sábado, 6 de fevereiro de 2016

“Tiramos o pe. Cícero do escuro da história”, disse Dom Fernando Panico

ZENIT, órgão da imprensa romana,  entrevista o bispo da diocese de Crato, Dom Fernando Panico. Temas: Igreja pede perdão ao pe. Cícero; diferença entre perdão, reconciliação e reabilitação; atividades políticas; padre e pastor; riquezas; acusações e perseguições; nove volumes de trabalho investigativo; dentre outros…

Cícero Romão Batista jamais soubera que um dia fora excomungado e, posteriormente, absolvido da pena, teve contato com Lampião, convidou Luis Carlos Prestes à rendição, movimentou o Nordeste Brasileiro, arrebanhou corações para Jesus Cristo, demonstrou-se sempre humilde e obediente perante as autoridades eclesiásticas, e, na impossibilidade de exercer o seu sacerdócio ministerial, tornou-se o “padrinho” de uma multidão órfã de pai. Essas e outras virtudes são muito bem demonstradas pelo jornalista Lira Neto na biografia mais completa já escrita sobre o santo popular: “Pe. Cícero, poder, fé e guerra no sertão”, Companhia das Letras.

Logo após a última missa celebrada na terra pelo “Padim” (como lhe chamavam os devotos, regionalismo de “padrinho”), no dia 4 de junho de 1921, minutos depois recebia o ofício diocesano que o proibia de exercer qualquer atividade como sacerdote dali por diante, até quando falecera em 20 de julho de 1934, tendo cumprido 90 anos.

“Instituo meu único e universal herdeiro a Santa Sé, representada na pessoa de Sua Santidade, o Papa, sendo o meu desejo que Sua Santidade aceite esta minha disposição de última vontade, incorporando a universalidade de minha herança ao patrimônio da mesma Santa Sé”, registrara alguns anos antes, em seu 1º testamento, lavrado no cartório em abril de 1918.

Testamento modificado em outras duas ocasiões, quando, em sua 3ª edição definitiva, deixou a Pia Sociedade de São Francisco de Sales como sua principal herdeira, com a condição de criar escolas e institutos de ensino e educação em Juazeiro. Acusado de escravizar os fieis na ignorância, esse mesmo sacerdote deixara metade da sua riqueza – não pouca, e doada por coronéis e romeiros ao longo da vida – para a educação dos concidadãos, e a outra metade para várias instituições religiosas da região.

Morreu paupérrimo, relatou a ZENIT Dom Fernando Panico, a ponto que os coronéis tiveram que fazer uma vaquinha para pagar o seu enterro.

Durante mais de um século atacado e manchado por intelectuais de todos os lados políticos e eclesiásticos. Durante mais de um século atraindo multidões, milhares de romeiros ao seu encontro, em vida, e mais ainda depois de morto, chegando aos milhões por ano atualmente… E sempre do lado de fora das Igrejas e dos templos.

O Nordeste inteiro, e não só, tem o nome do santo nas ruas, nas praças, nos monumentos… e somente nesse último fim de semana, quase 100 anos após a sua morte, pela primeira vez na história, um quadro do Padim Ciço entrou em procissão, passando pela Porta Santa da Basílica Nossa Senhora das Dores, no contexto do Ano Santo da Misericórdia.

A região do Cariri é um autêntico oásis de fauna e flora em meio a um deserto – principalmente para quem cruza de carro do litoral do Ceará ao interior, como foi o meu trajeto ao visitar essa cidade nesse último mês de Janeiro de 2016 e entrevistar pessoalmente Dom Fernando Panico para ZENIT.

Ao som dos passarinhos, pé da Chapada do Araripe, na sede no recém fundado seminário de Crato e Casa de Repouso Sacerdotal, sentados em uma varanda refrescante, às 10h da manhã.

Os entrevistados foram: Pe. José Vicente Pinto, vigário geral da Diocese de Crato, e Dom Fernando Panico, bispo diocesano.

Após uma conversa introdutória muito enriquecedora, Dom Fernando Panico dignou-se responder às minhas perguntas.

O contato com um povo humilde, acolhedor, muitas vezes órfão de tudo, e que se aproxima da gigante imagem do Pe. Cícero na colina do horto para pedir proteção, inspira a unir a voz com um dos cantores da região, Jota Farias, deixando Juazeiro para uma outra vez voltar e com um novo CD no rádio:
“No caminho da fé o povo não se cansa.
Quem anda com jesus nunca perde a esperança.
Somos romeiros vivemos a caminhar
Visitando o juazeiro com Jesus nos encontrar
Confessar nosso pecado e assim nos libertar
E a cantar no santuário alegria de chegar”.

Acompanhe abaixo a entrevista completa concedida a ZENIT:
ZENIT: Vamos definir termos. Qual a diferença entre reconciliação, reabilitação, perdão, no caso do Pe. Cícero? (Nessa primeira resposta Dom Fernando Panico fez um apanhado geral sobre as principais questões relativas ao Pe. Cícero, acusado de rico, político, desordeiro, etc.)

Dom Panico: Começo a fazer um pouco o histórico, o relatório, desse processo que foi enviado a Roma no ano 2006 e entregue ao Papa emérito Bento XVI.

Nós, atendendo à própria sugestão que veio da Congregação para a Doutrina da Fé, enveredamos o processo todo sob a égide do nome reabilitação. Foi um nome que nasceu assim, do diálogo com o cardeal Ratzinger, com o secretário dele, Dom Bertone, hoje cardeal, então eu fiquei com esse nome: “reabilitação”.

E voltando para o Brasil depois daquela visita à Roma para tratar do assunto em questão reuni, graças à cooperação também da CNBB, uma equipe de estudiosos de todo o Brasil. Não só daqui da região do Ceará ou do Cariri. Eu queria formar uma comissão de estudiosos livres de preconceitos ou de paixões para que me ajudassem a formar um conceito, por quanto possível objetivo sobre tudo o que ocorreu ao redor do Pe. Cícero.

Então, reunindo essa comissão insistimos sobre o nome “reabilitação”. Todo o nosso trabalho visava, sem nos darmos conta, talvez, da diferença que depois foi mostrada pelo Papa Francisco, continuamos trabalhando em vista de uma reabilitação.

Ao mesmo tempo começaram as críticas dos intelectuais que sabendo dessa comissão, dos estudos que estávamos realizando – estudos de pesquisa, nos arquivos de todo tipo que pudessem ter referência ao pe. Cícero.

É a Igreja que deve reabilitar-se com o Pe. Cícero

Então, as críticas diziam: “reabilitar”? “reabilitar o quê?”, é a Igreja que deve se reabilitar com o pe. Cícero porque foi a Igreja que condenou o pe. Cícero e, portanto, deve reconhecer a história como foi a partir de certas atitudes que ela, a Igreja, tomou. Então nasceram aquelas indiretas próprias do mundo acadêmico.

Pe. Cícero, homem polivalente, culto

Fizemos também simpósio internacional sobre a figura do pe. Cícero e ressaltando a figura e a importância do pe. Cícero sob diversos enfoques, não só o enfoque da religiosidade, mas também o enfoque do homem polivalente, culto, que já naquela época entendia de tudo e, portanto, sabia aconselhar os pobres lavradores que fugiam da seca para resistir às calamidades da natureza, aonde, então, deviam plantar, como deviam plantar, aonde se podia encontrar água, como defender a natureza, para que a natureza não virasse o deserto… Já se falava na época do pe. Cícero em desertificação. E se falava do problema da água, se falava do problema da ecologia. Pe. Cícero que pedia para não fazer queimas de roças, que a terra é mãe, que não devia ser violentada pelo fogo, mas que os lavradores tivessem outros processos mais naturais para repousar a terra e dar à terra mais riqueza para produzir.

Pois bem, o pe. Cícero foi estudado sobre muitos aspectos.

Reabilitação… é Igreja que deve se reabilitar com o seu filho que foi colocado à margem, foi exilado, foi – digamos assim – não reconhecido.

Resultado dos trabalhos de investigação: nove volumes e uma resposta papal

Mas, apesar de todas essas críticas nós concluímos os nossos trabalhos, depois de quase quatro anos de estudos e apresentamos à Congregação da Doutrina da Fé no ano de 2006 nove volumes, nove volumes! Não fomos com pouco papel não! (sorriu Dom Fernando).

Nove volumes coletando tudo o que podíamos ler e saber sobre o pe. Cícero, incluindo também toda a correspondência dele, as cartas dele, e as cartas de outros a respeito dele, alguns a favor e outros contra, então, juntamos tudo e foi para Roma e, assim, no ano passado de 2015, depois de muita espera e muita insistência de minha parte, chegou a resposta. Uma resposta muito – digamos assim – iluminada.

Nós acolhemos essa resposta chorando. A comissão que viu comigo o conteúdo dessa carta do cardeal Pedro Parolin nos mandou, ao meu endereço, nos fez chorar de alegria. E já pensando na grande alegria que os romeiros, poderia e deveriam, encontraram na leitura das palavras que vêm do coração do Papa Francisco. Esse Papa que nos compreende porque ele sente na sua própria experiência espiritual a força e a importância da fé dos pobres e não impede que essa fé se manifeste. Não manipula, como sucessor de Pedro, a expressão religiosa numa determinada orientação.

