quarta-feira, 12 de abril de 2017

UM PADRE COM CHEIRO DE OVELHAS: O PE.CÍCERO ROMÃO BATISTA - POR Leonardo Boff

Nos dias 20-24 de março se realizou em Juazeiro do Norte, Ceará, o V­º Simpósio Internacional Padre Cícero com o tema “Reconciliação…e agora?” Fiquei admirado pelo alto nível das exposições e das discussões com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros. Tratava-se da reconciliação da Igreja com o Pe. Cícero que sofreu pesadas penas canônicas, hoje questionáveis, sem jamais se queixar, num profundo respeito às autoridades eclesiásticas e reconciliação com os milhares de romeiros que o consideram um santo.

Indiscutivelmente o Pe. Cícero Romão Batista (1844-1034), por suas múltiplas facetas, é uma figura polêmica. Mas mais e mais as críticas vão se diluindo para dar lugar àquilo que o Papa Francisco através do Secretário de Estado Card. Pietro Parolin, numa carta ao bispo local Dom Fernando Panico de 20 de outubro de 2015, expressamente diz que no contexto da nova evangelização e da opção pelas periferias existenciais a “atitude do Pe. Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida, um sinal importante e atual”.

O Pe. Cícero corporifica o tipo de padre adequado à fé de nosso povo, especialmente nordestino. Existe o padre da instituição paróquia, classicamente centrada no padre, nos sacramentos e na transmissão da reta doutrina pela catequese. É um tipo de Igreja que se autofinaliza e com parca incidência social em termos de justiça e defesa dos direitos humanos especialmente dos pobres.

Entre nós surgiu um outro tipo de padre como o Pe. Ibiapina (1806-1883), que foi magistrado e deputado federal, tendo abandonado tudo para, como sacerdote, colocar-se a serviço dos pobres nordestinos, como o Pe. Cícero, o Frei Damião, Pe. José Comblin entre outros. Eles inauguraram um outro tipo ação religiosa junto ao povo. Não negam os sacramentos, porém, mais importante é acompanhar o povo, defender seus direitos, criar por toda parte escolas e centros de caridade (de atendimento), aconselhá-lo e reforçar sua piedade popular. Esse é o tipo de padre adequado à nossa realidade e que o povo aprecia e necessita.

Esse era também o método do Pe. Cícero que se desdobrava em três vertentes: primeiro conviver diretamente com o povo, cumprimentando e abraçando a todos; em seguida visitar todas as casas dos sítios, abençoando a todos, a criação dos animais e as plantações; por fim orientar e aconselhar o povo nas pregações e novenas; ao anoitecer reunia as pessoas diante de sua casa e distribuía bons conselhos e encaminhava para o aprendizado de todo tipo de ofícios para tornarem independentes.

Neste contexto o Pe. Cícero se antecipou ao nosso discurso ecológico com seus 10 mandamentos ambientais, válidos até os dias de hoje (“não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau” etc.).

O Pe. Comblin, eminente teólogo, devoto do Pe. Cícero e que quis ser enterrado ao lado do Pe. Ibiapina escreveu com acerto: ”O Padre Cícero adotou amorosamente os pobres e advogou a causa dos nordestinos oprimidos, dedicando-lhes incansavelmente 62 anos de vida. E o povo pobre o reconheceu, o defendeu e o consagrou, continuando a expressar-lhe o seu devotamento, porque viu e vê nele o Pai dos Pobres. Antecipou em muitos anos as opções da Igreja na América Latina. É impossível negar a sincera opção pelos pobres, como foi dito por um deles: "Meu padrinho é padre santo/como ele outro não há/ pois tudo o que ele recebe/ tudo de esmola dá” (O Padre Cícero de Juazeiro, 2011 p.43-44).

Curiosamente, se recolhermos os muitos pronunciamentos do Papa Francisco sobre o tipo de padre que projeta e quer, veremos que o Pe. Cícero se enquadra à maravilha, ao modelo papal. Não há espaço aqui para trazer a farte documentação que se encontra no meu blog (www.leonardoboff. wordpress.com) que recolhe minha intervenção em Juazeiro: “O Padre Cícero à luz do Papa Francisco”.

Repetidas vezes enfatiza o Papa Francisco que o padre “deve ter cheiro de ovelha”, quer dizer, alguém que está no meio de seu “rebanho” e caminha com ele. Cito apenas dois textos emblemáticos, um proferido ao episcopado italiano no dia 16 de maio de 2016 onde diz: ”O padre não pode ser burocrático mas alguém que é capaz de sair de si mesmo, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”. O outro aos bispos recém sagrados no dia 18 de setembro de 2016: "o pastor deve ser capaz de escutar e de encantar e atrair as pessoas pelo amor e pela ternura”.

Estas e outras qualidades foram vividas profundamente pelo Pe. Cícero, tido como o Grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o Intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o Santo cuja intercessão nunca falha. Os romeiros e devotos sabem disso. E nós secundamos esta convicção.
(Articulista do JB on line . Escreveu A nova evangelização: a perspectiva dos pobres, Vozes 1991)

terça-feira, 4 de abril de 2017

Bispo da Diocese de Crato, Dom Gilberto Pastana, recebe a Carta do Simpósio de Padre Cícero

     Após as conferências, palestras, debates e mesas redondas, o V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?" resultou numa carta que foi entregue nesta segunda-feira ao Bispo Diocesano de Crato, Dom Gilberto Pastana. O documento é assinado por todos os participantes do evento e foi levado à Cúria Diocesana de Crato pelas professoras da Universidade Regional do Cariri (Urca), Fátima Pinho, Renata Paz Marinho e Paula Cordeiro, que coordenaram o simpósio.

      Estiveram presentes ainda os padres Zé Vicente e Rocildo Alves Lima Filho e a carta sugere a sequência dos estudos em torno da vida e da obra missionária do Padre Cícero, bem como os fenômenos ocorridos em Juazeiro. Eis a íntegra do documento entregue ontem ao Bispo Diocesano, dom Gilberto Pastana:

       Diante da reconciliação histórica decretada pela Congregação para a Doutrina da Fé, datada de 27 de outubro de 2014, e da carta do Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, datada de 20 de outubro de 2015, na qual é incentivada a atenção pastoral ao fenômeno religioso das romarias em Juazeiro do Norte, e que, além disso, a mesma carta diz que "pela distância do tempo e complexidade do material disponível elas (as questões históricas, canônicas ou éticas do passado) continuam a ser objetos de estudo e análise, com interpretações as mais variadas e diversificadas" e,
- Considerando os debates realizados neste Simpósio sobre a pertinência de dar continuidade ao processo do Padre Cícero Romão Batista na Santa Sé;
- Considerando a realidade que nos apontam os romeiros e romeiras, qual seja a de que Padre Cícero é santo;
- Considerando que os relatos de milagres por intercessão do Padre Cícero são muitos;
- Considerando que todo processo canônico do Padre Cícero deu-se inicialmente por um único motivo: o sangramento da hóstia consagrada na boca da Beata Maria de Araújo;
- Considerando a importância de esclarecimentos definitivos, a nível diocesano, sobre esse fenômeno, nós abaixo assinados, participantes do V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora", sugerimos e solicitamos, a seu critério, a nomeação de uma comissão que tenha duas tarefas:
- A primeira para a continuidade do estudo da vida e da obra missionária do Padre Cícero Romão Batista a fim de compreender, sistematizar e relatar a devoção atual dos romeiros e, também, para conhecer, averiguar e analisar possíveis milagres operados em nome do Padre Cícero, em vista de um primeiro passo em direção a um processo de reconhecimento de suas virtudes heróicas.
- A segunda para estudar, histórica e religiosamente, o fenômeno, e apenas o fenômeno do derramamento de sangue ocorrido com a Beata Maria de Araújo.


terça-feira, 28 de março de 2017

Teólogo Leonardo Boff diz acreditar numa breve beatificação de Padre Cícero

Para o escritor e teólogo Leonardo Boff, após a beatificação de Dom Óscar Romero de San Salvador, ocorrida há 2 anos, vira a do Padre Cícero Romão Batista. Ele foi o último conferencista do V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?" quando terminou aplaudido de pé por uma platéia que lotou o Memorial na tarde desta sexta-feira. Ele pediu viva para o sacerdote e disse que o mesmo será santo da Igreja universal e não apenas do sertão do Ceará. 
       Na sua Conferência sob o tema: "Padre Cícero à luz do Papa Francisco", Boff considerou a reconciliação algo muito forte e que expressa a vontade do Papa salientando que todos podem alimentar a esperança de vê-lo beatificado e canonizado “o que não será novidade para o Padre Cícero que já é santo”. Em sua fala, constitui etapas na vida do sacerdote que passam pelo sonho que teve, a vinda em definitivo para Juazeiro, os conflitos enfrentados com o sangramento da hóstia e o padre político. 
      Ganhando novamente muitos aplausos, o teólogo Leonardo Boff admoestou que “não é apenas canonizar o Padre Cícero, mas fazer justiça às mulheres beatificando e santificando Maria de Araújo que é santa e faz milagres”. Para o conferencista, o Bispo do Ceará dom Joaquim Vieira foi “duro” com Padre Cícero como “duro” foi o julgamento do sacerdote que até chegou a ser excomungado fato jamais publicado. Boff historiou que ele tinha uma convivência direta com o povo, visitando casas e sítios e dando orientações e conselhos. 

      Com o fechamento das portas pela Igreja – acrescentou o conferencista – Padre Cícero trilhou no caminho da política para não perder de vista a sua opção pelos pobres. Nesse contexto, Leonardo Boff argumentou sobre sua atuação em prol do bem comum com foco na educação e geração de emprego e renda. Elogiou ainda a visão ambientalista do sacerdote quando citou os seus preceitos ecológicos. Na sessão de encerramento do simpósio falaram o Secretário de Cultura de Juazeiro, Alemberg Quindins, em nome do prefeito Arnon Bezerra; a presidente da comissão organizadora, Fátima Pinho; e o reitor em exercício da Universidade Regional do Cariri, Francisco do O de Lima Júnior.

