, na divisa com os estados de Pernambuco, Paraíba e Piauí.

Encravado em pleno sertão nordestino, o Cariri do Ceará apresenta características peculiares que o diferenciam do seu entorno sertanejo, embora também seja sertão, por se configurar como um enclave úmido em pleno semiárido. Essa característica é possibilitada pela existência do relevo arenítico da Chapada do Araripe e pela Floresta Nacional do Araripe, que dão origem a 348 fontes, segundo dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), formando uma série de riachos perenes, o que resulta em uma área de solos mais produtivos, fazendo da região do Cariri cearense uma “ilha agrícola” no meio da Caatinga.

Entretanto, até mesmo o Cariri, com essa enorme quantidade de fontes, não escapa ileso dos períodos de estiagem prolongados. Foi nesse cenário que cresceu e viveu Padre Cícero Romão Batista, um importante líder religioso e político com grande influência no Nordeste, sobretudo no Ceará.

Figura bastante controversa em razão do seu trânsito livre entre as diferentes classes sociais, o Padre Cícero é visto por uns como sendo o “padinho”, uma figura carismática que costumava chamar os romeiros e os habitantes da cidade de Juazeiro do Norte de “amiguinhos”, um homem que se tornou um santo popular ainda em vida, em decorrência dos supostos milagres de transformação da hóstia consagrada em sangue, durante comunhões que ministrava à beata Maria de Araújo. Desses acontecimentos, surgiu uma enorme devoção em torno do sacerdote, dando origem à s romarias que na atualidade atra em cerca de dois milhões e meio de fiéis por ano à cidade de Juazeiro do Norte. Já outros o veem como uma figura estritamente política, por ter sido o primeiro prefeito da cidade de Juazeiro do Norte e em razão das atitudes e alianças que o caracterizariam como um tradicional coronel nordestino, ligado às oligarquias fundiárias do estado do Ceará. Sem entrar nesses méritos, este artigo tem o intuito de refletir sobre a influência do Padre Cícero na formação de núcleos rurais na região do Cariri, que se formaram a partir das romarias em torno de sua pessoa, quando ainda era vivo, e analisar como as suas ações políticas, sociais e suas concepções ecológicas influenciaram na organização e nas relações de convívio e apropriação da natureza realizada por essas comunidades.

Se na atualidade os efeitos dessas secas periódicas ainda geram problemas sociais de significativa relevância, de meados do século XIX a meados do século XX, quando viveu o Padre Cícero (1844-1934), os efeitos eram ainda mais desastrosos, dada a falta de equipamentos estruturais mínimos, como açudes, cisternas, adutoras, rodovias, estradas de ferro e um sistema de logística para a distribuição de água e mantimentos nos períodos mais críticos. Observando suas ações, é possível perceber que as várias secas, com todas as suas consequências, vivenciadas desde a infância pelo Padre Cícero, atuaram de modo marcante em sua estrutura psicológica e em seu imaginário, de maneira a influenciar suas ações sociais, políticas, econômicas e ambientais na região.

Padre Cícero sabia da importância e sentia a urgência de ações voltadas ao combate dos efeitos desse fenômeno natural e, ao mesmo tempo, social. Cícero aprendeu do jeito mais doloroso que era necessário encampar desde orações à construção de obras hídricas e assistencialistas, além de ações políticas e ensinamentos de convivência com o semiárido. O fenômeno devastador da seca, que insistia em ceifar a vida de milhares de pessoas quando ocorria, sempre levara consigo alguém do seio familiar do sacerdote.