Reconciliar é diferente de reabilitar

Então, quando nós lemos a carta vimos que não se falava de reabilitação e sim em reconciliação. Então, reconciliar é diferente de reabilitar.

Reabilita-se uma pessoa que já morreu? Como podemos dar ao pe. Cícero que já faleceu a mais de 90 anos, né, uma nova configuração canônica, jurídica? Como podemos devolver? Como a Igreja pode devolver o uso de ordens para um morto? Então, não se trataria, canonicamente falando, em reabilitação.

Agente não atinou para esse aspecto quando fizemos o processo. Mas o Papa, que é muito perspicaz e pastoral, sobretudo, entendeu que a questão do pe. Cícero deveria ser vista como uma questão de reconciliação da Igreja com o pe. Cícero e com os romeiros, que são os herdeiros espirituais de toda uma ação do pe. Cícero voltada para valorizar a vida dos últimos.

Um padre exemplar, que morreu pobre, deixando tudo aos pobres

O pe. Cícero manifesta para nós hoje o exemplo de um padre que não tem fronteiras, um padre aberto, um padre que sai ao encontro dos outros, embora ele não tenha nunca saído de Juazeiro; mas um padre aberto para acolher, um padre com cheiro de ovelhas, como fala o Papa Francisco. Um padre, então, sempre solícito para escutar, para dar bons conselhos e para ajudar até financeiramente.

O pe. Cícero é acusado de ter sido rico, mas a riqueza que ele tinha era dada a ele pelos coronéis que brigavam entre si e que o pe .Cícero fazia todo um trabalho de pacificação que eles – quem sabe se por amizade ou reconhecimento – ofereciam ao pe. Cícero bens, terras, para as quais o pe. Cícero enviava os afilhados dele que fugiam da seca, os flagelados.

Então, quando o pe. Cícero morreu, dizem os contemporâneos, pe. Cícero morreu pobre, paupérrimo, ao ponto que tiveram que fazer, os coronéis, uma vaquinha para custear as despesas da funerária: caixão, enterro e tudo. Então, de tão pobre que ele vivia… mas para muitos ainda permanece essa ideia do pe. Cícero rico.

Pe. Cícero Político: fundou a cidade de Juazeiro, da qual foi o primeiro prefeito

O pe. Cícero político. Bom, uma vez que o pe. Cícero foi proibido de exercer o ministério sacerdotal, e o povo continuava indo a ele, e dessa vez um povo exigido, pedindo, suplicando do pe. Cícero uma atenção em favor das famílias, então o pe. Cícero – digamos assim – não sei se cedeu ou assumiu como consequência da sua missão sacerdotal e pastoral, assumiu esse lado político, ou seja, para poder ajudar o povo fundou a cidade de Juazeiro, da qual foi o primeiro prefeito… foi nomeado também para outros cargos públicos, políticos, no Brasil, mas ele nunca chegou a tomar posse… preferiu, então, sempre ficar lá em Juazeiro cuidando do povo.

Então, em vez de reabilitação, reconciliação. Reconcilia-se com uma pessoa que, embora falecida, os valores dela continuam presentes e são eficazes para serem vistos e também assimilados sempre mais pelas gerações do povo.

Uma Igreja que sabe pedir perdão. Ninguém é tão puro de estar livre de qualquer suspeita

Então, reconciliação da Igreja com o pe. Cícero. Esse gesto, que parece tão humano e tão divino. Lembro-me que não é a primeira vez na história que a Igreja passa por um processo de reconciliação e de perdão.

Mais próximos dos nossos dias, dos nossos tempos, o Papa João Paulo II no jubileu do ano 2000, abraçado àquela cruz da basílica de São Pedro, do Vaticano, pediu publicamente perdão, em nome da Igreja, pelos erros cometidos ao longo da história. A Igreja sabe reconhecer também que errou, porque ela é humana, além de ser divina, instituição que vem de Deus, mas Ela é feita por homens, homens que podem errar, homens que, embora com todas as intenções melhores não deixam de transparecer a fraqueza deles como pecadores, das decisões que são tomadas. Ninguém tão puro para estar livre de qualquer suspeita.

E na história do pe. Cícero, infelizmente, assim como na história de todo ser humano tem elementos que contribuíram para a condenação dele.

ZENIT: Dom Fernando, existe algum projeto de publicar toda essa documentação, ou deixa-la à disposição de estudiosos, jornalistas e historiadores?

Dom Fernando Panico: Esse material se encontra à disposição dos estudiosos, dos pesquisadores, no nosso departamento histórico diocesano, na cúria do Crato. Existe, então, o departamento histórico que recolhe todos os documentos relativos à diocese.

Todos os livros, então, que falam da história da diocese, história nas paróquias, etc. E aí estão, agora, os nove volumes, que foram apresentados para o Vaticano. No Vaticano tem uns exemplares, ou melhor, dois exemplares, ou três, não me lembro, de cada volume, conforme nos fora pedido e outros exemplares ficaram aqui mesmo no Crato a disposição da Cúria.

ZENIT: Mas, publicar… há essa ideia?

Dom Fernando: Digamos que, no momento, uma ideia de publicar tudo… ainda não pensamos nisso não. Também para respeitar os tempos, para respeitar o estudo que a Santa Sé faria sobre aquele documento. Para não colocar, então, como costumamos dizer aqui no Brasil “o carro na frente dos bois”. Então, aquela prudência pastoral e também acadêmica, científica, para poder “vender o couro depois de ter matado o animal”.

ZENIT: Então, podemos entender que a Igreja pediu perdão. Mas pediu perdão pelo que, em concreto?

Dom Fernando: Meu irmão, cada um faz a sua leitura. Agora, o Papa, na carta, me recomenda, a mim, bispo da diocese de Crato, para dar ao povo uma justa interpretação daquilo que ele quer e escreve. E essa justa interpretação consiste em que a Igreja reconhece o pe. Cícero pelos frutos dele.

Ou seja, o Papa Francisco chega a desejar, a pedir até, a Deus, para que esta expressão das romarias, como Igreja em saída, Igreja missionária, não seja uma característica só para o Nordeste do Brasil. Mas seja para todo o Brasil e para a Igreja inteira. Então o pe. Cícero botou no coração e na boca e na caneta do Papa Francisco esse desejo de fazer da Igreja toda uma Igreja peregrina, a Igreja missionária, a Igreja que não fica tranquila nos seus lugares assim de status, mas arrisca. A Igreja como hospital, campo de batalha, a Igreja que não tem medo de ficar suja de barro ou de sangue, é a Igreja que mexe com a realidade humana para iluminá-la, para purifica-la e para redimi-la.

Então, o papa Francisco me pede para dar uma justa interpretação dessa carta. E ele disse: nós não entramos em mérito à questão política, à questão de outros aspectos, que são críticos na vida do pe. Cícero. Nós não vamos entrar em mérito nisso. E por isso, não podemos falar, por enquanto de processo de canonização.

Assim fala o papa com muita sabedoria. Isso poderá acontecer, mas não é já já não. É um processo. De modo que eu brinco e falo sério, para mim e para os outros nossos irmãos aqui da diocese, dizendo que certamente não serei eu que vai introduzir o processo de beatificação do pe. Cícero.

O Pe. Cícero saiu do escuro da história. O Romeiro vem ao encontro de Jesus Cristo.

Dêmo-nos por satisfeitos e agraciados pela misericórdia de Deus porque tiramos o pe. Cícero do escuro da história e colocamos ele diante da sua verdade que é reconhecida pelo sucessor de Pedro para que todo o Brasil e sobretudo os milhões de romeiros que todos os anos vêm aqui à Juazeiro atraídos pela memória dele saibam encontrar, não tanto o pe. Cícero, mas Jesus Cristo, porque o pe. Cícero não chamava o povo para visitar ele, mas para se encontrar com a eucaristia, com a confissão, com o sacramento da misericórdia, com Nossa Senhora das Dores, com o coração de Jesus. E o papa Francisco, nessa carta que ele escreveu, diz que é Jesus a origem, o centro e o fim das peregrinações que acontecem por causa do pe. Cícero.

Então, atribuímos a Jesus este movimento de Graça, que é a romaria, e o pe. Cícero naturalmente foi o canal e o instrumento, mas nós amamos o pe. Cícero porque ele nos ajuda a compreender melhor a ser discípulos missionários de Jesus, devotos de Nossa Senhora e fieis à Igreja católica.

ZENIT: E é isso que realmente se vê nos romeiros? Quer dizer, então, que os romeiros que vêm à Juazeiro frequentam os sacramentos, são acolhidos pelos sacerdotes da região, têm todo o apoio pastoral que necessitam?

Dom Fernando: Acontece que nas paróquias de origens, nos municípios e dioceses de origens desses romeiros tem também, além do povo que é devoto do pe. Cícero, tem também padres e bispos que a seu tempo, antes de serem padres e bispos, foram romeiros, então nunca perderam a sensibilidade e a espiritualidade romeira.

Mas, respondendo a sua pergunta: eu não posso afirmar categoricamente que os romeiros, hoje, vêm aqui à Juazeiro mais por causa do pe. Cícero do que por Jesus. Isso foge às minhas apreciações.