Filósofo opina porque o milagre da hóstia em Juazeiro não poderia ser reconhecido
Na última manhã de debates no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", que acontece desde segunda-feira, o filósofo e professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Carlos Alberto Tolovi, disse porque o milagre da hóstia não foi reconhecido. Segundo ele, por estar fora e distante das estruturas de controle hierárquicos, pelo fato de ter surgido junto aos chamados leigos e mais ainda em virtude do corpo do fenômeno não se enquadrar nas feições europeias dos grandes santos. 

Como acrescentou, fugia de todos os limites pré-estabelecidos observando que outros milagres eucarísticos foram reconhecidos pela Igreja e este não. A Mesa Redonda teve como tema: "Padre Cícero e a Política” e reuniu ainda outra professora da Urca e coordenadora do evento, Fátima Pinho, e o professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP), Renato Kirchner. Na opinião de Tolovi, Padre Cícero aceitou o milagre para estar ao lado dos romeiros e fortalecer a religiosidade popular. 

Nesse contexto, observou que os peregrinos já defendiam o sacerdote por entenderem ser a defesa do seu próprio espaço sagrado para onde vinham com bastante sofrimento e, em Juazeiro, encontravam um “Padim” que os acolhiam. De acordo com Tolovi, o Caldeirão do Beato José Lourenço foi destruído e se a história da transformação da hóstia em sangue ficasse apenas em torno da beata Maria de Araújo, o caminho seria o mesmo. Além disso, tentaram destruir o Juazeiro e o padre foi obrigado a assumir posturas. 

No entendimento da professora Fátima Pinho, Padre Cícero foi um mediador de conflitos na própria região e até fora do Cariri. Conforme acrescentou, era uma característica forte quando até foi político e fez política, mas com convicção no que acreditava e achava correto. Pela primeira vez em Juazeiro, o professor paulista Renato Kirchner se apresentou como um homem que peregrinou muito pelo sertão. Tentando contextualizar Juazeiro e o Padre Cícero ele recorreu ao escritor Guimarães Rosa que disse: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem. Ficam encantadas”. 

Em meio aos debates, Pedro Carneiro de Araújo da Arquidiocese de Fortaleza recorreu ao livro de Amália Xavier para lembrar que Padre Cícero se sujeitou aos Decretos do Santo Ofício e foi absolvido em Roma quando uma carta enviada ao então Bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, pedia para não considerá-lo contumaz. Todavia, o apelo do Vaticano foi desconsiderado e tudo continuou como antes. No final da manhã desta sexta-feira houve mais um Testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Dona Rosinha do Horto.


Para o antropólogo Carlos Steil, a reconciliação de Padre nem começa e nem termina num documento da Igreja
      O conferencista da noite desta quinta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?" foi o professor e antropólogo Carlos Alberto Steil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele falou sobre "Caminhos da Reconciliação no Juazeiro do Padre Cícero para uma platéia que teve dentre os presentes o teólogo Leonardo Boff, que será o conferencista das 15 horas desta sexta-feira sobre o tema: "Padre Cícero à luz do Papa Francisco".

      Para Carlos Steil, a reconciliação nem começa e nem termina num documento expedido por meio de uma autoridade da Igreja, mas envolve muitos do passado e a todos nós já que não dá para pensar na questão colocando-se do lado de fora. Ele considerou que o caminho foi aberto e não poderá se fechar após definir o Padre Cícero como o santo mais popular do país. Segundo declarou, o sacerdote não se deixou seduzir pelo projeto de modernização e romanização imposto pelo clero reformador.

      O conferencista disse mais que Padre Cícero não se envergonhou do primitivismo e procurou se inserir na cultura do povo pobre cuidando e amando a todos sem jamais trair sua consciência após escolher Juazeiro para sua missão. Mesmo assim, Carlos Steil observou que a reconciliação impulsiona a ação de Padre Cícero no seio da Igreja como sacerdote que foi na defesa de um projeto que incluiu os pobres na modernidade indo de encontro às elites.

      Em meio aos debates, a Irmã Annette Dumoulin lembrou que, durante 19 anos de vida sacerdotal, Padre Cícero gozou da estima dos dois primeiros bispos do Ceará no caso Dom Luiz e Dom Joaquim Vieira por conta do modelo de evangelização. Depois, passou a ser mal visto e até condenado. Antes de encerrar sua conferência, Carlos Steil revelou que quando está em Juazeiro é contaminado pela paixão e observou que as coisas acontecem com bastante velocidade por aqui.

Romarias de Bom Jesus da Lapa e de Juazeiro e a experiência do Caldeirão no Simpósio de Padre Cícero
      A professora Maria Lucia Alves, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, estabeleceu um contraponto entre as romarias em Bom Jesus da Lapa (BA) e Juazeiro do Norte na manhã desta quinta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?". Pela primeira vez em Juazeiro, ela disse que conhecia apenas pela literatura e reportagens e confessou sua emoção dizendo ser preciso conhecer de perto o lugar para perceber o misticismo.

       Nascida em Bom Jesus, lembrou que as peregrinações ali tiveram o dedo do Monge Francisco e, em Juazeiro, de Padre Cícero. Sua pesquisa de mestrado baseou-se no catolicismo oficial e popular, enquanto a de doutorado teve como foco o pluralismo religioso. Sobre Juazeiro, considerou o tema “reconciliação” controverso e polêmico e, mais à frente, observou que “se não fosse a beata, não teria o milagre”. Na terra de Padre Cícero viu que os lugares sagrados são distintos e distantes.

       Quanto a Bom Jesus, comparou tratar-se de um circuito com 15 grutas em torno de um santuário e onde uma catedral está sendo construída. Entretanto, nesses dois contextos observou que os “santos” locais dividem espaços com os santos romanizados. O Tema central da Mesa Redonda foi: "Apropriações e usos: Cultura, ecologia e economia" e teve como expositor o professor Edin Sued Abumanssur, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

       Após afirmar que, para alguns no Brasil, romaria é turismo de pobre, ele traçou comparativos entre tipos de peregrinações classificando as de Juazeiro como de destino final e local de força montado na razão maior da visita “não importando como chegar e sim chegar”. O outro seria mais pontuado na maneira como se chega sendo a razão da peregrinação sem observar uma importância maior para o lugar, passando apenas na porta do santuário e indo para as baladas.

      Membro da Pastoral da Terra da Diocese de Crato, o padre Vilecy Basilio Vidal fez referências às romarias ao Caldeirão do Beato José Lourenço em Crato após considerar que o tipo de visão religiosa do Padre Ibiapina influenciou o Padre Cícero. Nesse aspecto, lembrou os conselhos do sacerdote caririense no sentido de tornar cada sala um oratório e cada quintal uma oficina. Ou seja, oração e trabalho a exemplo do que ocorria na comunidade do Caldeirão.

      De acordo com o padre Vilecy, o sítio chegou a reunir cerca de 400 famílias e algo em torno de duas mil pessoas dentro de um modelo de desenvolvimento sustentável com forte apelo religioso, fartura, alegria e exemplo ecológico para o Nordeste. Na reta final da manhã houve mais um Testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Mestres da Cultura Popular. No início da tarde, os Minicursos: Arquivos e pesquisas sobre o Padre Cícero: uma "cronogenealogia" para o grande acervo com Renato Casimiro e “Um olhar em preto & branco sob a luz de Juazeiro” com Nívea Uchoa.


Professora norte americana palestra sobre a idéia do romeiro em torno do contexto da reabilitação de Padre Cícero
A conferencista da tarde desta quarta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", foi a professora Candace Slater da Universidade de Berkeley (USA). Ela costuma fazer levantamentos minuciosos sobre as expressões dos romeiros que visitam Juazeiro do Norte e, ultimamente, tem procurado ouvir respostas dos peregrinos sobre esse novo contexto que foi o tema central de sua fala. Como sintetizou, no final das contas o que importa para eles é a sua relação de bem estar com o “Padim”.

     A pesquisadora tratou de reproduzir um pouco sobre o sentimento dos romeiros nessa convivência religiosa dentro dos novos fatos. A crença forte que Padre Cícero é um santo, não se separa dos peregrinos como voltou a atestar e o professor e historiador, Renato Casimiro, acrescentou que o povo já canonizou o sacerdote. Enquanto isso, a Irmã Annette Dumoulin observou quanto ao receio externado pelos fiéis de que a Igreja se aproprie e lhe tome o seu santo.

       Para o bispo emérito da Diocese de Crato e presidente de honra do evento, dom Fernando Panico, Padre Cícero já está dentro do templo vivo que é o coração do romeiro. Ele elogiou a exposição feita pela professora Candace Slater sobre o tema da reconciliação e acrescentou que “Padre Cícero é uma maravilha de Deus nas nossas vidas”. Para Dom Fernando, chegará um dia em que a misericórdia fará justiça. Ao término da conferência, aconteceu a performance musical "Afilhados do Padrinho" e Show do Poeta Zé Viola.

       Na noite desta quarta-feira, houve uma sessão solene da Câmara para a outorga de títulos de cidadania ao bispo da Diocese de Crato, dom Gilberto Pastana e oito sacerdotes. Já na Mesa Redonda das 08h30min desta quinta-feira estará o professor Edin Sued Abumanssur, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o qual falará sobre: "Apropriações e usos: Cultura, ecologia e economia". No final da manhã, mais um testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Mestres da Cultura.

Arcebispo de Maceió aponta semelhanças entre os princípios de Padre Ibiapina e Padre Cícero
    Para o Arcebispo de Maceió (AL), dom Antonio Muniz Fernandes, Padre Cícero não está desligado do princípio apostólico do Padre Ibiapina e suas vidas se cruzam. A afirmação foi feita na manhã desta quarta-feira durante a Mesa Redonda: "Romeiras e Romeiros: Juventude e Gênero" no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", que acontece em Juazeiro. Os debatedores foram os professores Sávio Cordeiro e Adriana Simião da Silva (URCA) e Maria das Graças de Oliveira Costa Ribeiro (IFCE).

     Não obstante ter sido um grande nomes do clero nacional, Dom Muniz observou que Ibiapina foi esquecido ao passo que a nação romeira jamais esqueceu o padre caririense. Conforme o Arcebispo, ele foi afastado da cena e renasceu pela devoção e admiração de estados próximos quando o Ceará foi junto. Dom Muniz defendeu ainda um resgate das figuras superioras da Casa de Caridade que, como disse, o Padre Cícero escolhia de forma exemplar.

       Na sua fala, a professora Maria das Graças discorreu sobre as cartas que chegam para o Padre Cícero em Juazeiro enviadas por pessoas de vários lugares do pais que não puderam vir. Os conteúdos são de desabafos, pedidos por meio da intercessão do sacerdote junto aos santos e agradecimentos chamando a atenção para um grande número de correspondências de jovens. São desde apelos para se livrar da feiúra ou aprovações em concursos, quanto ligadas a relacionamentos até homoafetivos ou de políticos que almejam vencer eleições.

     Já o professor Sávio Cordeiro opinou que a romaria tem muito de sacrifícios pessoais e, na sua exposição, considerou o avanço dos evangélicos como “agressivo, inescrupuloso e mercantil”. Antes, a professora Adriana Simeão tratou sobre a pesquisa em torno das experiências sócio religiosas das mulheres que vem ao Juazeiro a qual transformou no livro: “Vidas e Romarias”. Ela confessou encantamento com o caldeirão das manifestações dentro de práticas de um catolicismo popular que remonta ao tempo de Padre Cícero.

Peregrinações pelo mundo motivaram debate sobre romarias e turismo religioso no Simpósio de Padre Cícero
     Pela primeira vez no Brasil, que ouvia falar apenas por conta do futebol e do carnaval, o Antropólogo John Eade da Universidade de Roehampton em Londres foi o conferencista da noite desta terça-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?". O evento é promovido pela Universidade Regional do Cariri (Urca) e ele falou sobre o tema: “Novos caminhos em estudos de peregrinação: desenvolvendo uma abordagem global”

     Como disse, a Igreja quer promover peregrinações mesmo reunindo grupos de pessoas de diversas crenças fazendo menções a locais de devoção como, por exemplo, o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes na França e os caminhos de Santiago de Compostela no noroeste da Espanha. De acordo com John Eade, muito promovidos pelo conselho europeu e apresentando uma diversidade de peregrinação onde o que interessa é a energia do caminho.

      Para o conferencista, são vários os motivos e interpretações na jornada desde suas residências aos locais de devoção. Ele já escreveu um livro sobre peregrinações na Europa e observou a necessidade de todas serem bem vistas no Cristianismo que está mudando no contexto mundial. A palestra do Antropólogo causou uma provocação do bispo emérito da Diocese de Crato e presidente de honra do simpósio, dom Fernando Panico. Para ele, o desafio dos próximos eventos é procurar distinguir sobre romarias e turismo religioso.

      O mesmo confessou que se questiona muito quando vê a realidade no Nordeste com muita gente pobre nos caminhos até com penitencia corporal enfrentando viagens longas e desconfortáveis, porém sempre com alegria: rezando e cantando nas estradas. Ele disse que esteve em Brasília para tentar compreender melhor esse contexto, mas percebeu que o Ministério do Turismo não detém interesse por romarias e sim o turismo que pressupõe o capital.

      Nessa vertente, John Eade destacou os diferentes tipos de peregrinações e até questionou se uma local poderia se tornar global. Já o Antropólogo Carlos Steil, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observou que as peregrinações tem um efeito transversal e se faz presente nas romarias tradicionais como em Juazeiro diante de características comuns. O conferencista historiou sobre a origem das peregrinações em que os teólogos eram hostis e questionavam se a pessoa não poderia fazer tudo no seu local de origem.

       Para esta quarta-feira, dia 22, o palestrante da Mesa Redonda das 08h30min, no Memorial Padre Cícero, será o Arcebispo de Maceió (AL), dom Antonio Muniz Fernandes que falará sobre "Romeiras e Romeiros: Juventude e Gênero". Já às 16 horas a conferência será da professora Candace Slater, da Universidade de Berkeley (USA), a qual falará sobre: "Algumas respostas dos romeiros à reconciliação". No período da noite haverá a cerimônia de entrega de títulos de cidadão juazeirense ao Bispo Dom Gilberto Pastana e mais oito sacerdotes.
Assessoria de Imprensa do Simpósio





quinta-feira, 21 de julho de 2016

Padre Cícero e o Pacto dos Coronéis - Daniel Walker

Introdução
No dia 4 de outubro de 1911,  o recém-criado município de Juazeiro, Ceará,  foi sede de dois grandes eventos políticos: a posse de Padre Cícero Romão Baptista no cargo de intendente (atualmente se diz prefeito) e a realização de uma assembleia ou sessão política para assinatura de um controvertido documento que passou à história com o nome de Pacto dos Coronéis. O referido documento também foi chamado de Pacto de paz, Pacto de harmonia política, Aliança política, Conferência política, Pacto de Haya-mirim e ainda Artigos de fé política.

Quando se fala no nome do Padre Cícero, a figura que realça em primeiro lugar é a de santo dos nordestinos, pois é como tal que ele é mais conhecido. Entretanto, existe em sua biografia um forte peso como figura política, embora isto seja mais conhecido e estudado apenas pelos seus pesquisadores. Aqueles que se consideram seus devotos, pouca ou nenhuma importância dão ao fato, porquanto para eles o que importa mesmo é o homem santo capaz de fazer milagres, o protetor nas horas das aflições. E foi assim que ele conseguiu uma grande legião de devotos. Como político fez muitos desafetos.

Mas de uns tempos para cá, sua vida política começou a ser dissecada pelos cientistas sociais e a partir da publicação dos primeiros textos, uma nova legião de admiradores surgiu. 

Assim, a dicotomia envolvendo o santo e o político passou a ter terreno próprio e essas duas vertentes, indissolúveis e complementares, coexistem a despeito dos pareceres positivos de uns e negativos de outros.

Como signatário do Pacto dos Coronéis, Padre Cícero consolidou sua vida política, transformando-se na maior liderança do interior cearense. Porém, se por um lado isto lhe deu uma indiscutível força de mando, por outro lado arranhou profundamente sua  biografia perante a sua igreja, que já o tinha na conta de embusteiro e doravante passou a tê-lo também como um coronel, certamente uma nódoa na sua apregoada santidade. 

Por isso, é muito importante estudar essa particularidade da sua vida a qual já rendeu farta bibliografia e não para de crescer. Neste contexto, o objetivo principal deste trabalho é fazer uma análise das implicações decorrentes da assinatura do Padre Cícero no Pacto dos Coronéis, conforme as opiniões emitidas por escritores que estudaram o assunto em seus mais variados aspectos. 

Para melhor compreensão do tema é feita inicialmente a transcrição da ata do histórico evento e a partir daí tem início a análise que define a importância do Pacto dos Coronéis na história política do Padre Cícero. No final é apresentada uma galeria com fotos de alguns dos coronéis que tiveram ligação com o famigerado evento. 
                                                                                                                          
O que é coronelismo
Até o final do século XIX, esteve em vigor no Brasil,  um sistema conhecido popularmente por coronelismo, cuja política era controlada e liderada pelos ricos fazendeiros então denominados de coronéis.  

No interior cearense, mais particularmente no Cariri, o coronelismo se caracterizava pela prática abusiva de duas irregularidades: o voto de cabresto e a fraude eleitoral. 

Na Velha República, o sistema eleitoral vigente era bastante vulnerável à manipulação. Por isso, os coronéis poderosos compravam votos para seus candidatos ou então os permutavam por bens materiais. Como o voto era aberto (não havia ainda o sistema de urnas), os eleitores se sentiam coagidos e para evitar represálias não havia outro jeito senão votar no candidato indicado pelos coronéis. As regiões sobre as quais os coronéis exerciam poder de mando político ficaram conhecidas como “currais eleitorais”. 

Entre as fraudes eleitorais praticadas pelos coronéis caririenses estavam o costume de alterar votos, sumir com urnas e o uso abusivo do chamado voto fantasma, o qual consistia em falsificar documentos para que eleitores pudessem votar várias vezes em prol de determinado candidato. Era comum inclusive o voto de pessoas mortas. 
Fim do coronelismo
O coronelismo em seu formato original começou a ser extinto com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, como resultado da Revolução de 1930. Em algumas regiões do Brasil desapareceu completamente, mas em outras  o coronelismo  continuou mais algum tempo, embora com menos intensidade e adaptado a uma nova realidade. A compra de votos continua até hoje. Mas os atuais chefes políticos, mesmo sendo grandes latifundiários, não são mais chamados de coronéis.

Padre Cícero pode ser chamado de coronel?
Por ser dono de várias propriedades rurais (embora tenha deixado tudo para a Igreja) e poder para decidir uma eleição, Padre Cícero é considerado por muitos escritores como tendo sido um coronel. Mas a pecha de coronel, no sentido como o termo é usado e entendido no Nordeste, não se coaduna com o comportamento e a personalidade do Padre Cícero. Ninguém conhece registro da existência de armas em sua residência ou de capangas a sua disposição, coisas muito comuns aos coronéis de que fala a literatura.

Entretanto, até hoje, não existe consenso com respeito a Padre Cícero ser ou não considerado como um coronel. As opiniões emitidas pelos estudiosos são muito variadas e dicotômicas. 

Vejamos algumas:
Maria de Lourdes M. Janotti, escritora: "Padre Cícero foi o mais célebre de todos os coronéis". 

José Fábio Barbosa da Silva, professor e escritor: "Padre Cícero também era o coronel dono de imensa força política que passou a representar os romeiros, quando Juazeiro se tornou independente. O Padre Cícero também possuía o status mais elevado, mais alto que o dos coronéis tradicionais". 
Moisés Duarte, evangélico:  “Padre Cícero era amigo do peito de vários latifundiários da região, conhecidos como "os coronéis". Esses senhores ilustres eram opressores dos pobres, marginalizavam os sertanejos, excluindo-os do direito à saúde, aos alimentos e até à vida. Pasme, o Padim Ciço pertencia a essa espécie de liga de coronéis do Ceará e a defendia”.

Rui Facó, jornalista: "Por que o Padre Cícero desfrutando de enorme popularidade, dispondo de tudo quanto fazia de alguém um coronel, por que não seria ele um coronel? Apenas porque vestia batina, ordenara-se padre, fazia milagres? Na verdade, nada diferenciava o Padre Cícero Romão Batista de qualquer dos latifundiários da zona. Utilizou, e em grande escala, os mesmos métodos familiares àqueles, como dar abrigo a capangas e cangaceiros e aproveitá-los ou permitir que outrem os aproveitassem para a consecução de objetivos políticos que também eram os seus". 

José Boaventura de Sousa, historiador e professor: "Padre Cícero foi um coronel, mas um coronel diferente da conotação que a sociologia aponta. Não foi um coronel explorador, foi um coronel porque todos o procuravam como um líder". 

Francisco Régis Lopes Ramos, historiador e escritor: "Padre Cícero alia-se aos coronéis, mas não se torna um deles. Suas atitudes são de apadrinhamento, de um protetor dos desclassificados, de um conselheiro e não de um político ou coronel". 

Neri Feitosa, sacerdote e escritor: "Ele não tinha patente militar nem da Guarda Nacional. Ninguém o chamou oralmente de coronel. Por escrito, deram-lhe este epíteto por hipérbole e por analogia". 

Marcelo Camurça, historiador:  “No meu modo de ver o Padre Cícero se relacionou com as oligarquias, transitou na sociedade política, se compôs com os setores dominantes, tanto pela sua condição de sacerdote letrado, um intelectual tradicional, e esta condição o estimulava qual outros padres no Império e na República a ter uma projeção social, quanto pela vontade de ajudar o seu povo, de levar adiante o seu projeto de manter de pé a comunidade do Juazeiro, pela via da conciliação tão marcante na sua visão de mundo. Porém, o Padre Cícero nunca abriu mão de sua identidade sacra, do seu papel de guia religioso, de líder espiritual, para se tornar um político profissional, tampouco abriu mão da mística do "milagre" e de sua visão messiânica, simbólica do catolicismo popular, daquele primeiro sonho que teve quando Cristo encarregou-o de cuidar do Juazeiro e de seu povo. Este sem dúvida não é o perfil de um "Coronel" latifundiário ou de um político das classes dominantes”. 

Ata do Pacto dos Coronéis
“Aos quatro dias do mês de outubro do ano de mil novecentos e onze, nesta vila de Juazeiro do Padre Cícero, município do mesmo nome, Estado do Ceará, no paço da Câmara Municipal, compareceram à uma hora da tarde os seguintes chefes políticos: coronel Antônio Joaquim de Santana, chefe do município de Missão Velha; coronel Antônio Luís Alves Pequeno, chefe do município do Crato; reverendo Padre Cícero Romão Batista, chefe do município do Juazeiro; coronel Pedro Silvino de Alencar, chefe do município de Araripe; coronel Romão Pereira Filgueiras Sampaio, chefe do município de Jardim; coronel Roque Pereira de Alencar, chefe do município de Santana do Cariri; coronel Antônio Mendes Bezerra, chefe do município de Assaré; coronel Antônio Correia Lima, chefe do município de Várzea Alegre; coronel Raimundo Bento de Sousa Baleco, chefe do município de Campos Sales; reverendo padre Augusto Barbosa de Menezes, chefe do município de S. Pedro do Cariri; coronel Cândido Ribeiro Campos, chefe do município de Aurora; coronel Domingos Leite Furtado, chefe do município de Milagres, representado pelos ilustres cidadãos, coronel Manuel Furtado de Figueiredo e major José Inácio de Sousa; coronel Raimundo Cardoso dos Santos, chefe do município de Porteiras, representado pelo reverendo Padre Cícero Romão Batista; coronel Gustavo Augusto de Lima, chefe do município de Lavras da Mangabeira, representado por seu filho João Augusto de Lima; coronel João Raimundo de Macedo, chefe do município de Barbalha, representado por seu filho major José Raimundo de Macedo e pelo juiz de direito daquela comarca, doutor Arnulfo Lins e Silva; coronel Joaquim Fernandes de Oliveira, chefe do município de Quixará, representado pelo ilustre cidadão major José Alves Pimentel; e o coronel  Inácio de Lucena, chefe do município de Brejo Santo, representado pelo coronel Antônio Joaquim de Santana. A convite deste que, assumindo a presidência da magna sessão, logo deixou, ocupando-a o reverendo Padre Cícero Romão Batista para em seu nome declarar o motivo que aqui os reunia. Ocupada a presidência pelo reverendo Padre Cícero, fora chamado o major Pedro da Costa Nogueira, tabelião e escrivão da cidade de Milagres, que também se achava presente. Declarou o presidente que aceitando a honrosa incumbência confiada pelo seu prezado e prestigioso amigo coronel Antônio Joaquim de Santana, chefe de Missão Velha e traduzindo os sentimentos altamente patrióticos do egrégio chefe político, Excelentíssimo Senhor Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly, que sentia d´alma as discórdias existentes entre alguns chefes políticos desta zona, propunha que, para desaparecer por completo esta hostilidade pessoal, se estabelecesse definitivamente uma solidariedade política entre todos, a bem da organização do partido os adversários se reconciliassem, e ao mesmo tempo lavrassem todos um pacto de harmonia política. Disse mais que para que ficasse gravado este grande feito na consciência de todos e de cada um de per si, apresentava e submetia à discussão e aprovação subseqüente os seguintes artigos de fé política:
Art. 1º - Nenhum chefe político protegerá criminoso do seu município nem dará apoio nem guarida aos dos municípios vizinhos, devendo ao contrário, ajudar a captura destes, de acordo com a moral e o direito.
Art. 2º - Nenhum chefe procurará depor outro chefe, seja qual for a hipótese.
Art. 3º - Havendo em qualquer dos municípios reações, ou mesmo, tentativas contra o chefe oficialmente reconhecido com o fim de depô-lo, ou de desprestigiá-lo, nenhum dos chefes dos outros municípios intervirá nem consentirá que os seus municípios intervenham ajudando direta ou indiretamente os autores da reação.
Art. 4º - Em casos tais só poderá intervir por ordem do governo para manter o chefe e nunca para depor.
Art. 5º - Toda e qualquer contrariedade ou desinteligência entre os chefes presentes será resolvida amigavelmente por um acordo, mas nunca por um acordo de tal ordem, cujo resultado seja deposição, a perda de autoridade ou de autonomia de um deles.
Art. 6º - E nessa hipótese, quando não puderem resolver pelo fato de igualdade de votos de duas opiniões, ouvir-se-á o governo, cuja ordem e decisão será respeitada e restritamente obedecida.
Art. 7º - Cada chefe, a bem da ordem e da moral política, terminará por completo a proteção a cangaceiros, não podendo protegê-los e nem consentir que os seus munícipes, seja sob que pretexto for, os protejam dando-lhes guarida e apoio.
Art. 8º - Manterão todos os chefes políticos aqui presentes inquebrantável solidariedade não só pessoal  como política, de modo que haja harmonia de vistas entre todos, sendo em qualquer emergência “um por todos e todos por um”, salvo em caso de desvio da disciplina partidária, quando algum dos chefes entenda de colocar-se contra a opinião do chefe do partido, o Excelentíssimo Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly: Nessa última hipótese cumpre ouvirem e cumprirem as ordens do governo e secundarem-no nos seus esforços para manter intacta a disciplina partidária.
Art. 9º - Manterão todos os chefes incondicional solidariedade com o Excelentíssimo Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly, nosso honrado chefe, e como políticos disciplinados obedecerão incondicionalmente suas ordens e determinações.
Submetidos a votos, foram todos os referidos artigos aprovados, propondo unanimemente todos que ficassem logo em vigor desde essa ocasião.
Depois de aprovados, o Padre Cícero levantando-se declarou que sendo de alto alcance o pacto estabelecido, propunha que fosse lavrado no Livro de Atas desta municipalidade todo o ocorrido, para por todos os chefes ser assinado, e que se extraísse uma cópia da referida ata para ser registrada nos Livros das municipalidades vizinhas, bem como para ser remetida ao doutor presidente do Estado, que deverá ficar ciente de todas as resoluções tomadas, o que foi feito por aprovação de todos e por todos assinado.
Eu, Pedro da Costa Nogueira, secretário, a escrevi.
Assinam: 
Padre Cícero Romão Batista
Antônio Luís Alves Pequeno
Antônio Joaquim de Santana
Pedro Silvino de Alencar
Romão Pereira Filgueiras Sampaio
Roque Pereira de Alencar
Antônio Mendes Bezerra
Antônio Correia Lima
Raimundo Bento de Sousa Baleco
Padre Augusto Barbosa de Menezes
Cândido Ribeiro Campos
Manoel Furtado de Figueiredo
José Inácio de Sousa
João Augusto de Lima
Arnulfo Lins e Silva
José Raimundo de Macedo
José Alves Pimentel

Comentários
- “O receio era o de que a reunião acabasse em tiro. Nunca se viram – nem jamais se voltaria a ver – tantos coronéis sertanejos assim reunidos em um mesmo lugar, como naquele 4 de outubro de 1911, em Juazeiro, o dia da posse do Padre Cícero na prefeitura. Lá fora, as ruas estavam enfeitadas de bandeirinhas de papel e a banda do mestre Pelúsio de Macedo fazia a festa. No interior da casa que sediou a solenidade oficial, os dezesseis homens vestidos em roupa de domingo foram recebidos com chuvas de flores e papel picado. Mas não escondiam de ninguém, que ruminavam uma coleção de rancores mútuos. Praticamente todos os chefes políticos do Cariri – incluindo o coronel Antônio Luís – haviam acatado o chamado do sacerdote para tão insólito conclave que marcaria seu primeiro dia como prefeito. Quando Padre Cícero levantou da mesa ao final daquela histórica reunião e passou a colher a assinatura de todos, os coronéis do Cariri já  tinham tomado consciência de que, diante da nova situação, precisavam eleger um chefe imediato entre eles. Esse chefe não seria, necessariamente, Accioly. Carecia ser alguém que estivesse mais perto deles e que, a despeito das diferenças e dos ódios pessoais que os separavam, fosse um homem cuja palavra seria acatada sem ressalvas. Os coronéis precisavam de um líder político no Cariri. Naquela tarde, esse líder se revelara naturalmente – e já tinha um nome. O nome dele, ninguém se atreveria a discordar, era Padre Cícero”. Assim, Lira Neto descreveu em seu livro Padre Cícero, poder, fé e guerra no sertão a reunião em que foi assinado o Pacto dos Coronéis.

- Durante muito tempo se especulou a respeito de quem concebeu a ideia da famigerada reunião. O nome do seu autor está até hoje envolto em mistério, sendo motivo de muitas especulações. O primeiro sinal dado no sentido de tentar elucidar o mistério pode ser visto num dos artigos da série “Formal desmentido” publicada por Dr. Floro Bartholomeu da Costa, no jornal Unitário, de Fortaleza, de 9 a 17 de junho de 1915,  onde ele escreveu: “Determinado o dia 11 de outubro do mesmo ano de 1911 para a inauguração da vila e estando mui acirrados os ódios dos chefes do Cariri, especialmente os de Lavras, Aurora, Milagres, Missão Velha, Barbalha e Brejo dos Santos, contra os do Crato e os de Porteiras, lembrei ao Padre Cícero a necessidade de estabelecer-se a harmonia entre todos.  Para isso conseguir, a todos convidamos, de acordo com o Dr. Nogueira Accioly, para no dia 4 de outubro estabelecermos um pacto de paz entre todos os chefes inimizados.”  

- O escritor Otacílio Anselmo tem opinião diferente, pois na sua volumosa obra Padre Cícero, mito e realidade diz que, na reunião em que Padre Cícero foi empossado como primeiro Prefeito de Juazeiro, o juiz de Barbalha, Dr. Arnulfo Lins e Silva “aproveitou o ensejo para inspirar e, sob o patrocínio do Padre Cícero, promover um convênio entre os numerosos chefes municipais ali reunidos, no sentido de estabelecer um clima de paz e assegurar a tranquilidade das populações caririenses, até então em pânico permanente por conflitos armados resultantes de velhos ódios entre grupos e famílias irreconciliáveis, transmitidos de geração em geração e que ainda hoje subsistem.”

- Edmar Morel  atribui a ideia do pacto dos coronéis ao Padre Cícero, pois em sua obra Padre Cícero, o santo do Juazeiro ele assim escreveu: “O Padre querendo firmar o seu prestígio junto à oligarquia dos Acciolys, que já governavam o Ceará há vinte anos, em dois períodos, e ao mesmo tempo pôr em prova se ainda seria hostilizado pelos políticos, seus vizinhos, como no caso das minas do Coxá, levanta a ideia da realização de um convênio, no Juazeiro, com a participação de todos os senhores feudais, senhores de cangaceiros e senhores de eleitores”. O autor conclui tachando o pacto como “uma página da história do banditismo no Nordeste, um pacto de honra assinado pelos maiores e mais respeitáveis coronéis que infelicitaram os sertões do Brasil, atirando homens contra homens e transmitindo o ódio e a sede de vingança de geração em geração. Uma página celebérrima do cangaceirismo no Brasil”.

- Nesta mesma linha segue Amália Xavier de Oliveira, quando em seu livro O Padre Cícero que eu conheci, afirmou: “Foi o Padre Cícero quem programou, para o dia de sua posse, uma reunião com os chefes políticos da região a fim de assinarem um pacto de amizade e apoio mútuo tendo como um dos objetivos evitar movimentos que perturbassem a ordem na região caririense, procurando resolver as questões que surgissem, sem contendas prejudiciais, ao desenvolvimento das comunas”. E concluiu Amália Xavier de Oliveira: “Para fazer apresentação dos artigos o coronel Santana passou a Presidência (da reunião) ao Rev. Pe. Cícero, que explicou, aos presentes, a razão por que se fazia, naquele momento, um pacto de amizade e auxílio mútuo, com aquele programa de orientação”. 
Esta passagem, inclusive, está registrada na ata do pacto transcrita no início deste capítulo. Assim, temos três autores da ideia do Pacto: Dr. Floro, o juiz Dr. Arnulfo e o Padre Cícero. E a dúvida persiste com respeito à autoria. 

- Em seu livro Império do bacamarte o escritor Joaryvar Macedo tenta minimizar a questão da autoria da ideia do Pacto salientando que: “Seja quem for o autor do Pacto, é lícito admitir, ou mesmo acreditar nas suas retas intenções. Não parece justo considerá-lo uma farsa em sua gênese, como querem alguns. O acordo, na sua realidade, transformou-se numa pantomima, porque inexeqüível, pelo menos em parte dos seus artigos. Homens, na sua maioria despóticos, vezeiros em dominar pelo poder do bacamarte, achavam-se absolutamente despreparados para assumir compromissos de tal ordem. De outro ângulo, deixar de proteger facínoras e cangaceiros equivaleria a decretar a extinção do coronelismo. Um dos seus mais fortes esteios era precisamente o banditismo”.

- Diz ainda Joaryvar: “O texto da ata da singular Assembleia dos coronéis sul-cearenses, na qual se firmou o curioso pacto, reflete a posição proeminente do Padre Cícero na contextura coronelítica regional. Manifesta ademais, que, naquela conjuntura, a jeito trabalhada e preparada, o levita, além de assumir a chefia local, investia-se, concomitantemente, no comando político da região”.

- Assim como Joaryvar Macedo, Otacílio Anselmo também acha que “apesar da boa intenção do seu idealizador, o pacto seria inexeqüível num meio em que a lei vigente era a do mais forte e onde as questões, mesmo as mais simples, resolviam-se ao sabor da vontade soberana de velhos sobas apegados a seus interesses econômicos e as suas ambições políticas”.

- Para o escritor Rui Facó, na sua famosa obra Cangaceiros e fanáticos, “o pacto era na verdade um sinal de debilidade, um prenúncio de decadência do coronel tradicional, do potentado do interior, outrora senhor absoluto de seu feudo e em disputa constante com os feudos vizinhos. Sua maneira de pensar fora sempre esta: todos lhe deviam render vassalagem!”.
- Para  Irineu Pinheiro, autor de Efemérides do Cariri, os coronéis presentes à reunião em Juazeiro assinaram de comum acordo “um pacto de amizade e apoio mútuo com o fim de extinguir a proteção aos criminosos, evitar movimentos que perturbassem a vida das comunas caririenses, buscando resolver as questões que surgissem entre chefes vizinhos!”.

- A imprensa cearense deu vasta cobertura à reunião que culminou com a assinatura do pacto. Nada, contudo, se compara ao que estampou o jornal O Correio do Cariri, da cidade do Crato que após extensa matéria concluiu assim: “Podem os nossos leitores avaliar das boas intenções daqueles que, esquecendo antigos ressentimentos, se congraçaram, para, cumprindo santos deveres sociais, rasgarem um novo horizonte mais amplo e mais claro, aos públicos negócios desta opulenta e próspera parte de nosso Estado”. 

- Mas para o historiador americano Ralph Della Cava, autor de Milagre em Joaseiro, os coronéis do Cariri “contentes com a vitória obtida sobre Antônio Luís e desejosos de impedir que o Juazeiro viesse a dominar a região lançaram na famosa reunião a proclamação do hoje famoso Pacto dos Coronéis”. E conclui della Cava: “Finalmente, com o objetivo de fazer vigorar o pacto e garantir a participação da região na divisão do espólio político do poder estadual, comprometiam-se todos os delegados (presentes à reunião), a manter “incondicional” solidariedade com o excelentíssimo doutor Antônio Pinto  Nogueira Accioly, seu honrado chefe, e como políticos disciplinados obedecer incondicionalmente suas ordens e  determinações”.

- No final das contas, o certo mesmo é que o pacto falhou fragorosamente no conteúdo dos seus dois últimos artigos, pois cerca de pouco mais de três meses após a sua assinatura o presidente Accioly é apeado do poder, constituindo-se no mais duro golpe para os chefes políticos Acciolynos do Ceará.

- A queda do velho cacique da política cearense trouxe de roldão também o baque de muitos coronéis do Cariri, seus correligionários, mas, consoante acentua Joaryvar Macedo “a partir daí, começariam os caciques sul-cearenses, com desmedido empenho, a preparar uma sublevação, no sentido de retornarem ao poder supremo dos seus redutos eleitorais. E voltaram todos, com a vitória da rebelião de Juazeiro, de 1913 para 1914, - uma sedição dos coronéis”. 

- À reunião para assinatura do Pacto duas importantes forças políticas do Cariri não marcaram presença nem mandaram representantes: coronel Basílio Gomes da Silva, de Brejo Santo, e coronel Napoleão Franco da Cruz Neves, de Jardim, pois ambos já haviam rompido com Accioly. Contudo, outros chefes políticos destes municípios estavam presentes.