Entre 1877 e 1879, o Nordeste viveu uma das maiores e mais dramáticas secas da história. Nem mesmo o oásis caririense escapou. Como de costume, as doenças vinham a galope, na garupa da falta de água e de comida. Uma epidemia de varíola elevou o obituário do triênio, só na província do Ceará, à cifra assustadora de 180 mil almas, contra os poucos mais de 6 mil mortos em toda a década anterior. Cícero Romão, que na seca de 1862 perdera o pai para a cólera, aos 34 anos viveria nova e dolorosa tragédia pessoal: entre as vítimas da grande estiagem, estava sua irmã Maria Angélica, a filha mais nova de dona Quino. ‘Tenho tanto medo’, confessou Cícero em carta ao bispo, atribuindo o flagelo à fúria divina. ‘Nem se pode duvidar que tanta avareza, tanta impudicícia, tanto assassinato, tanto crime em escala nunca vista façam continuar o castigo e aparecer outros maiores’, previu. Não era só o sertão que agonizava. As notícias que chegavam de Fortaleza eram aterrorizadoras. A capital, que possuía cerca de 30 mil moradores, recebera 200 mil retirantes, arranchados em praça pública, em condições insalubres. A varíola aproveitou para atacar sem piedade. Em um único dia, 10 de dezembro de 1878, o cemitério da cidade recebeu, oficialmente, 1.004 corpos. ‘O número de mortos devia ser muito maior porque em torno da cidade, pelos matos e valados, inumavam-se cadáveres ou se deixava apodrecer insepultos’, testemunhou na época o médico historiador cearense barão de Studart. Na manhã seguinte àquele que ficaria conhecido como o Dia dos Mil Mortos, Fortaleza amanheceu com uma nuvem negra pairando sobre a cidade. Não era nenhum sinal de chuva: eram centenas de urubus que davam rasantes no céu. Lá em baixo, cães disputavam entre si restos de carne humana ( Lira Neto, 2007, p. 56).

Tendo vivenciado esses horrores, é mais do que natural que o misto de saberes adquiridos a partir da influência do meio social no qual se criou, de suas vivências e de seus estudos mais apurados e o acesso ao saber erudito adquirido no seminário, tenham cunhado um sincretismo de conhecimentos populares e científicos, que constituiu seu embasamento para suas ações políticas, ao chamar a atenção e cobrar do poder público e seus representantes uma maior atenção e cuidados para prevenir os efeitos e/ou socorrer a população cearense das consequências das secas periódicas que assolavam o Ceará e causavam, principalmente para a população mais pobre, muito penar. Tal afirmação pode ser constatada nas palavras do próprio sacerdote:

Só quem viu 1877 entre nós, pode avaliar o que seja o flagelo das secas nos sertões do Norte! É uma aflição os horrores da seca; parece que fica deserto o Ceará. Cada cearense deve ser uma trombeta na imprensa e em toda parte, gritando com toda força, pedindo socorro para o grande naufrágio do Ceará. Pode ser que esses governos, que têm dever de salvar os estados nas calamidades públicas, despertem este clamor e não queiram passar por assassinos, deixando morrer caprichosamente milhares de vidas que podiam salvar e não querem. Estamos certos que só a Providência nos dará remédios (Padre Cícero apud Walker, 2006, p. 15).

Além da posição política, destacam-se também seus aconselhamentos dados aos sertanejos voltados para uma convivência mais harmoniosa com o semiárido, apontando práticas de preservação do meio ambiente, além de técnicas de trabalho na agropecuária, bem mais acertadas para áreas sujeitas aos processos de degradação e desertificação, presentes em grande parte do nordeste brasileiro. A esse respeito, Walker aponta:

No Cariri, há mais de cem anos, quando ninguém falava em ecologia, o Padre Cícero – como extraordinário homem de vanguarda que foi –, se antecipava e ensinava preceitos ecológicos aos romeiros. Eram coisas simples, como ‘não derrubem o mato; não toquem fogo no roçado; deixem os animais viverem; não matem os passarinhos; utilizem as plantas medicinais’, mas que surtiam um grande efeito. Essa iniciativa de Padre Cícero, hoje largamente disseminada no Nordeste, foi elogiada por ecologistas de renome, como o professor J. Vasconcellos Sobrinho, no seu livro Catecismo de ecologia (Vozes, 1982), e Dr. Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente, o qual, em artigo publicado no jornal O Globo (19/01/94), disse que Padre Cícero ‘pregou em pleno sertão nordestino a palavra que hoje a consciência ambiental a duras penas começa a inscrever na nossa visão de mundo. Muito antes de que se realizasse a I Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, em 1972, ele teve essa percepção aguda de algo que constitui antes de tudo um interesse legítimo, identificado por quem está próximo da realidade (2006, p. 3).