Mas, eu faria a mesma pergunta a outro santuário: quem vai venerar em São Giovanni Rotondo São pe. Pio, vai por causa do pe. Pio ou por Jesus? Creio que vão por Jesus por causa do Pe. Pio, mas vão visitar o pe. Pio para que o pe. Pio os ajude a se encontrar com Jesus. A mesma coisa diria com o pe. Cícero e Jesus.

ZENIT: Falando no pe. Pio, lembramos que ele também morreu com cinco processos nas costas…

Dom Fernando: É por isso que existe uma certa afinidade, né? Porém, analógica.

O Pe. Pio também sofreu e sofreu muito. E o grande mérito que a providência de Deus possibilitou-lhe é que o Papa João Paulo II era penitente dele e conhecia muito bem o pe. Pio.

Então, foi o Papa João Paulo II em tão pouco tempo depois que assumiu o pontificado, tirou da gaveta o processo, ou melhor, foi iniciado o processo – não sei bem dizer exatamente – e, em pouco tempo foi beatificado e canonizado; e o pe. Cícero não tem ninguém a favor dele lá na cúria romana. Mas, agora a providência de Deus mandou-nos Francisco que bem compreende a situação e com coragem apostólica, ousadia mesmo, que às vezes incomoda os bem-pensantes – ele toma decisões que são, certamente, expressão de uma luz que o Papa recebe para guiar a Igreja de acordo com o projeto do pai.

ZENIT: Por fim, com relação à notícia da reconciliação da Igreja com o pe. Cícero, ouve-se dizer também que a Igreja está se aproveitando agora da situação, de certa forma instrumentalizando o pe. Cícero, para atrair novamente os católicos para a Ela, por causa da quantidade de fieis que está perdendo para as seitas no Brasil. O que dizer sobre isso?

Dom Fernando: Bom, cada um pensa como quer. Agora, posso garantir, com toda transparência e honestidade de minha parte, que nunca quisemos manipular a memória do pe. Cícero para salvaguardar a perseverança dos romeiros na Igreja católica. Eu diria o contrário. São os próprios romeiros que chegam aqui, em Juazeiro, atribulados pela campanha, pelo proselitismo das seitas que assediam – a palavra é feia mas existe também o assédio religioso – assedia a fé simples dos romeiros para poder agregar os romeiros às seitas.

Foi feito um estudo pela CNBB, anos atrás, um mapa onde estão escritas as migrações religiosas do nosso povo em todo o território nacional. Então, tem regiões aonde é muito clara e evidente a passagem de católicos para os protestantes ou os evangélicos. Mas aqui, dessa nossa região, existem sim alguns “pontos vermelhos”, mas a maioria da região é positiva, ou seja, não têm essa presença.

Eu me pergunto, a que se deve tudo isso? Qual é o porquê dessa situação? E a resposta que me vem de uma maneira talvez ingênua, mas certamente uma resposta que me vem, da contemplação de como Jesus “te louvo, ó Pai, porque essas coisas as escondes aos grandes e as revelastes aos pequenos. Te louvo, ó Pai, porque são os últimos, os humildes, que podem, então, mais te glorificar. Te louvo, ó Pai, porque da boca daqueles que não sabem falar vem para ti o melhor louvor”.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Inédito: Padre Cícero entre pela Porta Santa na Basílica de Nossa Senhora das Dores

Na noite do dia 29 de janeiro de 2016 se deu a abertura da Porta Santa da Misericórdia na Basílica de Nossa Senhora das Dores, a qual foi presidida pelo Bispo Diocesano Dom Fernando Panico que abençoou  e aspergiu água benta  nos fieis. Foi um momento ímpar,  esperado por tanto anos... Como início da Romaria das Candeias, após a abertura, aconteceu  a entrada oficial do Padre Cicero através de um quadro (tela de Assunção Gonçalves) conduzido pela irmã Annete e demais membros da pastoral da romaria. No momento, sob o canto de benditos, toda igreja acolheu com uma calorosa salva de palmas o cortejo inédito na Basílica de Nossa Senhora das Dores. Viam-se faces molhadas de emoção pura na multidão de romeiros e devotos do Padre Cícero e da Mãe das Dores. Em seguida deu-se início à celebração da santa missa concelebrada por vários padres e presidida pelo bispo.
A porta principal de acesso à Basílica, agora como Porta Santa, é um grande portal todo trabalhado com cenas do evangelho. (Texto e fotos de Pautília Ferraz)



Dom Eraldo, da Diocese de Patos – PB, preside Santa Missa no terceiro dia da Romaria das Candeias

Usando um chapéu de palha, símbolo do romeiro, Dom Eraldo Bispo da Silva, Pastor Diocesano da cidade de Patos, Paraíba, presidiu a Santa Missa que marcou o terceiro dia da Romaria das Candeias em Juazeiro do Norte.

A celebração, que teve início às 19h, foi aconteceu no largo da Basílica Santuário de Nossa Senhora das Dores e contou com a participação do Frei Roberto, da cidade de Bom Conselho, e Padre Zito, de Garanhuns, ambas localizadas em Pernambuco.

Durante a homilia, Dom Eraldo falou sobre a alegria de celebrar a eucaristia na primeira romaria desde o anúncio da reconciliação histórica da Igreja com o Padre Cícero. Também arrancou longas risadas dos milhares de romeiros ao proferir sua reflexão de maneira livre e coloquial sobre a necessidade de os fiéis também se reconciliarem uns com os outros nos desafios e dificuldades do dia a dia.

Após a Santa Missa ainda aconteceu o tradicional “show do chapéu” com animação do cantor juazeirense Jota Farias, além de quermesse nas imediações da Basílica.

Para esta segunda-feira, dia primeiro de fevereiro, véspera da grande romaria, estão previstas confissões antes de cada Missa, Ofício de Nossa Senhora, Coroa das Dores, Maria Valei-me e bênção do Santíssimo Sacramento. Os horários da programação podem ser acessados em: http://maedasdoresjuazeiro.com/candeias2016
Fonte:Diocese do Crato

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

As doenças do 'Padim'

As doenças do 'Padim'
Seria ele portador de uma doença reumática? Por meio da bio-história, médico cearense estuda os múltiplos aspectos da saúde do religioso
01.11.2015 por Giovanna Sampaio - Editora do Vida - Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará

A história de vida de Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), sobretudo a relacionada à saúde, suscitou um estudo aprofundado sobre a plausibilidade de essa figura mitológica do sertão nordestino ser portadora de espondilite anquilosante, doença inflamatória crônica que afeta as articulações do esqueleto axial (coluna, quadris, joelhos e ombros).

O achado foi apresentado pelo reumatologista cearense Francisco Airton Castro da Rocha, professor e pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC), durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado em outubro, em Curitiba, com o título "Padre Cícero teria uma doença reumática?"

Questionamentos

O interesse pelo tema, segundo o médico, ocorreu de forma fortuita, após ler a biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" (Companhia das Letras), do escritor cearense Lira Neto. Mais que enxergar a figura do homem religioso por trás do líder popular, o médico se deteve a analisar e questionar a série de doenças e diagnósticos atribuídos ao Padim Cícero, nome pelo qual é reverenciado pelos milhares de romeiros que visitam Juazeiro do Norte.

A curiosidade pelos achados o levou a levou a ler, ao todo, 12 obras sobre a vida do religioso, cujas imagens o retratam sempre com a cabeça inclinada para o lado direito, portando batina, chapéu e seu cajado. Em sua pesquisa, Dr. Airton Rocha também destaca as obras "Milagre de Juazeiro" (Ralph Della Cava), e "Padre Cícero que Conheci" (Amália de Oliveira), essenciais para elucidar a bio-história de seu objeto de estudo.

Para o presidente da Sociedade Cearense de Reumatologia, Dr. José Eyorand Castelo Branco de Andrade, "a entidade vê com bons olhos, pois busca identificar uma doença para a qual não se tinha ainda chamado atenção. São propostas, indícios e tudo leva a crer que o religioso poderia ser portador de espondilite". Destaca que, ainda hoje, muitas pessoas acometidas dessa doença sequer o sabem e, em média, leva-se oito anos para o diagnóstico, após o início dos sintomas.

Histórico dos sintomas

No artigo "Padre Cícero Romão Cícero - Aspectos sobre a saúde do Patriarca de Juazeiro", o reumatologista enumera uma série de indícios, que, aos olhos de um leigo, podem passar despercebidos. A começar pelo fato de, apesar de sua vida longeva, Padre Cícero apresentar o pescoço inclinado, fato particularmente visível quando tinha 44 anos (como mostra uma foto ao lado de sua irmã), e em várias outras posteriores revelando a existência de um desvio cervical lateral.

Outro ponto que chamou atenção foi o histórico de o religioso ter sofrido de dores lombares ao longo da vida, assim como de distúrbios do tubo digestivo (intestinos) e infecções de pele recorrentes (nos últimos anos de vida) e de manter uma posição anteriorizada (para frente) do tronco em relação à região lombar. "Em um vídeo da época, é claro observar que ele tem uma postura rígida e que se desloca em bloco, movendo toda a coluna", diz o reumatologista.

Justificativa do 'achado'

A probabilidade de o quadro indicar que o religioso era portador de espondilite anquilosante, à luz da realidade diagnóstica de hoje, é justificada por Dr. Airton Rocha por uma série de fatores, sendo o genético uma delas.

O componente hereditário - olhos azuis e cabelos louros de Padre Cícero (filho de pai português e mãe índia) - é um elemento a ser considerado, uma vez que a ocorrência de espondilite anquilosante está mais presente em indivíduos brancos caucasóides (do norte europeu).

Em relação às fortes dores na coluna, Dr. Airton Rocha descarta a possibilidade de o padre ter escoliose (como é aventado em suas biografias), uma vez que, ao contrário do imaginário popular, a escoliose não é uma doença que provoca dor e raramente acomete a coluna cervical. Sobre Padre Cícero é relatado que ele sofria dores frequentes, em plena maturidade, que chegaram a prostrá-lo e indicavam não depender da realização de algum tipo de esforço físico. Isso sugere ter sido tratado de dor de caráter inflamatório, como é próprio desse grupo de doenças inflamatórias da coluna (como as espondiloartrites).

Patologia de base

O reumatologista cita outra passagem do histórico de saúde do religioso na qual, aos 60 anos, ele ter sido diagnosticado por seu médico, Dr. Antonio Mariz, como portador de gota. "Possivelmente, seria consequência da doença de base (espondilite), uma vez que Padre Cícero tinha dieta frugal e fazia jejuns prolongados, abstêmio de bebida alcoólica, um perfil muito diferente de quem tem gota (artrite associada à deposição de cristais de ácido úrico). Devido aos problemas intestinais, o religioso, por volta dos 70 anos - teve a dieta líquida restrita a chás e água de coco", relata o pesquisador.

Esse recorte de evidência sugere que problemas digestivos, que estariam relacionados às espondiloartrites, lhe levaram a pensar que a "água-do-Juazeiro", por não estar adequadamente tratada, lhe prejudicasse. Na verdade, poderia se tratar de distúrbios intestinais que acometem pessoas com espondiloartrites, como a espondilite anquilosante. Sugere que o uso do cajado, além de sua função pastoral, tenha sido a forma encontrada pelo religioso para facilitar o apoio e permitir-lhe grandes marchas e trabalho incessante, para compensar a fragilidade de sua postura.

Além de submeter seus achados à crítica de seus pares, junto à Sociedade Brasileira de Reumatologia, Dr. Airton Rocha finaliza artigo que será publicado, em breve, em revista científica da área de reumatologia.

Outro olhar

Para examinar a legitimidade desse achado, o reumatologista José Tupinambá Sousa Vasconcelos realizou análise sob o título "Padre Cícero teria reumatismo". Segundo ele, a pesquisa faz parte do campo da bio-história, que envolve diferentes áreas, desde a médica, passando pela genética, antropologia, química, psicologia e a própria história. "Não é uma questão de diagnóstico".

"É possível admitir a plausibilidade nosológica para a fenotipia de espondiloartrite", afirma o reumatologista, para quem considera muito difícil o fato de o religioso - a quem são atribuídos vários milagres - ter sido acometido de escoliose. Outras possibilidades diagnósticas foram excluídas pelo Dr. Tupinambá, incluindo poliomielite, osteoartrite e osteoporose, além da gota, embora considere "ser razoável admitir que Padre Cícero teria sido portador de uma espondiloartrite".


 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

CADÊ OSSOS DA BEATA? José Pereira Gondim


Padre Cícero e Beata  Maria de Araujo, no museu-Juazeiro
A Beata Maria de Araújo, conforme registro Oficial, foi sepultada num túmulo construído pelo Padre Cícero, no interior da nave e no lado direito da Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Juazeiro do Norte. Mesmo condenada a um ostracismo palpável, seu jazigo não estava situado na sacristia, longe dos olhares de quem adentrava a capela, mas, bem no centro da mesma. Ademais, a Beata fora protagonista central do suposto milagre, que praticamente deu vida ao Juazeiro, bem como foi ela o fator desencadeante das romarias que projetaram a acanhada Vila do Joaseiro tornando-a, uma das cidades mais importantes do Nordeste e reconhecida até no exterior, como um local de trabalho, oração e fé. Maria de Araújo fez tremer um bispado e lançou sombras sobre a Igreja, uma Entidade com dezessete séculos de trajetória. A possibilidade de um cisma no catolicismo nordestino, somente não foi pressentido pelo Padre Cícero, em face de sua bondade e o grande amor por sua Igreja, uma Entidade que o maltratou de forma maiúscula, mas, que anteviu, nessa época nevrálgica, que essa divisão não seria difícil, pois, para onde o Padim se inclinasse, seus romeiros o acompanhariam. Portanto, a Beata Maria de Araújo, mesmo morta e aparentemente esquecida poderia ter seu culto despertado a qualquer momento, principalmente por seu túmulo está colocado numa posição estratégica, bem visível e diariamente lembrado pelos romeiros que visitavam a capela. Quem sabe, um belo dia, aquela primeira romaria de 07 de Julho de 1889, muito bem poderia ser reeditada, e, a partir daí transformar-se em devoção? Destarte, Maria de Araújo, mesmo morta
continuava sendo um estorvo no caminho da Igreja, mormente por seu túmulo está colocado numa situação de realce, e, com muito mais projeção do que o próprio altar de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A capela fora concluída em 1908, todavia, em função das perseguições ao Padre Cícero, ainda não recebera a devida bênção religiosa, episcopal, e, agora, com a presença dos restos mortais da Beata Maria de Araújo, no seu interior, essa bendição devia está totalmente fora dos planos da Igreja. Abençoar a capela com ela lá dentro, impossível (?) Pois foi justamente por isso, que no dia 22 de Outubro de 1930, seus restos mortais foram exumados de forma criminosa, clandestina, e seu túmulo foi destruído sob alegativas tolas de rebaixamento de piso, enquanto seus ossos (os 206 ossos que compõem o esqueleto humano) foram irresponsavelmente e truculentamente jogados numa vala qualquer, ou incinerados, assim como o foram os"paninhos" do pretenso milagre. Nessas alturas dos fatos soa até ridículo, para esse Autor procurar-se em nível de bispado, da diocese do Crato, quem ordenou esse crime de vilipêndio, a premeditada ocultação dos ossos da infortunada Beata Maria de Araújo. Obviamente houve um responsável por esse ato de tamanha intolerância e indisfarçável arrogância, no entanto, o vigário do Juazeiro do Norte, monsenhor José Alves de Lima foi apenas um cumpridor de ordens, ou como se diz no vulgo, o "testa de ferro" de alguém, ou algo mais poderoso. É notório, que a Beata Maria de Araújo, apesar de mergulhada no ostracismo era alguém conhecida no Vaticano. Ela foi a mulher que abalou essa Entidade poderosíssima e seu nome foi citado em expedientes e decretos da Instituição, como foi o caso do fatídico documento assinado pelo cardeal Mônaco, em 04 de Abril de 1894. No que tange ao bispado do Ceará, na época de dom Joaquim, o nome de Maria de Araújo, embora de forma sofrida e ligado a perseguições e punições, sem nenhum exagero foi uma constante. Nesses termos, mandante do crime foi a conveniência, foi a necessidade de se expulsar de dentro da capela os restos mortais de alguém, que apesar do: "viva a Beata Maria de Araújo (viva!); viva o Padre Cícero (viva!)"que lhe são dados hoje, nas procissões e por ocasião das celebrações das missas do dia vinte de cada mês, em lembrança da morte do Padim foi alguém que preocupou, e muito, a Igreja, não só no passado, mas, também agora. É bom deixar claro que o vigário monsenhor Lima cumpriu ordens, enquanto o Vaticano necessitava derriscar a última lembrança da Beata, que continuava bem à vista, e, "seguro morreu de velho". Independente do encontro de algum documento ou alfarrábio puído, que aponte um culpado menor, não se consegue calar-se a interrogação de alguns cidadãos livres, num País laico e democrático:1) Por que a Igreja não lhe devolve os ossos?; 2) Por que ela não pode ter um túmulo, onde os parentes, amigos e admiradores possam reverenciá-la?; 3) Se a Igreja prega amor e perdão, por que isso não reverbera nos castigos impostos a Beata, ao Padim, ou esse amor e perdão são vivenciados na casa e na vida dos outros? Segundo o velho professor de latim desse Autor evocando o filósofo romano Sêneca: "é torpe dizer-se uma coisa e fazer-se outra"! Atualmente, Maria de Araújo recebe vivas efusivos e a sua caridade e pureza são reconhecidos dentro e fora da Igreja. Já é tempo de devolver-lhe os ossos, a fim de que eles descansem em local público e conhecido. Basta de tanto sofrimento! 
Nota: Esse texto faz parte de um livro deste Autor, em acabamento - Padre Cícero: Quando a Igreja vai lhe pedir perdão? 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Afinal, Padre Cícero foi ou não foi excomungado? Daniel Walker

Padre Cícero
Existe uma polêmica muito grande quanto a saber se Padre Cícero foi ou não foi excomungado pela Igreja Católica como decorrência das investigações dos chamados Milagres da Hóstia, ocorridos no povoado de Juazeiro a partir de 1º de março de 1889. Muitos escritores chegaram a dizer em seus livros publicados que ele morreu excomungado; outros disseram que ele não foi e outros que ele foi, mas a pena foi revogada antes de ele morrer. Quem está com a razão? Este texto foi escrito no intuito de tentar dirimir as dúvidas e elucidar a verdade, tendo como base documentos oficiais emitidos pelo Santo Ofício (hoje denominado de Congregação para Doutrina da Fé) e informações de fontes insuspeitas. Para melhor compreensão vamos detalhar os fatos seguindo uma ordem cronológica e sempre que possível será feito um pequeno comentário para maior clareza da informação. Antes de falarmos sobre a excomunhão propriamente dita fazemos uma retrospectiva da evolução das penas aplicadas ao Padre Cícero, as quais tiveram início  com uma repreensão por escrito feita pelo bispo Dom Joaquim. 

- 4 de novembro de 1889. Inconformado com as notícias veiculadas na imprensa sobre os milagres  o Bispo Dom Joaquim envia carta a Padre Cícero na qual o proíbe expressamente de fazer qualquer manifestação pública sobre o assunto.
Comentário: depois dessa carta o bispo mandou outra e como não ficou satisfeito com o comportamento do Padre Cícero no atendimento as suas determinações resolveu ser mais duro, aplicando penas mais severas. 

- 6 de agosto de 1892. Através de Portaria o bispo D. Joaquim suspende o Padre Cícero das faculdades de confessar, pregar e administrar sacramentos. 
Comentário: Esta foi a primeira pena grave imposta oficialmente a ele como desdobramento das investigações dos fenômenos ocorridos no povoado de Juazeiro a partir de 1º de março 1889, denominados popularmente de Milagres da Hóstia.

- 13 de abril de 1896. O bispo dom Joaquim aumenta a punição ao Padre Cícero e o proíbe de celebrar Missa. 
Papa Leão XIII
Comentário: Em 26 de junho do mesmo ano Padre Cícero envia sua apelação ao Papa Leão XIII e pede que seja enviada uma comissão a Juazeiro para averiguar os fatos relativos ao Milagre da Hóstia. Tudo em vão, o Santo Ofício não mandou a Comissão e a proibição de celebrar Missa permanece. 

- 10 de fevereiro de 1897. O Santo Ofício  emite um novo Decreto, agora proibindo a permanência de Padre Cícero em Juazeiro, sob pena de excomunhão. 
Comentário: as proibições aumentam tendo em vista as péssimas informações chegadas a Roma sobre o Padre Cícero. O bispo Dom Joaquim estava tão indignado com o comportamento do Padre Cícero que nem sequer sabia mais distinguir entre verdade e boatos e colocava no papel e enviava a Roma qualquer informação recebida dos padres a seu serviço (principalmente Padre Alexandrino de Alencar) que espionavam a vida do Padre
Pe.Alexandrino
Cícero. Temeroso de incorrer na pena de excomunhão,  Padre Cícero resolve sair de Juazeiro e vai para Salgueiro. Isto foi em 29 de junho de 1897. Em  25 de fevereiro de 1898 Padre Cícero chega a Roma para se entender com as autoridades religiosas na esperança de elucidar tudo sobre a Questão Religiosa em que se  envolveu e, principalmente, ser reabilitado.

- 22 de junho de 1898. Após cinco interrogatórios os cardeais do Santo Ofício decidem absolver o Padre Cícero das censuras até então impostas, mas ele permanece com a proibição de pregar, confessar e dirigir as almas e é aconselhando a procurar outra diocese. 
Albergue da Igreja de São Carlos 
Comentário: Um fato interessante aconteceu nesse momento. Como o Padre Cícero não foi encontrado no endereço em que estava hospedado, os cardeais  determinaram que ele deveria permanecer suspenso a divinis até se apresentar, de novo, ao Santo Ofício. A expressão latina suspensão a divinis se refere à suspensão de um eclesiástico de suas atividades ou ofícios religiosos. Sobre o suposto desaparecimento do Padre Cícero uma explicação plausível é dada por Padre Antenor Andrade no seu livro  Padre Cícero: o calvário de um profeta dos sertões, publicado recentemente. Ocorreu o seguinte: ao chegar a Roma Padre Cícero ficou provisoriamente hospedado num hotel. Mas como suas finanças estavam se esgotando ele pediu às autoridades eclesiásticas que lhe arranjassem outro local, de preferência pertencente à Igreja, onde ficaria isento de despesa, e a assim foi atendido. Passou a residir no Colégio São Carlos, ao lado da imponente Igreja de São Carlos na Vila Del Corso, bem no Centro de Roma. Acontece que Padre Machado, encarregado de notificar ao Padre Cícero sobre a decisão do Santo Ofício não foi informado que ele havia mudado de endereço e não o encontrando no endereço anterior, informou às autoridades que não encontrara o destinatário. Daí a  confusão gerada. Mas depois ficou tudo esclarecido e Padre Cícero foi finalmente notificado da sua absolvição, quando compareceu ao Santo Ofício em 1º de setembro de 1898.  

- 5 de setembro de 1898. Após vários requerimentos enviados ao Santo Ofício para regularizar sua situação ele consegue autorização e com muita alegria celebra Missa na Capela de São Carlos. E os cardeais foram mais benevolentes ainda, pois lhe concederam também permissão para celebrar durante a viagem de volta ao Brasil.

- 15 de novembro de 1898. Padre Cícero se apresenta a Dom Joaquim em Fortaleza e lhe informa que fora absolvido em Roma. Mas o bispo, certamente insatisfeito com a decisão do Santo Ofício, foi implicante mais uma vez e não permite que ele celebre em Juazeiro. 
Comentário: diante dessa atitude do bispo fica claro que ele não estava nada satisfeito com o desdobramento favorável da viagem do Padre Cícero a Roma. E como Padre Cícero continuou residindo em Juazeiro, as proibições permaneceram. 

- 12 de julho de 1916. O Santo Ofício declara o Padre Cícero incurso na excomunhão latae sententiate. 
D. José Anversa
Comentário: Este é um dos vários tipos de excomunhão adotados pela Igreja Católica e é aplicado quando o fiel incorre no momento que comete a falta previamente condenada pela religião. 
Assim, está bastante claro: de fato, foi lavrado um documento de excomunhão do Padre Cícero pelo Santo Ofício. Em 27 de julho de 1916 o cardeal Merry Del Val comunica o fato oficialmente ao Núncio Apostólico, Dom José Anversa. Eis o decreto na íntegra:
“Ilmo. e Rmo. Senhor,
Por informações desta Nunciatura Apostólica às Sagradas Congregações Consistorial e dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários resulta evidente que o famigerado Sacerdote Cícero Romão Baptista de Joaseiro no Estado do Ceará, diocese de Fortaleza, nunca obedeceu, como devia aos repetidos Decretos do S. Ofício a seu respeito; que a sua obstinada permanência em Joaseiro é de gravíssimo dano para as almas; e que gravíssimas consequências se havia de deplorar se o mesmo, que já é bastante avançado nos anos, viesse a morrer naquele lugar.
Cadeal Merry
Tendo sido tudo isto referido na Congregação Feria IV, 21 de junho pp., os Emos. Senhores Cardeais, Inquisidores Gerais, meus Colegas, ordenaram que os lugares da mencionada Diocese nos quais forem necessários e no modo que V.S. julgar mais oportuno seja emanada uma pública declaração com a qual resumidos os Decretos de 4 de abril de 1894, com os quais se declaravam falsos os pretensos milagres de Joaseiro e se condenava a protagonista da indigna comédia e os seus fautores, entre os quais especialmente o Cícero; o outro dia 10 de fevereiro de 1897, com o qual se impunha ao Cícero afastar-se de Joaseiro sub pena excomunicationis latae sententiae Romano Pontifici reservatae; e finalmente o de 17 de agosto de 1898, com o qual se confirmaram as precedentes disposições e se acrescentaram outras; faça-se claramente entender aos fieis que a S. Sé e confirmando tudo que foi ate agora estabelecido reprova decididamente e condena a conduta do Cícero, declara-o incorrido na excomunhão reservada ao Sumo Pontífice, e exorta calorosamente todos os fieis a não se deixar enganar pelas suas falácias e tergiversações.
Neste interim, tenho o cuidado e participar-lhe que queira providenciar a sua plena e pronta execução e lhe desejo todo o bem de Deus. De V. S.Ilma. e Rma. Devmo. Servidor verdadeiro R. Card. Merry Del Val”.

Dom Quintino
D. Quintino, bispo do Crato, só tomou conhecimento desse documento no dia 14 de abril de 1917, portanto nove meses depois da sua publicação. E só resolveu comunicar por carta ao Padre Cícero no dia 29 de abril de 1920, portanto três anos depois. E aconteceu um fato curioso: a carta foi escrita e enviada, mas Padre Cícero não a recebeu por decisão de Dr. Floro Bartholomeu da Costa, cujo motivo depois explicaremos. Antes vamos mostrar o conteúdo da carta de Dom Quintino:
“Crato 29 de abril de 1920
Revmo. Sr. Pe. Cícero Romão Baptista
Não tendo a Suprema Congregação do Santo Oficio, até hoje reformado a sua venerada decisão de 21 de junho de 1916, na qual, considerando que o sacerdote Cicero Romão Baptista desta diocese nunca obedeceu, como devia, aos repetidos Decretos do Santo Ofício a seu respeito; que a sua obstinada permanência em Joazeiro e de grandíssimo dano as almas e que gravíssimas consequências se haveriam de deplorar se o mesmo viesse a morrer naquele lugar... ordenou que nos lugares da mencionada Diocese, nos quais se julgar necessário e no modo o mais eficaz, seja emanada uma pública declaração, com a qual, retomados os Decretos de 4 de abril de 1894, com o qual se declaravam falsos os pretensos milagres de Joazeiro e se condenava a protagonista da indigna comédia e os seus fautores, entre os quais especialmente o Cícero; o outro de 19 de fevereiro de 1897, com o qual se impunha ao Cícero afastar-se de Joazeiro, sub pena excomunicationis latae sententiae Romano Pontificireserva qual se confirmaram as precedentes disposições e se acrescentar outras; se faça claramente entender aos fieis que a S. Sé mantém firme tudo o que foi até agora estabelecido, decididamente reprova e condena a conduta do Cícero, declara-o incurso na excomunli reservada ao Sumo Pontifice, e exorta calorosamente todos os fieis a não deixar-se levar em engano pelas suas falácias e tergiversações (Carta do Núncio Ap., de 14 de abril de 1917); não sem pesar no antes de tudo, fazemos sentir a V. Revma. que a provisão que lhe concedemos para celebrar nesta Diocese, já por se ter esgotado seu prazo, desde 31 de dezembro de 1917, já sobretudo pelo fato da supracitada decisão, que agora lhe intimamos, por escrito, está sem nenhum vigor e não poderá ser renovada enquanto não for para isto autorizado por aquele Sagrado Tribunal.
Deus guarde e ilumine V. Revma.
Ass. + Quintino, Bispo Diocesano”. 

Dr. Floro
Padre Cícero não chegou a receber essa carta porque Dr. Floro foi quem a viu primeiro e diante do conteúdo exposto achou por bem não lhe entregar, pois achava que em face da avançada idade Padre Cícero não estava em condições de saúde e psicológicas para suportar tamanho baque. E foi isso mesmo que Dr. Floro informou ao bispo, conseguindo convencê-lo a não dar conhecimento da gravíssima pena de excomunhão a que padre Cícero incorreu. 
Dom Quintino tinha, então, um documento provando que Padre Cícero estava excomungado, mas mesmo assim deixou que ele continuasse celebrando missa fora de Juazeiro. Ele celebrava no sítio Saquinho, município do Crato. 

No dia 1º de janeiro de 1917, estando excomungado, mas sem saber, Padre Cícero recebe autorização do bispo para celebrar Missa na capela de Nossa Senhora das Dores, onde deixara de celebrar desde o dia 6 de agosto de 1892. 

Tudo corria mais ou menos normal entre Padre Cícero e o bispo Dom Quintino. Mas no dia 2 de junho de 1921 Padre Cícero lhe escreve uma carta pedindo autorização para ser padrinho de batismo de uma criança, filha legítima do Sr. Antônio Luiz de Assis Chitafina e Lucila Tenório de Assis, residentes em Juazeiro. Para sua surpresa, Padre Cícero recebeu a seguinte resposta:

“Visto como o Revdmo. suplicante não está cumprindo exatamente todas as cláusulas das declarações que em Dezembro de 1917 depositou em nossas mãos, depois de serem lidas em público; e não só está fomentando a venda e divulgação das medalhas proibidas (quais são as que têm a sua efigie), mas frequentando o estabelecimento do vendedor e benzendo-as, como ainda a certa mulher que deixou de confessar-se para casar por ter declarado que acreditava "Nos milagres do sangue precioso do Juazeiro" aconselhou-lhe que fosse para Cajazeiras, da Paraíba, onde há trabalhos públicos, e depois de algum tempo de estadia ali, efetuasse, lá mesmo, seu casamento; não podemos dar licença ao mesmo suplicante para apadrinhar crianças e nem lhe conceder uso de ordens nesta diocese.
Crato, 3 de junho de 1921
Ass. Quintino, bispo diocesano”.
Comentário: Segundo escreveu Amália Xavier de Oliveira em seu livro O Padre Cícero que eu conheci, “este despacho só chegou ao conhecimento do Padre Cícero no dia 4 de junho, quando ele já havia celebrado, sem o saber, sua última Missa”. 

Papa Bento XV
Apesar de muita gente ter o bispo dom Quintino como algoz e inimigo do Padre Cícero, ele, na verdade foi muito benevolente para com o Padre Cícero. Chegou a pedir a reabilitação do padre, conforme esclarece a carta transcrita a baixo que ele enviou (quando estava no Rio de Janeiro) ao Papa Bento XV
“Beatíssimo Padre,
O Bispo do Crato, tendo recebido pelo Núncio Apostólico, em maio de 1917, o mandado de tornar pública em sua Diocese a sentença pela qual a Sé Apostólica declara que o sacerdote Cícero Romão Baptista, na mesma Diocese bem conhecido, incorreu na pena que lhe foi cominada de excomunhão latae sententiae, reservada ao Romano Pontifice, em virtude de ter negligenciado as determinações a ele impostas pela Sagrada Congregação do Santo Ofício nos três Decretos dos dias 4 de abril de 1894, 10 de fevereiro de 1897 e 17 de agosto de 1899, e por ter obstinadamente permanecido na cidade de Joazeiro, que pelo Decreto de 10 de fevereiro de 1897 deveria deixar, vem, prostrado aos pés de Vossa Santidade, humildemente implorar que lhe seja permitido expor o seguinte: O mencionado sacerdote Cícero Romão Baptista sofre há tempo de lesão cardíaca, de acordo com os atestados médicos, confirmados pelos sintomas que nele se manifestam; donde surge o grande perigo de que ele tenha um desenlace fatal, com a publicação da referida sentença. Em tais circunstâncias, o suplicante decidiu submeter ao sapientíssimo juízo da Sagrada Congregação do Santo Ofício, em cópia autentica, as declarações claras e categóricas que o mesmo Pe. Cicero escreveu, de livre e espontânea vontade, no mês de dezembro de 1917, e que foram lidas em sua presença a numerosa multidão de fieis, por ocasião de uma santa missão que, então, se realizava com grande fruto na referida cidade de Joazeiro. A partir disto, considerando,
1°) Que as condições religiosas da recente paroquia, depois  da santa missão, ter melhorado sensivelmente, contando mais de mil comunhões mensalmente;
2°) Que a permanência do Pe. Cícero nessa cidade, com a faculdade de  celebrar em qualquer outro lugar da Diocese, e bem assim o fato de ele ter se confessado sempre, e até feito duas vezes os exercícios espirituais do Clero, indicam que a autoridade diocesana tenha admitido a legitimidade dos motivos dessa permanência e tenha tolerado; 
3°) Que o perigo de gravíssimas e deploráveis consequências, que se temia pela sua morte naquele lugar, vem sendo pouco a pouco, removido pela  sensível diminuição de seu prestigio nos assuntos religiosos; e mesmo se assim não fosse, não haveria de se esperar o desejado efeito, nem pela sua ida para outro lugar nem pela declaração de sua excomunhão; 
4a) Que, enfim, já alcançou a avançada idade de setenta e cinco anos e tem  precário estado de saúde.
O mesmo suplicante pede permissão para manifestar o seu parecer de que não seja executada a publicação do mandado, e exprime seus desejos de que, pelo bem da paz, seja o Pe. Cicero Romão Baptista absolvido das censuras em que incorreu e lhe seja concedida a faculdade de celebrar a Santa Missa também em Juazeiro, suposta a cláusula especial de observar fielmente as declarações por ele emitidas.
Rio de Janeiro, 9 de novembro do ano do Senhor 1920 +Quintino, Bispo Diocesano do Crato.”

No dia 23 de fevereiro de 1921, o Santo Ofício analisou a solicitação de Dom Quintino ao Papa, que pede a absolvição das censuras e a permissão de celebrar, e resolveu atender apenas à primeira parte (absolvição das censuras, aí incluindo a excomunhão), mas não concedeu o direito de celebrar, podendo o Padre Cícero receber os sacramentos como simples leigo. Também é feita mais uma vez a recomendação de ele deixar Juazeiro. 

- 3 de junho de 1926. Como Padre Cícero adotou a opção de permanecer em Juazeiro Dom Quintino acatando determinação do Santo Ofício o suspende novamente, retirando-lhe  o uso de ordens. Foi esta a última e definitiva punição.
Comentário: foi nessa situação – suspenso de ordens e não excomungado -  que Padre Cícero encerrou seus últimos dias de vida, em 20 de julho de 1934.  

Bento XVI
CONCLUSÃO: Pela explanação exposta neste trabalho fica evidente que Padre Cícero foi realmente excomungado, mas não morreu excomungado, pois a pena  foi revogada pelo Papa Bento XV, permanecendo as outras censuras especialmente  a proibição de celebrar. Muitos pedidos implorando a sua reabilitação foram enviados a Roma, todos em vão.  O último, protocolado oficialmente e pessoalmente pelo atual bispo da Diocese do Crato, Dom Fernando Panico, na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, ocorreu no dia  31 de maio de 2006, mas até agora está sem resposta. A petição acompanhada de relatório e farta documentação, inclusive abaixo-assinado com mais de cem mil assinaturas de devotos do Padre Cícero e 254 de bispos do Brasil, com aval da CNBB,  foi entregue  ao Cardeal  Josef William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O Bispo acompanhado de alguns membros da
Cardeal Josef Levada
Comitiva ainda conseguiu falar com o Papa Bento XVI numa deferência toda especial de Sua Santidade. Naquele momento histórico chamou a atenção dos membros o olhar de Sua Santidade à foto do Padre Cícero estampada nas camisas vestidas por vários membros da Comissão que foi a Roma. Irmã Annnette Dumoulin, uma das presentes, contou o seguinte: “Ana Teresa e eu, estávamos de cadeira de roda. O Papa cumprimentou todos os cadeirantes. E quando chegou para mim, falei em francês, mostrando a foto do Padre Cicero na minha camisa: "Santo Padre, em nome de milhões de Brasileiros, especialmente nordestinos, estamos aqui pedindo a reabilitação do Padre Cícero." E o Papa me respondeu em francês, olhando o Padre Cícero na minha camisa: "Sim, o Bispo acabou de me falar sobre ele." Então o papa viu Padre Cicero três vezes! Nas camisas de Ana Teresa, de Maria do Carmo e da minha.”
Pelo exposto fica também evidente que se Padre Cícero saísse de Juazeiro e nunca mais falasse nos Milagres da Hóstia ele continuaria como padre católico. Aí é o caso de perguntar: se ele realmente saísse de Juazeiro e nunca mais falasse nos Milagres ele seria o mesmo Padre Cícero? E sua criação – Juazeiro - o que seria? Teria crescido ou ficaria para sempre como um simples povoado dependente do Crato? Impossível imaginar. Mas, raciocinando dentro do que realmente ocorreu, ousamos afirmar: pagando o alto preço de ter suas ordens suspensas porque preferiu permanecer em Juazeiro, o Padre Cícero certamente morreu consciente de ter feito a coisa certa e, com isso, seu filho - o Juazeiro - só teve a lucrar, pois só chegou aonde chegou (ser uma grande cidade e centro de romaria) por causa dele. E mais, não resta dúvida, a decisão de ficar em Juazeiro, mesmo sacrificando sua carreira eclesiástica, provocou o surgimento de um santo popular e a fundação de uma Nação Romeira. São dois fenômenos que a Igreja jamais destruirá porque  ambos foram resultados de ação popular. 
Irmãs Annette e Ana Tereza e Maria do Carmo Pagan Forti quando eram cumprimentadas pelo Papa Bento XVI

FONTES
Della Cava, Ralph. Milagre em Joaseiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Maia, Helvídio Martins. Pretensos milagres em Juazeiro. Petrópolis, 1974
Neri, Feitosa (Pe). Padre Cícero e Juazeiro. Textos reunidos. Fortaleza, Imeph, 2011
Neto, Lira.  Padre Cícero, poder, fé e guerra no sertão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Oliveira, Amália Xavier de. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro, 1966.
Silva, Antenor de Andrade Silva. Padre Cícero: o calvário de um profeta dos sertões. Recife, 2015. 
_____. Cartas do Padre Cícero. Salvador: Escolas Profissionais Salesianas, 1982.
_____. Padre Cícero mais documentos para sua história. Salvador: Escolas Profissionais Salesianas, 1989.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O MILAGRE DE JUAZEIRO (Fernando Maia da Nóbrega)

           
No ano do centenário de morte da Beata Maria de Araújo, bem como, decorridos oitenta anos do falecimento do Padre Cícero Romão Batista, é oportuno se debruçar sobre os pretensos milagres ocorridos em Juazeiro do Norte, a partir de 1889, envolvendo os dois protagonistas desses fatos.
       Muito embora haja farta literatura abrangendo o assunto, a história real, verdadeira, ainda é bastante distorcida pelo público, gerando falsas interpretações e julgamentos tendenciosos, mormente por pessoas não especializadas na matéria, justificando, destarte, mais uma abordagem.
      Tudo teve início em 1º de março de 1889. Após exaustivo dia de confissões e comunhões, Padre Cícero ao ministrar a eucaristia à beata Maria Magdalena do Espírito Santo Araújo, constatou estupefato que a hóstia consagrada havia se transformado em sangue! Diante da gravidade do assunto o reverendo achou por bem silenciar. Entretanto, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, contrariando os desejos do Padre Cícero, divulgou oficialmente perante mais de três mil pessoas assistentes de uma missa, na Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, os acontecimentos extraordinários ocorridos anteriormente. Durante o ato litúrgico o reverendo exibiu aos atônitos fiéis as toalhas tintas de sangue!
            A notícia se espalhou rapidamente por todo o nordeste brasileiro atraindo milhares de romeiros a Juazeiro. Em Iº de maio de 1891, 20 mil pessoas presentes à missa realizada na matriz de Juazeiro assistiram ao momento em que a hóstia, novamente em contato com a boca da Beata, se transformou em sangue! Entre todos se destacava um médico do Rio de janeiro, Dr. Marcos Madeira, que clinicou imediatamente Maria de Araújo, a qual  apresentava um estado de êxtase, total arrebatamento espiritual, e de sua boca entreaberta, foi retirada a partícula de massa, ministrada na eucaristia, com marcas de sangue. Verificou também o médico que no corpo da Beata havia feridas sanguíneas nos pés, mãos, nas vértebras dorsais e  testa. Para espanto de todos, do corpo de Maria de Araújo brotava sangue nos mesmos lugares do Cristo crucificado!  Um milagre divino em pleno sertão nordestino!
            Contrariando a expectativa geral, em 18 de novembro de 1891, a Igreja Católica se pronunciava sobre os fenômenos ocorridos em Juazeiro, taxando-os de enganosos e falsos e não aceitando como científico o laudo emitido pelo Dr. Marcos Madeira  afirmando que Beata não estava doente e garantia que a aparição da hóstia era “(...) um fato sobrenatural para o qual não me foi possível encontrar explicação científica (...)”.
            Vale ressaltar que Dom Joaquim, Bispo da Diocese do Ceará, enviou para Juazeiro uma Comissão de Inquérito com o intuito de apurar os fatos ocorridos e foi constatada pelos integrantes a veracidade absoluta dos fenômenos sucedidos. Inconformado, Dom Joaquim mandou uma segunda inquisitiva que chegou ao resultado aspirado pelo Reverendo negando, desta forma, a possibilidade de manifestação milagrosa.
            Daí em diante a repressão eclesiástica se fez presente. No dia 10 de novembro de 1891, uma portaria de Dom Joaquim proibia a todos os sacerdotes de sua jurisdição de confessar, pregar e celebrar qualquer festa religiosa na cidade de Juazeiro.
            Já em 1897, a Igreja católica ameaçava o Padre Cícero de excomunhão caso não se retirasse do povoado no prazo de 10(dez) dias.
            Por fim, veio a palavra final da Igreja através da Suprema Congregação da Santa inquisição Romana Universal condenando definitivamente os milagres em Juazeiro.
            Hoje, cento e vinte anos após a ocorrência dos pretensos milagres, cem anos depois o falecimento da Beata, a Igreja ainda reluta em aceitar a transformação da hóstia em sangue e os estigmas de Maria de Araújo como milagre. Ainda é difícil a Igreja concordar que Deus possa ter se manifestado a um povo subdesenvolvido... Ela aceita como milagroso qualquer fato inexplicável e provado... se ocorrido na Europa.
             O povo, porém, teve a coragem de santificar um homem, o Padre Cícero, que um século antes da própria Igreja fez a opção pelos pobres. O povo teve a ousadia de cultuar uma mulher analfabeta, negra, no caso, Maria de Araújo.  Quem pode duvidar? Afinal como disse o Profeta Isaías 43;13 “Agindo Deus quem impedirá?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por que o Padre Cícero foi excomungado?

José Pereira Gondim

Há mais de cem anos a Igreja Católica Apostólica Romana excomungou o Padre Cícero Romão Batista, todavia, ultimamente já chega a celebrar missas em honra de sua memória, nas quais lhe dá "vivas" em abundância, muito embora nunca tenha sinalizado com uma data certa, onde um perdão oficial por parte dessa Entidade seria adicionado a sua trajetória de bom cristão. Durante longo período, no Brasil e por todo mundo católico, beatos e santos foram surgindo, no entanto, um ato de amor e perdão por parte da Igreja, e no tocante ao Padre Cícero, jamais foi cogitado, o que suscita as indagações: Onde andará esse amor pregado pela Igreja? E o apregoado perdão, onde reside? O Imperador Romano Flávio Valério Constantino (São Constantino) foi "guindado" a santo pela Igreja, apesar de ter mandado matar um filho, a esposa, dois meios irmãos, três sobrinhos e o sogro, enquanto o Padre Cícero não se enquadra em nenhum ato de violência. Muito pelo contrário foi conselheiro da massa, dos miseráveis, Prefeito, Deputado Federal e Vice-governador do Estado do Ceará. Foi também eleito o cearense do século, homenageado com a terceira maior estátua de concreto do mundo, e, além do filho mais ilustre de Juazeiro do Norte, a segunda maior cidade do Ceará, seu nome, literalmente é responsável por uma das maiores romarias do Brasil, ou a visita, exclusivamente a seu túmulo, anualmente, por 2,5 milhões de romeiros, ou pessoas de todos os extratos sociais do Nordeste, do País.

Quando a Igreja vai devolver as ordens sacerdotais do filho mais ilustre do Juazeiro, Padre Cícero Romão Batista excomungado há mais de um século?

Quando também devolverá os restos mortais da beata Maria de Araújo exumados clandestinamente por monsenhor José Alves de Lima visando o seu "descanso" em local conhecido e de acordo com a tradição cristã?

O entendimento do pretenso milagre do Juazeiro é uma questão meramente de fé (assim como falou Pio XII sobre a existência de Jesus, num Congresso sobre História, em 1955), pois os fatos "miraculosos" envolvendo sangue, como San Genaro, em Nápoles, e outros mais na Europa, além de polêmicos não são unanimidade quanto à procedência sobrenatural. Se você é juazeirense, nordestino, simpatizante da causa da reabilitação do sacerdote, romeiro residente ou não na Cidade, admirador ou não do Padre Cícero, mas, uma pessoa inimiga de injustiças tem plena condição de atuar na reversão do quadro (devolução in memoriam das ordens sacerdotais) mostrando a Igreja que faz parte daqueles que não veem com bons olhos esse comportamento cínico (celebra missas, e dá "vivas" ao Padre Cícero, no entanto, se nega a dar-lhe o perdão) e oportunista da Entidade. Junte-se a mim nessa "cruzada" e quando formos milhares, milhões a gente marca a data desses eventos, pois nada nesse mundo pode ir contra a vontade do povo unido e ciente do que quer, e nem mesmo a Igreja. O Vaticano sabe disso pode crer!

"Não seria justo e honesto trocar-se tanta missa e "vivas" em homenagem ao Padre Cícero por um pouco de amor e perdão através da Igreja e traduzidos na devolução de suas ordens sacerdotais"? "O "perdão informal" é ganhar tempo, não tem valor"!

"A Igreja pode até não querer, mas, os devotos e admiradores do Padre Cícero exigem dela a devolução de suas ordens sacerdotais, plenamente confiantes de que a 'voz do povo é a voz de deus', ou essa Entidade ignora ou não sabe disso"?

O perdão do Padre Cícero só depende de você! Use uma camisa, porte um cartaz ou uma faixa exigindo esse perdão que a Igreja cede. Faça circular um manifesto igual a este, na próxima semana, no próximo mês que a Igreja muda de atitude!

Durante quase um século, os fiéis, devotos e admiradores do Padre Cícero rezaram benditos, jaculatórias e nada conseguiram. E chegado o momento dos "manifestos, das passeatas", do contrário vamos morrer sem constatar a mínima mudança!

Afinal, que significam amor e perdão para a Igreja? Esperar mais cem anos? Já basta de Comissão de Estudos que a nada leva. Se a Igreja a não muda, mude você!

Assim como eu tome a iniciativa e reproduza esse manifesto, ou crie outro, no entanto, junte-se a mim e quando formos milhões a Igreja acorda, desce do muro!

NOTA: Não vai ser completamente estranho pra esse Autor, se pessoas que se dizem devotos, admiradores do Padre Cícero, mas, que nunca tiveram qualquer tipo de iniciativa para com o problema, ou de se exigir formalmente uma solução da Igreja sobre o assunto entenderem que o mesmo procura se promover. Pensem o que quiserem, mas, seu objetivo está ligado ao combate à injustiça tomando por base uma declaração de Martin Luther King: "Para criar inimigos não é necessário declarar guerra a eles, basta somente que você diga o que pensa". AMÉM!

José Pereira Gondim é um cidadão que abomina oportunismo e injustiças, autor das trilogias (livros): A Forja do Cinismo e Jesus e o Cristianismo, onde esse e outros temas conflitantes são tratados com responsabilidade, mas, sem eufemismos. Como não se trata de denúncia anônima o documento é assinado, pois a Igreja poderá optar em excomungá-lo, processá-lo, ou mesmo torná-lo "persona non grata" por se manifestar diferentemente da maioria.






terça-feira, 24 de junho de 2014

O Padre Cícero é santo - Fernando Azevedo

É Deus o único Santo por Si próprio, assim nos ensina a Tradição Católica. Dizemos muitas vezes na Missa: Só Vós sois o Santo, Só vós o Senhor. Entretanto, graças à Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo, atualizada na Igreja pelo Espírito Santo, todo batizado é portador da santidade, presença viva nele, do próprio Jesus Cristo; cujo Espírito nos santifica, e conduz à santificação completa, "sem a qual ninguém verá o Senhor". Não é a Igreja que santifica, mas Cristo, Vivo e atuante na Igreja, Quem santifica os fiéis pelo Seu Santo Espírito. A Graça, com efeito, não é dada somente para remissão dos pecados, mas também para incremento de vida sobrenatural, sempre frutífera, fecunda em boas obras. Jesus deu a receita para que todos tivéssemos nEle a santidade, que é a vida espiritual da Graça. "Todo ramo que permanece unido a mim, frutifica". O Padre Cicero é santo, porque sua vida, suas boas obras, seu testemunho de fidelidade à Igreja, mesmo em contradições institucionais, são inegáveis. O próprio Jesus nos deu o sinal de verdadeiros profetas: "Pelos seus frutos os conhecereis". O Padre Cícero foi e é até hoje, arauto da unidade na Igreja, símbolo vivo de uma Igreja que é ao mesmo tempo militante, padecente e triunfante. Uma Igreja composta de homens, mas por Graça e Presença Viva do Fundador, SANTA. Todos nós somos chamados a ser santos. "Sede santos como Eu Sou Santo". E para ser santo não precisa, como já foi dito, nem rezar muito, nem sofrer muito...Mas AMAR muito. Cada um de nós pode amar e dar um pouco mais de amor à Igreja, à humanidade, e ao mundo. O Padre Cícero fez isso a vida toda, amando e servindo os irmãos. Não fez dos "milagres" sua bandeira, mas dos pobres, a sua missão, como genuíno seguidor de Cristo pobre. Foi aos pobres que destinou Deus por Jesus, o anúncio do Evangelho. Ele mesmo o afirmou: "para proclamar o Evangelho aos pobres". E o Padre Cícero foi fiel, como santificado pelo Espírito da Vida e da Verdade, a lutar pela vida, e proclamar a Verdade da libertação evangélica aos pobres, dos quais é o Reino dos Céus. À medida que a Igreja se aproxima mais das suas fontes primitivas, reconhecendo seu tesouro verdadeiro, que é como já dizia São Clemente, Papa...OS POBRES...Aqueles testemunhos mais vivos da santidade próxima da santa pobreza, são reconhecidos, são declarados santos e assim canonizados. Temos agora um Papa com nome de FRANCISCO, e é de esperar que em breve tenhamos mais um santo dos pobres, um santo do povo, o Padre Cícero de Juazeiro. Assim Seja. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dom Samuel Dantas de Araújo: três sonetos sobre figuras da história do Ceará

O BISPO DOM JOAQUIM…

Como tantos outros antes de vós
Ao funesto cancro da inveja sucumbistes
Movendo a nosso padim, perseguição sem limites
Injusta, iniqua, criminosa e atroz

Vós, um alto dignitário da santa Igreja
Procedestes como um feroz tirano
Impiedoso, autoritário e desumano
Vítima do monstro chamado inveja

Por vossa causa, um homem justo e santo
No silêncio do seu calvário, padeceu tanto!
Como se da humana justiça fosse um réu…

Vos  comportastes como os vís algozes
De Jesus, que entre sarcasmos e blasfêmias atrozes
Deram-lhe para beber, amaríssimo fel.

A BEATA MARIA DE ARAÚJO

A semelhança do divino e manso cordeiro
Fostes neste mundo duramente perseguida
Passastes todo o curso de vossa sofrida vida
Misticamente cravada em um madeiro

Sem terdes tido jamais um instante de sossego
Trazíeis em vosso peito, de Cristo o amor
No corpo  portáveis  as dores do vosso Senhor
Perseguida por um invejoso néscio e cego

Deus porém, que não deixa sem copiosa recompensa
Quem nesta vida o serve, buscando-lhe a glória
Vos reservou no céu uma alegria imensa!

E já que estais, ó beata, de Deus tão perto
Rogai pelos que defendem na terra vossa memória
Enquanto peregrinam neste árido deserto.

AO PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Fidelíssimo dispenseiro da palavra divina
Digno administrador dos santos sacramentos
Santo entre os santos, bento entre os bentos
Cuja vida, nosso Cariri até hoje ilumina.

Pastor piedoso, que elegestes a dama pobreza
Como a suave companheira de vossa vida
Que fizestes da salvação do próximo, vossa ocupação preferida
E tivestes somente no céu, a única e verdadeira riqueza.

Vós que passastes por este mundo qual uma estrela
Peregrina, por Deus destinada a espargir a divina luz
Nos miseráveis perdidos que não conseguiam vê-la…

Ó santo já canonizado por todo querido nordeste
Na excelsa ventura da pátria eterna e celeste
Rogue por seus devotos ao Senhor Jesus…