Conclusão
Diante do exposto, fica evidente que paira dúvida sobre quem é o autor da ideia de realização da reunião que resultou na assinatura do Pacto dos coronéis. Mas todos concordam num ponto:  a aposição da assinatura do Padre Cícero no referido documento oficializou sua liderança como chefe político da Cariri, mas também o transformou num coronel de batina conforme lhe atribuem muitos dos seus biógrafos.  
Também  fica evidente que mesmo o Pacto não tendo conseguido o êxito esperado, isso não diminuiu em nada o prestígio político do Padre Cícero que mais tarde o confirmou quando liderou juntamente com o deputado Floro Bartholomeu da Costa, em 1914,  o movimento sedicioso que culminou com a deposição do Presidente do Ceará, Franco Rabelo.
Também é possível concluir que depois do Pacto dos Coronéis a história do Padre Cícero toma outro rumo, agora de natureza política, mas que andou ao lado da sua já consolidada áurea de líder religioso de uma grande massa de sertanejos, sob o olhar de repúdio da Igreja Católica Apostólica Romana, que tirou suas ordens em 1894 e em 2015 promoveu sua reconciliação.  
Não obstante as críticas ostensivas dirigidas  a assembleia política que culminou com a assinatura do Pacto dos Coronéis, não há como anular o fato de este evento figurar como um dos mais importantes acontecimentos políticos da história do Cariri e do Ceará, pois nunca se viu tantos caciques da política cearense juntos numa vila recém-criada. E mais: somente o Padre Cícero teria força e prestígio suficientes para convocar os participantes da reunião. 
Por tudo isso, o Pacto dos Coronéis é tema recorrente na vasta bibliografia de Padre Cícero e jamais deixará de ser um assunto polêmico.  

GALERIA DOS PERSONAGENS DO PACTO DOS CORONEIS
    Padre Cícero                           Dr. Floro
                                                 
    Cel. Accioly             Cel. Antônio Luís
                                                           
    Cel. Antônio Correia Lima e Pe. Augusto Barbosa
 
     Cel. Gustavo Augusto e Cel. João Augusto
    Cel. José Alves Pimentel e Cel. Pedro Silvino
     Cel. Cândido Ribeiro Campos    e  Cel. Antônio Joaquim de Santana
     Cel. Romão Pereira Filgueiras Sampaio

O Pacto dos Coronéis na concepção da artista plástica juazeirense Assunção Gonçalves. Esta tela encontra-se exposta na Câmara Municipal de Juazeiro do Norte.  

Casa de dona Rosinha Esmeraldo (em sua arquitetura original) onde Padre Cícero foi empossado no cargo de intendente de Juazeiro e também local da realização da assembleia política que lavrou o Pacto dos Coronéis. 
    

Prédio onde foi assinado o Pacto dos coronéis atualmente


BIBLIOGRAFIA
     
ANSELMO, Otacílio. Padre Cícero: mito e realidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
BARBOSA DA SILVA, José Fábio. Organização Social de Juazeiro e Tensões entre Litoral e Interior, in Sociologia, vol. XXIV, n° 3, setembro de 1962. São Paulo,, Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo.
CAMURÇA, Marcelo. Marretas, molambudos e rabelistas: a revolta de 1914 no Juazeiro. São Paulo: Maltese, 1994.
DELA CAVA, Ralph. Milagre em Joaseiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
JANOTTI, Maria de Lourdes M.   O Coronelismo, uma Política de Compromissos. São Paulo, Editora Brasiliense S.A., 1981, p. 73.
LIRA NETO. Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LOPES, Regis. Caldeirão. Fortaleza: Eduece, 1991.
MACEDO, Joaryvar. Império do bacamarte: uma abordagem sobre o coronelismo no Cariri. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 1990.
MOREL, Edmar. Padre Cícero: o santo de Juazeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. 
PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1963.
XAVIER DE OLIVEIRA, Amália. O Padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora Ltda., 1969.   

O AUTOR

Daniel Walker é natural da cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, onde nasceu em 6 de setembro de 1947. É formado em História Natural pela Faculdade de Filosofia do Crato, com Curso de Especialização em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro. Professor Adjunto aposentado da Universidade Regional do Cariri-URCA. Desenvolve também atividade como jornalista com trabalhos publicados pela imprensa juazeirense e de Fortaleza. Em 1995 fundou o jornal eletrônico Juaonline, a vitrine da história de Juazeiro do Norte, rebatizado em 2008 com o nome de www.portaldejuazeiro.com É pesquisador da vida do Padre Cícero e de Juazeiro do Norte sobre quem já publicou os seguintes livros:
e-mail: danielwalker47@gmail.com

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Perspectiva do bem de consumo Padre Cícero - Por Michael M. Marques

Partindo da premissa dos estudos da cultura material, que trabalham através da perspectiva dos objetos materiais, há uma tentativa de compreender, de forma mais profunda, os signos e significados do consumo. Tal estudo tem ajudado a demonstrar como o mundo é provido de objetos materiais que contribuem para a sua constituição cultural e a refletem, como categorias culturais são materializadas[1]. (MACCKREN, 2007). Perceber a materialidade não distante da humanidade, sobretudo, teorizar e analisar essas relações de consumo enquanto elementos de identificação e demonstração diversificada de consumo sobre uma mesma coisa se faz necessário para a busca de uma análise profunda e complexa. 

É importante frisar a dificuldade em buscar uma identidade social a partir do consumo, devido à relação entre objetos e mercadorias, e as abordagens que enfatizam seus usos como marcadores e constituintes de um processo cultural que se constrói articulando muitos atores, construindo e consolidando sentidos, apresentando importante tradição de estudos na antropologia recente, especialmente aqueles que analisam o protagonismo dos consumidores a partir da aquisição de bens materiais.

Busco perceber a importância do consumo da estátua do Padre Cícero para o desenvolvimento do comércio local como representação simbólica e mitológica, na noção de habitus[2] proposta por Bourdieu. Dentro da teoria do poder simbólico, o habitus é o elemento que articula “os sistemas simbólicos como estruturas estruturadas (passíveis de uma análise estrutural)” e as estruturas estruturantes, ou seja, a “concordância das subjetividades estruturantes” (BOURDIEU, 2005, p. 8). Tais estruturas estão presentes na construção histórica dos espaços social em Juazeiro do Norte, a partir do conceito do Bourdieu, como: mito, arte, língua, religião, ciência. Para Bourdieu (2009), os sistemas simbólicos são instrumentos de conhecimento e de comunicação só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados. Os símbolos são instrumentos de conhecimento e comunicação e eles tornam possível a reprodução da ordem social. Os símbolos são os instrumentos por excelência da integração social, eles tornam possível o consenso sobre o sentido do mundo social que contribui para a reprodução da ordem social: a integração lógica é a condição da integração moral.

Assim podemos dizer que em Juazeiro do Norte, acontece a elaboração do fato social total. (MAUSS, 2005), o conceito do fenômeno ou fato social total sugere que o objeto real das ciências sociais é o estudo da realidade social, ou seja, um conjunto de fenômenos que se produzem e reproduzem no interior de uma sociedade, designados como fenômenos sociais. Portanto podemos perceber que todas as dimensões do real social são peças de encaixe, e, apesar de cada ciência estudar a área que lhe compete, o fenômeno social é total e só é explicado completamente com a junção de todas as dimensões, nunca se esgotando completamente com o estudo de uma só ciência. Daí que possa dizer-se que, separadas as ciências estudam o que lhes compete e juntas complementam-se. O social é um todo, englobando diferentes tipos de relacionamento entre indivíduos e entre o mundo que os abrange. Como um fato social total (MAUSS, 2011), apresenta-se nos mais distintos e diversificados aspectos da vida social: econômicos, políticos, sociais, culturais, jurídicos, de direito, morais, religiosos, domésticos, infraestrutura e estéticos. É diante essas características apresentadas pelo fato social total que está localizado o consumo do bem, o Padre Cícero, na cidade de Juazeiro do Norte, por seus visitantes e citadinos.

Nesse sentido, podemos pensar o consumo a partir da perspectiva da identificação social, não podendo ser visto como uma ação coerente. Visto que a sociedade pós-moderna localiza-se dentro de uma dificuldade de identificar uma sistemática bem elaborada do consumo, do ato de consumir. Pois existem diferentes demandas, demandas contraditórias nos setores da vida. O consumo não é coerente, pois o mesmo lida com subjetividade que aponta para o indivíduo espontâneo, relacional e ativo. 

Desta forma, podemos pensar a prática de consumo não destituída em um vazio cultural. Elas estão inseridas em um espaço, um contexto, e são instruídas por lógicas sociais que dão sentido as práticas em determinados contextos. Não são ações voluntaristas, as mesmas tendem a identificar e estruturar a vida social, o cotidiano, mesmo em um mundo repleto de permanentes transformações. Elas (práticas de consumo) estão alocadas em um conjunto de oportunidades, que dificilmente serão mudadas. Essas escolhas por não serem voluntárias, irão variar dentro de uma variabilidade em que o campo social oferece. 

Obs: Este texto faz parte da construção da dissertação, cujo título é: ENTRE O TRECO E A CIDADE. ESTUDO ANTROPOLÓGICO SOBRE O CONSUMO DAS ESTÁTUAS DO PADRE CÍCERO EM JUAZEIRO DO NORTE-CE

Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 11 Ed. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 2007.
________________. A economia das trocas simbólicas. 3. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
________________. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70 LDA, 2011.
McCRACKEN, G. Cultura e Consumo: Uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. Revista de Administração de Empresas – RAE, v. 47, n. 1, p. 99-115, jan./mar. 2007. 
MACCRAKEN, Grant. Cultura e consumo: novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e atividades de consumo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
MILLER, Daniel. Consumo como cultura material. Horizontes Antropológicos, Ano 13, n. 28, 2007.

MILLER, Daniel. Treco, troços e coisas. Estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2013

[1] Vê mais em: McCRACKEN, G. Cultura e Consumo: Uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. Revista de Administração de Empresas – RAE, v. 47, n. 1, p. 99-115, jan./mar. 2007.

[2] De acordo com o autor, as estruturas sociais por si só não determinam a vida em sociedade como pretendiam os estruturalistas. A dimensão individual, o agente social – e daí decorre a importância do conceito de “habitus” reintroduzido por Bourdieu – não é uma simples consequência das determinações da estrutura social. Internalizamos regras e normas sociais, mas existem aspectos de nossas condutas que não são previsíveis. É como um jogo que sabemos as regras e o seu sentido, mas que também podemos improvisar. A noção de “habitus’ exprime, sobretudo, (...) a recusa a toda uma série de alternativas nas quais a ciência social se encerrou a da consciência (ou do sujeito) e do inconsciente, a do finalismo e do mecanismo”. (BOURDIEU, 1989, p.60).

O AUTOR
Professor da rede estadual de ensino do Ceará
Estudante do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)


Email: michaelmarques.cs@hotmail.com

quinta-feira, 3 de março de 2016

Carta de Reconciliação do Padre Cícero gera polêmica

A divulgação de uma notícia na imprensa segundo a qual três pesquisadores (Dr. Lauro Barreto, Pe. Neri Feitosa e o professor José Sávio Sampaio) contestam o conteúdo da carta sobre a reconciliação do Padre Cícero, divulgada no ano passado pela Diocese do Crato, está causando grande repercussão na imprensa e nas redes sociais. Abaixo transcrevemos um artigo na historiadora Anne Dumoulin, profunda conhecedora da história do Padre Cícero, o qual representa sua opinião abalizada sobre a polêmica em questão, contestando as argumentações dos pesquisadores. Em seguida transcrevemos artigo do escritor Paulo Machado que segue a linha dos três pesquisadores citados na matéria polêmica.

“A reconciliação da Igreja com Padre Cícero é claramente um reconhecimento que a opinião que a Igreja tinha sobre este sacerdote estava errada e a carta apresenta diversas virtudes do Padre até mesmo apresentando-o como um modelo para a nova evangelização, para uma Igreja em saída! Claro que como todo ser humano, Padre Cícero não foi privado de erros e falhas durante sua longa existência de 90 anos! O Cardeal não desvaloriza as pesquisas e a análise dos pontos de controversos! Ainda tem trabalhos, prezados pesquisadores que somos! Mas a carta é pastoral vai ao centro da questão que são os frutos bons da missão sacerdotal do Padre Cícero! Basta citar aqui as frases seguintes: " Sem dúvida alguma, Padre Cícero foi movido por um intenso amor pelos pobres e por uma inquebrantável confiança em Deus... Ele procurou agir segundo os ditames de sua consciência, em momentos e circunstâncias bastantes difíceis.... É necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero." 

Por favor... Um pouco mais de leitura teológica, esta vez, para reconhecer que a Igreja fez mais do que reabilitar (aliás, como reabilitar um falecido, reabilitar a celebrar a missa de novo? ) o Padre Cícero: ela, oficialmente, reavaliou e apreciou várias dimensões de sua vida como sacerdote... E não são poucas virtudes! Então, a Igreja não perdoou... Porque não tinha nada a perdoar... Tinha que corrigir uma visão errada e negativa que tinha do Padre Cícero, no passado! Ela não reabilitou Padre Cícero, pois as medidas disciplinarias são medidas que valem apenas neste mundo e não no Outro! A reconciliação com Padre Cícero é muito mais bonita, linda! Não se trata de beatificação, de canonização! O Papa fez um ato de JUSTIÇA, não somente em relação ao Padre Cícero mas também em relação aos seus romeiros tratados injustamente de fanáticos, ignorantes! Aliás, é a partir deles que o Papa está relendo a missão sacerdotal do Padrinho... A gente reconhece a árvore pelos seus frutos!”

Para entender a polêmica leia abaixo a notícia que a provocou.

Diocese de Crato, no Ceará, diz que cartas são provas do perdão a Padim Ciço, excomungado após "milagre da hóstia"

Uma polêmica e tanto agita os bastidores da Igreja Católica. Especialistas em processos canônicos contestam o alarde que a Diocese de Crato, no Ceará, a dez quilômetros de Juazeiro do Norte, vem fazendo em torno de duas cartas do Vaticano. Na visão da Cúria local, as correspondências garantem que Roma concedeu a tão sonhada reconciliação da Igreja com o Padre Cícero Romão Batista, um dos candidatos a santos mais populares do Brasil.

Padre Cícero foi excomungado pelo bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, acusado de manipulação da fé. Ele não conseguiu fazer com que a Igreja reconhecesse o "milagre da hóstia” — as comunhões dadas por ele à beata Maria de Araújo teriam se transformado em sangue.

Como castigo, foi proibido de pregar, ouvir confissões e celebrar missas. Morreu em 1934, aos 90 anos, sem ter esses direitos restabelecidos como sacerdote. Após sua morte, o número de fiéis em romarias à cidade que ele fundou, Juazeiro do Norte, cresceu e transformou as peregrinações num dos maiores encontros de fé do País.

Para críticos, porém, ambas não endossam que o Papa Francisco tenha concedido de fato o perdão, transformando o episódio “numa possível farsa”, que seria alimentada pelo bispo de Crato, Dom Fernando Panico.

Em carta de sete páginas, de 20 de outubro de 2015, assinada pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, e endereçada a Panico, a diocese interpreta trechos como sinônimo de reconciliação. Principalmente o que diz: “Mas é sempre possível, com a distância do tempo, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote”.

Ao divulgar tal carta (íntegra em www.diocesedecrato.org), em dezembro, com festa para 50 mil devotos, o bispo fez o milagre de triplicar as romarias no Sertão do Cariri e a arrecadação para os cofres da Mitra Diocesana.

“Em momento algum o Vaticano fala em reabilitar, reconciliar ou perdoar o Padim Ciço. Apenas realça as qualidades de Cícero, nada mais. É embromação”, diz o advogado Lauro Barretto, devoto fervoroso do Patriarca do Nordeste. Como estudioso de processos canônicos, Barreto escreveu um livro que será lançado em abril.

Questionado pelo DIA, Armando Lopes Rafael, chanceler do bispado do Crato e porta-voz de Dom Panico, entregou à reportagem outra carta inédita, em italiano. Datada de 5 de setembro de 2014 e assinada pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard Müller, “comunicando”, segundo ele, a conciliação.

“O Papa raramente assina cartas, delegando essa tarefa ao secretário de Estado. Existe uma minoria que não gostou da reconciliação da Igreja com o Padre”, lamentou Armando. “Essa carta de 2014 não garante a reconciliação. A Diocese de Crato interpretou errado as duas cartas”, diz Lauro.

Jornal do Vaticano não deu a notícia
Em 2006, dom Fernando Panico formou uma comissão e deu entrada na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, no processo de reabilitação. A polêmica em torno da interpretação das cartas começa quando, com base nos estudos realizados pela Equipe de Direito Canônico do Vaticano, o Papa Francisco ventilou que a Igreja deveria conceder a reconciliação de Padim Ciço com a Igreja.

“Fico feliz por receber essa grande graça”, diz dom Panico num texto postado no site da Diocese. Reconciliação significa que a Igreja apaga qualquer oposição às ações de Padre Cícero.

Nenhuma agência de notícias oficial do Vaticano, entre elas a Gaudium Press, tocou na possível reconciliação. Para o historiador e professor José Sávio Sampaio e o padre Nerí Feitosa, maior biógrafo de Padre Cícero não há provas de que a Igreja fez as pazes com Padim Ciço. “Não há documento assinado pelo Papa Francisco, que diz claramente que a Igreja se reconciliou com Padre Cícero”, diz Sávio. “Sugerir uma reconciliação não significa que ela tenha se dado de fato”, diz Nerí
Severino Silva / Agência O Dia

BREVE COMENTÁRIO SOBRE A “CARTA DE RECONCILIAÇÃO COM O PADRE CÍCERO” divulgada pela DIOCESE DE CRATO.
Por Paulo Machado

Inicialmente cumpre destacar que a referida CARTA NÃO FOI ASSINADA PELO PAPA FRANCISCO e, sim, pelo Secretário de Estado da Santa Sé Cardeal Pietro Parolin. 
Essa Carta, deixa bem claro que “não é intenção ... pronunciar-se sobre questões históricas, canônicas ou éticas do passado” afetas ao PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA.
. Aliás, o próprio Cardeal Paroli adverte o Bispo do Crato, para que ele tivesse o zelo e o cuidado, na “AUTÊNTICA INTERPRETAÇÃO DA MESMA” ao divulgá-la. 
Mas estão dando uma maior dimensão a Carta do Cardeal Paroli
O Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ Cardeal Orani João Tempesta, chama a atenção para o fato de a referida Carta “aponta o lado benemérito” da figura do Padre Cícero, visto apenas do ponto de vista eminentemente pastoral e religioso. É este fato, segundo o Cardeal Tempesta, “que a imprensa chamou de REABILITAÇÃO DO PADRE CÍCERO” ou RECONCILIAÇÃO como apregoa a DIOCESE DE CRATO. NÃO FOI. 
O Padre Cícero, na visão da Igreja Católica continua sendo, segundo a CARTA do Cardeal PAROLI , “UM VASO DE ARGILA”, uma figura “NÃO PRIVADA DE FRAQUEZA E DE ERROS”, uma pessoa que “NEM SEMPRE SOUBE ENCONTRAR AS JUSTAS DECISÕES A TOMAR OU ADEQUAR-SE ÀS DIRETRIZES QUE LHE FORAM DIRIGIDAS PELA LEGÍTIMA AUTORIDADE”, e, ainda, que outros aspectos do Padre Cícero “PODEM SUSCITAR PERPLEXIDADE.” . Mas o Cardeal Paroli não deixa de exaltar que às vezes, “DEUS ESCREVE CERTO POR LINHAS TORTAS” E SE SERVE DE INSTRUMENTOS IMPERFEITOS PARA REALIZAR A SUA OBRA (CF.LC 17:10)”
É nesse aspecto, segundo Paroli, que a Igreja Católica e mais precisamente a DIOCESE DE CRATO se serve ou tem incorporado esse movimento popular e da imagem do Padre Cícero para ir “ao encontro das periferias existenciais”, “para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino” .
Segundo Paroli, o Padre Cícero continua sendo “ objeto de estudos e análise, como atesta a multiplicidade de publicações a respeito, com interpretações as mais variadas e diversificadas”. 
NÃO HOUVE, PORTANTO, RECONCILIAÇÃO DA IGREJA com o PADRE CÍCERO. O Cardeal Paroli conclui: “ MAS É SEMPRE POSSÍVEL, COM A DISTÂNCIA DO TEMPO E O EVOLUIR DAS DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS, REAVALIAR E APRECIAR AS VÁRIAS DIMENSÕES QUE MARCARAM A AÇÃO DO PADRE CÍCERO.
RECONCILIAÇÃO E O PERDÃO DA IGREJA PARA COM O PADRE CÍCERO PODEM ATÉ OCORRER NO FUTURO, ESPERAMOS TODOS. MAS, no momento, com todo respeito a quem pensa de forma diversa: NÃO HOUVE. 
PAULO MACHADO
(AUTOR DE “PADRE CÍCERO ENTRE OS RUMORES A A VERDADE”