Nesse sentido, destacam-se os seus onze preceitos ecológicos, que ensinava para os romeiros que visitavam Juazeiro, bem como para os que, decidindo permanecer nas proximidades da cidade, eram aconselhados pelo sacerdote a tornarem-se agricultores e, dentre outras culturas, alertava para a necessidade de se “plantar a mandioca-preta, conservar ela, porque, quando vier a seca, não acha o povo desprevenido” (Padre Cícero apud Walker, 2006, p. 31).

É importante ressaltar que Padre Cícero não deixou nenhuma obra escrita publicada. Por essa razão, buscou-se saber junto ao professor e pesquisador Daniel Walker, especialista em história do Juazeiro do Norte e sobre o Padre Cícero, as origens dos preceitos ecológicos do sacerdote. Walker esclareceu que os preceitos ecológicos, hoje amplamente difundidos, foram organizados pelo ecologista brasileiro Dr. Vasconcelos Sobrinho (professor, engenheiro agrônomo e um dos fundadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco), com base nos conselhos que Padre Cícero dava aos sertanejos através de cartas. Walker afirma ainda que alguns desses conselhos eram dados durante as pregações diárias que o padre fazia aos romeiros em frente à sua casa, sendo retransmitidos pelo povo através da oralidade.

Em seus preceitos ecológicos, Padre Cícero fazia os seguintes alertas:

Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau
Não toque fogo no roçado nem na Caatinga
Não cace mais e deixe os bichos viverem
Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer
Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza
Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva
Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta
Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só
Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.
Entendemos que foram a partir desses fundamentos que o Padre incentivou o trabalho coletivo temporário, em forma de mutirões, e o trabalho coletivo permanente, em forma de comunidades agrícolas. “Tornando-se conselheiro de uma crescente legião de fiéis, ameaçados pela seca, no sertão nordestino e por limitações materiais dela decorrentes, o Padre Cícero incentivava a orar e trabalhar” ( Araújo, 2005, p. 31).

Ao se formarem comunidades que se constituíram como territórios camponeses, envoltos em um misticismo religioso, é provável que os aconselhamentos do Padre Cícero para se orar e trabalhar, somados ao estímulo da união em mutirão e aos preceitos ecológicos que ensinava aos trabalhadores rurais, tenham se constituído na base estrutural na qual seus devotos seguidores passaram a desempenhar suas atividades produtivas em harmonia ecológica no ato de apropriação da natureza, imprimindo, assim, uma particularidade nos núcleos rurais espalhados pelo Cariri cearense, que ajudou a formar.

Mediante os desafios da seca, Padre Cícero incentivava os devotos ao trabalho de cultivar os campos, para evitar os 'horrores da fome', e à fé, dirigindo promessas ao santo para pedir chuva. Após a seca de 1877, no Juazeiro e no Cariri, o Padre Cícero se preocupava cada vez mais com a agricultura, solicitando junto aos governantes ações voltadas para tentar reverter o problema das estiagens prolongadas. Neste sentido, o Padre incentivou a criação de açudes, reservatórios de água, reflorestamento e abastecimento alimentar. Assim, a preocupação do Padre Cícero com a atividade agrícola, assim como o grande contingente de mão de obra que afluía ao Joaseiro, em busca de trabalho e a extensa quantidade de terras agricultáveis no topo da Chapada do Araripe, contribuíram para a formação de comunidades de pequenos agricultores (Araújo, 2005, p. 40).

Algumas dessas comunidades se perpetuam até os dias atuais, como a de Cacimbas, que se localiza no município de Jardim, no topo da Chapada do Araripe, e que ainda hoje abriga tradicionais coletores de pequi. Acredita-se que em muitas dessas comunidades, a organização, as práticas de trabalho, a oração e a convivência com o semiárido, estavam pautadas em conselhos proferidos pelo “Padrinho Cícero”.

Um exemplo dessas influências do sacerdote na organização das comunidades camponesas pode ser observado nas experiências realizadas no sítio Caldeirão, pelo beato José Lourenço e seus seguidores. O Caldeirão foi uma comunidade camponesa formada a partir de um pedido do Padre Cícero ao beato José Lourenço, um de seus devotos, detentor de importante carisma e liderança. Trabalhando de forma coletiva, a comunidade produzia quase tudo de que necessitava, sendo capaz de prover o sustento de sua população. Incompreendida e perseguida por membros das oligarquias fundiárias do Ceará, a comunidade foi destruída em 1936 por forças da polícia estadual cearense em uma ação que resultou na morte de 400 camponeses.

Os indícios apontam que no Caldeirão foram colocados em práticas os aconselhamentos de oração, trabalho e preservação ambientais tão difundidos pelo sacerdote de Juazeiro. Exemplo disso é o fato de que os camponeses do Caldeirão construíram açudes, fizeram represas no leito do riacho Caldeirão, intercalaram as culturas, possibilitando maior diversidade biológica, preservaram as áreas íngremes do terreno, entre outras práticas. Tais afirmações podem ser constatadas através das palavras do geógrafo Arlindo Siebra, em entrevista a Araújo:

‘Como é possível sustentar toda uma comunidade dependendo de um solo que tem restrições agrícolas? O grande mérito do beato foi exatamente este: ele soube utilizar os recursos e os ecossistemas do semiárido’, afirma o geógrafo Arlindo Siebra. Além do modus vivendi igualitário, o Caldeirão foi um exemplo ecológico para o N ordeste. Segundo Siebra, a comunidade construiu várias microbarragens e dois açudes. Faziam também um tipo de cisterna, que cobriam para evitar a evaporação, armazenando a água no subsolo. Outra característica importante frisada por Siebra era o não-desmatamento da "coroa da serra" – como são chamadas as partes mais altas da fazenda. Normalmente os agricultores trabalham com rotação de culturas, ou seja, queimam a vegetação para adubar o solo e depois plantam durante cerca de três anos. Posteriormente, abandonam a área – deixam a vegetação brotar de novo, o que chamam de ‘encapoeiramento’ – para repetir o processo após três ou cinco anos. A falta de espaço, porém, impedia José Lourenço de fazer as rotações. Segundo Siebra, o beato ‘só plantava abaixo da ‘coroa da serra’, e apenas em um trecho por ano, passando depois para outro. Como a cobertura vegetal da coroa permanecia intacta, quando chovia as sementes eram dispersadas de cima para baixo. Dessa maneira, utilizando a força da gravidade, a área encapoeirava mais rápido que um terreno plano’. Com esse manejo agrícola, somado à criação de peixes e de gado, as quase 2 mil bocas da irmandade não sentiam falta de comida (Araújo, 2005, p. 40).

Baseado nesses elementos norteadores, o beato e seus seguidores desempenharam de modo satisfatório suas atividades de produção agropecuária. Como se pode observar nas afirmações de Siebra, a utilização dos recursos naturais do ecossistema semiárido de maneira racional e harmônica possibilitou que a comunidade lograsse êxito em seu desenvolvimento, a partir de um modelo ambientalmente sustentável, que somado à força do trabalho coletivo, a partir dos mutirões, permitiu à comunidade enfrentar sem mortes, epidemia ou fome a severa seca ocorrida em 1932 e a alcançar qualidade de vida salutar, superior à dos padrões camponeses daquela época no sertão nordestino.

Passadas mais de sete décadas do fim do Caldeirão, esse modelo de organização e produção que a comunidade praticava, ao invés de se tornar obsoleto, requer maiores reflexões a seu respeito para que modos alternativos de convivência com o sertão semiárido possam ser repensados, fazendo um contraponto ao avanço de modelos de produção e apropriação desse espaço, que não levam em consideração suas peculiaridades e que aceleram os processos de degradação e desertificação, sobretudo na área do polígono das secas.

Nesse sentido, uma retomada dos conhecimentos tradicionais, com um olhar atento para as experiências e metodologias postas em prática no passado e que se mostraram propícias e exequíveis, emergem como alternativa viável para um melhor conviver com o semiárido. Diante desse cenário preocupante de seca, escassez, degradação e desertificação, aprender com o passado, observando os antigos conselhos ecológicos do Padre Cícero e a experiência da comunidade da Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, se mostra bastante pertinente.