Polêmica boba em torno da carta de reconciliação do Padre Cícero
“O Padre Cícero é um cruciante ponto de interrogação”. Esta frase dita por Monsenhor Azarias Sobreira, autor do livro Padre Cícero, o Patriarca de Juazeiro, no século passado, permanece atual e cada vez mais oportuna.
Durante muito tempo, principalmente nos livros, Padre Cícero foi sempre analisado obedecendo a uma invariável dicotomia de juízos diametralmente opostos: de um lado, sendo atacado com radicalismo por quem não lhe reconhece nenhum valor; de outro, sendo exaltado com exagero por quem lhe confere muitas qualidades.
Ultimamente, porém, depois que os cientistas sociais passaram a estudá-lo, sua figura real começou a ser delineada dentro de uma nova ótica de observação e análise. E, ao que tudo indica nessa nova visão Padre Cícero é mostrado com os defeitos comuns aos homens normais e as virtudes inerentes aos homens extraordinários. Tudo dentro da lógica, conduzido sem paixão, para que, um dia, quem sabe, ele finalmente deixe de ser, usando a expressão de Padre Azarias Sobreira: um cruciante ponto de interrogação.
Tudo na vida do Padre Cícero gera polêmica. É assim desde que nasceu. Agora surge uma nova polêmica justamente porque surgiu um fato novo na sua história. E mais uma vez tem a Igreja como protagonista. É a tão propagada carta de sua  reabilitação com a Igreja que para alguns historiadores deve ser catalogada no arquivo com o nome de “suposta”, o mesmo que arquiva o milagre da hóstia. Assim, para muitos historiadores Padre Cícero é um suposto santo, um suposto líder, um suposto milagreiro e agora um suposto reconciliado. Sua via crucis parece não ter fim e ele mesmo já antevia isto quando disse:  “Tomei o propósito, desde o começo desta enorme perseguição contra mim, de entregar tudo a Deus e a Nossa Senhora das Dores e não me defender de coisa alguma”.
Diante dessa polêmica que a carta de reconciliação do Padre Cícero gerou podemos intuí que ela virou polêmica por vários motivos, alguns dos quais mencionamos a seguir:
1) Não é um decreto da Congregação para doutrina da fé
2) Não foi assinada pelo Papa
3) Não traz explicitamente a palavra reconciliação
4) Não foi notícia na imprensa oficial do Vaticano
5) Ela foi conseguida pelo esforço do bispo D. Fernando ancorado no estudo da comissão que ele nomeou para elaborar e enviar o processo de reabilitação histórica e eclesial do Padre Cícero.
Parece que este último ponto está bem explícito no bojo das discussões que se dissemina na imprensa e nas redes sociais, dando a entender que agora o foco da questão polêmica não é mais o Padre Cícero e sim, o bispo da diocese do Crato.  E isto é fácil de perceber, quando a gente vê os nomes dos defensores e dos contestadores da agora (lamentavelmente) famigerada carta de reconciliação.
Se a discussão prosperar por este caminho ficará evidentemente pessoal e não levará a lugar nenhum, e não trará contribuição histórica importante para a biografia do Padre Cícero.
Por isso, no intuito de oferecer alguma contribuição para estancar as animosidades, mas sem intenção de participar de nenhum dos grupos antagônicos que a questão gerou, ousamos fazer as seguintes ponderações:
1) O fato de ser uma carta e não um decreto isto parece ser de somenos importância
2) Não ser assinada pelo Papa é irrelevante, pois o cardeal que a assinou tinha credenciais para representar o pensamento de Sua Santidade sobre o assunto]
3) A palavra reconciliação não está explica, mas os argumentos contidos induzem a tal porque as virtudes do Padre Cícero foram evidenciadas, sua pastoral foi elogiada e as romarias foram exaltadas como sendo bons frutos.
4) A imprensa oficial do Vaticano não divulgou o assunto, mas também não se pronunciou até agora condenando quem divulgou a carta como sendo de reconciliação.
5) Mesmo que traga constrangimento a alguns historiadores,  D. Fernando tem, sim, algum mérito nessa questão, pois foi ele quem fez oficialmente o pedido de reconciliação histórica e eclesial do Padre Cícero à Congregação para a doutrina da fé, mesmo tendo recebido argumentos contrários apresentados por figuras do clero, algumas delas da sua diocese.

Diante do exposto, vamos deixar de lado essa polêmica boba e infrutífera; vamos aceitar a carta como sendo mesmo de reconciliação, afinal o Vaticano não contestou que assim pensa; vamos vibrar com a carta pois ela é um documento que reconhece virtudes do Padre Cícero, aprova sua pastoral, o tem como exemplo a ser seguido e exalta as romarias; foi escrita com autorização do Papa como manifestação expressa do seu pensamento e por fim, vamos todos dar graças a Deus pelo Padre Cícero que temos.
Então, cantemos juntos: Viva meu Padim, via meu Padim, Cícero Romão.
E chega de polêmica besta que não leva a nada.
Daniel Walker

Em tempo: Este artigo já estava escrito quando tomamos conhecimento de que na solenidade de divulgação da carta D. Fernando fez menção a um decreto  emitido pela Congregação para doutrina da fé, cuja tradução do italiano é a  seguinte:

CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE

00120 Città del Vaticano
Palazzo del S. Uffizio
27 de outubro de 2014
Protocolo no. 319/14-48388

Excelência Reverendíssima:
Na data de 30 de maio de 2006, Sua Excelência entregou na sede desta Congregação um edido endereçado ao Santo Padre para a reabilitação canônica do Pe.Cícero Romão Baptista (1844-1934). Essa petição era acompanhada de uma igual petição formulada pela CNBB durante a sua 44ª. Assembleia Geral, de-17 de maio de 2006. O pedido também foi acompanhado de uma abundante documentação, fruto do estudo de uma especial Comissão de Estudos para a reabilitação histórico-eclesial do Pe. Cícero Romão Baptista.

Este Dicastério, valendo-se também do parecer de alguns especialistas na matéria, não deixou de submeter a um cuidadoso estudo os documentos acima, confrontando-os com os documentos originais conservados neste arquivo da Congregação, relacionados com os eventos que levaram a Santa Sé a censurá-lo em alguns aspectos de sua vida. As conclusões do
estudo foram submetidas à Sessão Ordinária da Congregação, realizada em 2 de julho de 2014, que decretou o que segue:

TODOS: São consideradas justas e justificadas as medidas disciplinares que a seu tempo foram exaradas pela Santa Sé no processo de Pe. Cícero, e que foram mantidas até sua morte, e por isso não se pode atender ao pedido de reabilitação do sacerdote.

TODOS: Considera-se oportuna, entretanto, a forma de “reconciliação histórica”, que leve em conta todos os aspectos da vida humana e sacerdotal do Pe. Cícero, e traga à luz o lado positivo da sua figura.

O Santo Padre Francisco, durante a Audiência de 5 de setembro de 2014 aprovou a decisão acima e pediu que seja preparada uma Mensagem por um organismo da Santa Sé, endereçado aos fiéis dessa diocese, que agora está celebrando o primeiro centenário de sua elevação. Com essa iniciativa se poderá operar a desejada “reconciliação histórica”, possibilitando uma serena apresentação geral da figura histórica, sacerdotal e apostólica do Pe. Cícero, no contexto da devoção mariana e eucarística dos peregrinos de Juazeiro do Norte.

Tendo em vista a preparação de tal Mensagem, peço-lhe gentilmente para fornecer aqueles elementos que, a seu critério, fazem hoje do Pe. Cícero uma figura a ser valorizada do ponto de vista pastoral e religioso.

Gerard Müller
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

Pronto, gente, aí está o decreto. O decreto diz que Padre Cícero não pode ser reabilitado e está correto, pois a sua reabilitação só teria sentido se ele estive vivo para poder desfrutar do prazer de voltar a celebrar e praticar os outros diretos que todo sacerdote ativo tem. Como reabilitar não é possível, então o decreto "Considera-se oportuna, entretanto, a forma de “reconciliação histórica”, que leve em conta todos os aspectos da vida humana e sacerdotal do Pe. Cícero, e traga à luz o lado positivo da sua figura."
Será que isso põe fim a polêmica ou vai alimentá-la mais ainda?