Autor
Judson Jorge da Silva é graduado em geografia pela Universidade Regional do Cariri e mestre em geografia pela Universidade Federal do Ceará. É professor e coordenador do curso de geografia da Universidade Estadual do Piauí, campus São Raimundo Nonato. É também coordenador local do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Geografia do Interior do Piauí.

Referências Bibliográficas

Araújo, João Mauro. “Sopro de liberdade: a tragédia de uma utopia de igualdade e autossuficiência”. Problemas Brasileiros, São Paulo, nº 370, p. 38-43, jul/ago 2005.
Araújo, Maria de Lourdes. “A cidade do Padre Cícero: trabalho e fé”.Tese de doutorado em planejamento urbano e regional. Centro de Ciências Jurídicas e Aplicadas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro 2005. 260 p.
Departamento Nacional de Produção Mineral. “Projeto avaliação hidrogeológica da bacia sedimentar do Araripe”. Recife: DNPM, 1996.
Neto, Lira. Padre Cícero: fé, poder e guerra no sertão. 1ºEd. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Walker, Daniel. Padre Cícero: coletânea de textos. Juazeiro do Norte, 2006. Disponível em: . Acesso em: maio de 2013.

domingo, 9 de junho de 2013

Eduardo Fernandes encontra novas homenagens a Padre Cícero

Nosso colaborador Dr. Eduardo Fernandes em suas andanças pelo Nordeste encontrou mais duas homenagens a Padre Cícero, as quais são mostradas nas fotos abaixo:
Este nicho do Padre Cícero fica na cidade de Agrestina, PE.
Este altar com Jesus Crucificado, ladeado pelo Padre Cícero e Frei Damião fica  na Rua Sérgio Meira, Bairro Mandacaru - João Pessoa PB.


sábado, 11 de maio de 2013

Juíza cearense mantém capela em homenagem a Padre Cícero em MG


Casas costumam ter sala de estar, quarto para dormir, área de lazer. Por que não ter também um lugar para buscar energias, renovar forças, fazer orações, alimentar a alma? Assim a juíza Lúcia de Fátima Magalhães Albuquerque fala sobre a capelinha que ergueu no jardim de casa em Ouro Preto (MG), em homenagem ao Padre Cícero, o “padim” dos romeiros de Juazeiro do Norte.
A cearense, juíza de Direito na Vara Criminal e da Infância e Juventude da Comarca de Ouro Preto, diz ter feito a capela em agradecimento ao religioso: “Queria que ele tivesse um lugar especial na minha casa, pois ele sempre esteve presente de um modo especial em minha vida”.
Lúcia foi para Minas Gerais em 1986. Ela contava 10 anos quando a família enfrentou “muitas dificuldades financeiras”, passando a viver “praticamente da ajuda de parentes”. Tornou-se devota por incentivo da avó, que a aconselhava a sempre recorrer a Padre Cícero quando precisasse. “Alcancei muitas graças, mas jamais prometi construir uma capela. Não faço promessas, coloco os meus anseios e depois agradeço da forma que acho que Ele iria gostar”. Hoje, compartilha a fé com o casal de filhos que, segundo ela, admiram o “padim”. Nas férias, ela diz sempre retornar ao Ceará para encontrar os irmãos.
Construída no ano 2000 com recursos próprios, a capelinha é particular, não sendo aberta ao público. A magistrada trabalha em projetos relacionados ao atendimento ao idoso, à mulher e à inclusão social de jovens. A atuação é inspirada em Padre Cícero que, segundo ela, “sempre buscou proteger os mais humildes”. Segundo a magistrada, é comum serem erguidas capelas em fazendas e sítios mineiro.
Para Lúcia, a santidade de Padre Cícero é inquestionável. “Acredito sem contestar e isso me basta”. Ela defende ainda a reabilitação canônica do religioso. Acusado de forjar milagres, padre Cícero teve o direito ao sacerdócio cassado pela Igreja Católica em 1891. (Gabriela Alencar, especial para O POVO)
Outras fotos da capelinha: