terça-feira, 28 de março de 2017

Teólogo Leonardo Boff diz acreditar numa breve beatificação de Padre Cícero

Para o escritor e teólogo Leonardo Boff, após a beatificação de Dom Óscar Romero de San Salvador, ocorrida há 2 anos, vira a do Padre Cícero Romão Batista. Ele foi o último conferencista do V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?" quando terminou aplaudido de pé por uma platéia que lotou o Memorial na tarde desta sexta-feira. Ele pediu viva para o sacerdote e disse que o mesmo será santo da Igreja universal e não apenas do sertão do Ceará. 
       Na sua Conferência sob o tema: "Padre Cícero à luz do Papa Francisco", Boff considerou a reconciliação algo muito forte e que expressa a vontade do Papa salientando que todos podem alimentar a esperança de vê-lo beatificado e canonizado “o que não será novidade para o Padre Cícero que já é santo”. Em sua fala, constitui etapas na vida do sacerdote que passam pelo sonho que teve, a vinda em definitivo para Juazeiro, os conflitos enfrentados com o sangramento da hóstia e o padre político. 
      Ganhando novamente muitos aplausos, o teólogo Leonardo Boff admoestou que “não é apenas canonizar o Padre Cícero, mas fazer justiça às mulheres beatificando e santificando Maria de Araújo que é santa e faz milagres”. Para o conferencista, o Bispo do Ceará dom Joaquim Vieira foi “duro” com Padre Cícero como “duro” foi o julgamento do sacerdote que até chegou a ser excomungado fato jamais publicado. Boff historiou que ele tinha uma convivência direta com o povo, visitando casas e sítios e dando orientações e conselhos. 

      Com o fechamento das portas pela Igreja – acrescentou o conferencista – Padre Cícero trilhou no caminho da política para não perder de vista a sua opção pelos pobres. Nesse contexto, Leonardo Boff argumentou sobre sua atuação em prol do bem comum com foco na educação e geração de emprego e renda. Elogiou ainda a visão ambientalista do sacerdote quando citou os seus preceitos ecológicos. Na sessão de encerramento do simpósio falaram o Secretário de Cultura de Juazeiro, Alemberg Quindins, em nome do prefeito Arnon Bezerra; a presidente da comissão organizadora, Fátima Pinho; e o reitor em exercício da Universidade Regional do Cariri, Francisco do O de Lima Júnior.

Filósofo opina porque o milagre da hóstia em Juazeiro não poderia ser reconhecido
Na última manhã de debates no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", que acontece desde segunda-feira, o filósofo e professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Carlos Alberto Tolovi, disse porque o milagre da hóstia não foi reconhecido. Segundo ele, por estar fora e distante das estruturas de controle hierárquicos, pelo fato de ter surgido junto aos chamados leigos e mais ainda em virtude do corpo do fenômeno não se enquadrar nas feições europeias dos grandes santos. 

Como acrescentou, fugia de todos os limites pré-estabelecidos observando que outros milagres eucarísticos foram reconhecidos pela Igreja e este não. A Mesa Redonda teve como tema: "Padre Cícero e a Política” e reuniu ainda outra professora da Urca e coordenadora do evento, Fátima Pinho, e o professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP), Renato Kirchner. Na opinião de Tolovi, Padre Cícero aceitou o milagre para estar ao lado dos romeiros e fortalecer a religiosidade popular. 

Nesse contexto, observou que os peregrinos já defendiam o sacerdote por entenderem ser a defesa do seu próprio espaço sagrado para onde vinham com bastante sofrimento e, em Juazeiro, encontravam um “Padim” que os acolhiam. De acordo com Tolovi, o Caldeirão do Beato José Lourenço foi destruído e se a história da transformação da hóstia em sangue ficasse apenas em torno da beata Maria de Araújo, o caminho seria o mesmo. Além disso, tentaram destruir o Juazeiro e o padre foi obrigado a assumir posturas. 

No entendimento da professora Fátima Pinho, Padre Cícero foi um mediador de conflitos na própria região e até fora do Cariri. Conforme acrescentou, era uma característica forte quando até foi político e fez política, mas com convicção no que acreditava e achava correto. Pela primeira vez em Juazeiro, o professor paulista Renato Kirchner se apresentou como um homem que peregrinou muito pelo sertão. Tentando contextualizar Juazeiro e o Padre Cícero ele recorreu ao escritor Guimarães Rosa que disse: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem. Ficam encantadas”. 

Em meio aos debates, Pedro Carneiro de Araújo da Arquidiocese de Fortaleza recorreu ao livro de Amália Xavier para lembrar que Padre Cícero se sujeitou aos Decretos do Santo Ofício e foi absolvido em Roma quando uma carta enviada ao então Bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, pedia para não considerá-lo contumaz. Todavia, o apelo do Vaticano foi desconsiderado e tudo continuou como antes. No final da manhã desta sexta-feira houve mais um Testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Dona Rosinha do Horto.


Para o antropólogo Carlos Steil, a reconciliação de Padre nem começa e nem termina num documento da Igreja
      O conferencista da noite desta quinta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?" foi o professor e antropólogo Carlos Alberto Steil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele falou sobre "Caminhos da Reconciliação no Juazeiro do Padre Cícero para uma platéia que teve dentre os presentes o teólogo Leonardo Boff, que será o conferencista das 15 horas desta sexta-feira sobre o tema: "Padre Cícero à luz do Papa Francisco".

      Para Carlos Steil, a reconciliação nem começa e nem termina num documento expedido por meio de uma autoridade da Igreja, mas envolve muitos do passado e a todos nós já que não dá para pensar na questão colocando-se do lado de fora. Ele considerou que o caminho foi aberto e não poderá se fechar após definir o Padre Cícero como o santo mais popular do país. Segundo declarou, o sacerdote não se deixou seduzir pelo projeto de modernização e romanização imposto pelo clero reformador.

      O conferencista disse mais que Padre Cícero não se envergonhou do primitivismo e procurou se inserir na cultura do povo pobre cuidando e amando a todos sem jamais trair sua consciência após escolher Juazeiro para sua missão. Mesmo assim, Carlos Steil observou que a reconciliação impulsiona a ação de Padre Cícero no seio da Igreja como sacerdote que foi na defesa de um projeto que incluiu os pobres na modernidade indo de encontro às elites.

      Em meio aos debates, a Irmã Annette Dumoulin lembrou que, durante 19 anos de vida sacerdotal, Padre Cícero gozou da estima dos dois primeiros bispos do Ceará no caso Dom Luiz e Dom Joaquim Vieira por conta do modelo de evangelização. Depois, passou a ser mal visto e até condenado. Antes de encerrar sua conferência, Carlos Steil revelou que quando está em Juazeiro é contaminado pela paixão e observou que as coisas acontecem com bastante velocidade por aqui.

Romarias de Bom Jesus da Lapa e de Juazeiro e a experiência do Caldeirão no Simpósio de Padre Cícero
      A professora Maria Lucia Alves, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, estabeleceu um contraponto entre as romarias em Bom Jesus da Lapa (BA) e Juazeiro do Norte na manhã desta quinta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?". Pela primeira vez em Juazeiro, ela disse que conhecia apenas pela literatura e reportagens e confessou sua emoção dizendo ser preciso conhecer de perto o lugar para perceber o misticismo.

       Nascida em Bom Jesus, lembrou que as peregrinações ali tiveram o dedo do Monge Francisco e, em Juazeiro, de Padre Cícero. Sua pesquisa de mestrado baseou-se no catolicismo oficial e popular, enquanto a de doutorado teve como foco o pluralismo religioso. Sobre Juazeiro, considerou o tema “reconciliação” controverso e polêmico e, mais à frente, observou que “se não fosse a beata, não teria o milagre”. Na terra de Padre Cícero viu que os lugares sagrados são distintos e distantes.

       Quanto a Bom Jesus, comparou tratar-se de um circuito com 15 grutas em torno de um santuário e onde uma catedral está sendo construída. Entretanto, nesses dois contextos observou que os “santos” locais dividem espaços com os santos romanizados. O Tema central da Mesa Redonda foi: "Apropriações e usos: Cultura, ecologia e economia" e teve como expositor o professor Edin Sued Abumanssur, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

       Após afirmar que, para alguns no Brasil, romaria é turismo de pobre, ele traçou comparativos entre tipos de peregrinações classificando as de Juazeiro como de destino final e local de força montado na razão maior da visita “não importando como chegar e sim chegar”. O outro seria mais pontuado na maneira como se chega sendo a razão da peregrinação sem observar uma importância maior para o lugar, passando apenas na porta do santuário e indo para as baladas.

      Membro da Pastoral da Terra da Diocese de Crato, o padre Vilecy Basilio Vidal fez referências às romarias ao Caldeirão do Beato José Lourenço em Crato após considerar que o tipo de visão religiosa do Padre Ibiapina influenciou o Padre Cícero. Nesse aspecto, lembrou os conselhos do sacerdote caririense no sentido de tornar cada sala um oratório e cada quintal uma oficina. Ou seja, oração e trabalho a exemplo do que ocorria na comunidade do Caldeirão.

      De acordo com o padre Vilecy, o sítio chegou a reunir cerca de 400 famílias e algo em torno de duas mil pessoas dentro de um modelo de desenvolvimento sustentável com forte apelo religioso, fartura, alegria e exemplo ecológico para o Nordeste. Na reta final da manhã houve mais um Testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Mestres da Cultura Popular. No início da tarde, os Minicursos: Arquivos e pesquisas sobre o Padre Cícero: uma "cronogenealogia" para o grande acervo com Renato Casimiro e “Um olhar em preto & branco sob a luz de Juazeiro” com Nívea Uchoa.


Professora norte americana palestra sobre a idéia do romeiro em torno do contexto da reabilitação de Padre Cícero
A conferencista da tarde desta quarta-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", foi a professora Candace Slater da Universidade de Berkeley (USA). Ela costuma fazer levantamentos minuciosos sobre as expressões dos romeiros que visitam Juazeiro do Norte e, ultimamente, tem procurado ouvir respostas dos peregrinos sobre esse novo contexto que foi o tema central de sua fala. Como sintetizou, no final das contas o que importa para eles é a sua relação de bem estar com o “Padim”.

     A pesquisadora tratou de reproduzir um pouco sobre o sentimento dos romeiros nessa convivência religiosa dentro dos novos fatos. A crença forte que Padre Cícero é um santo, não se separa dos peregrinos como voltou a atestar e o professor e historiador, Renato Casimiro, acrescentou que o povo já canonizou o sacerdote. Enquanto isso, a Irmã Annette Dumoulin observou quanto ao receio externado pelos fiéis de que a Igreja se aproprie e lhe tome o seu santo.

       Para o bispo emérito da Diocese de Crato e presidente de honra do evento, dom Fernando Panico, Padre Cícero já está dentro do templo vivo que é o coração do romeiro. Ele elogiou a exposição feita pela professora Candace Slater sobre o tema da reconciliação e acrescentou que “Padre Cícero é uma maravilha de Deus nas nossas vidas”. Para Dom Fernando, chegará um dia em que a misericórdia fará justiça. Ao término da conferência, aconteceu a performance musical "Afilhados do Padrinho" e Show do Poeta Zé Viola.

       Na noite desta quarta-feira, houve uma sessão solene da Câmara para a outorga de títulos de cidadania ao bispo da Diocese de Crato, dom Gilberto Pastana e oito sacerdotes. Já na Mesa Redonda das 08h30min desta quinta-feira estará o professor Edin Sued Abumanssur, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o qual falará sobre: "Apropriações e usos: Cultura, ecologia e economia". No final da manhã, mais um testemunho à “Sombra do Pé de Juá” com Mestres da Cultura.

Arcebispo de Maceió aponta semelhanças entre os princípios de Padre Ibiapina e Padre Cícero
    Para o Arcebispo de Maceió (AL), dom Antonio Muniz Fernandes, Padre Cícero não está desligado do princípio apostólico do Padre Ibiapina e suas vidas se cruzam. A afirmação foi feita na manhã desta quarta-feira durante a Mesa Redonda: "Romeiras e Romeiros: Juventude e Gênero" no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?", que acontece em Juazeiro. Os debatedores foram os professores Sávio Cordeiro e Adriana Simião da Silva (URCA) e Maria das Graças de Oliveira Costa Ribeiro (IFCE).

     Não obstante ter sido um grande nomes do clero nacional, Dom Muniz observou que Ibiapina foi esquecido ao passo que a nação romeira jamais esqueceu o padre caririense. Conforme o Arcebispo, ele foi afastado da cena e renasceu pela devoção e admiração de estados próximos quando o Ceará foi junto. Dom Muniz defendeu ainda um resgate das figuras superioras da Casa de Caridade que, como disse, o Padre Cícero escolhia de forma exemplar.

       Na sua fala, a professora Maria das Graças discorreu sobre as cartas que chegam para o Padre Cícero em Juazeiro enviadas por pessoas de vários lugares do pais que não puderam vir. Os conteúdos são de desabafos, pedidos por meio da intercessão do sacerdote junto aos santos e agradecimentos chamando a atenção para um grande número de correspondências de jovens. São desde apelos para se livrar da feiúra ou aprovações em concursos, quanto ligadas a relacionamentos até homoafetivos ou de políticos que almejam vencer eleições.

     Já o professor Sávio Cordeiro opinou que a romaria tem muito de sacrifícios pessoais e, na sua exposição, considerou o avanço dos evangélicos como “agressivo, inescrupuloso e mercantil”. Antes, a professora Adriana Simeão tratou sobre a pesquisa em torno das experiências sócio religiosas das mulheres que vem ao Juazeiro a qual transformou no livro: “Vidas e Romarias”. Ela confessou encantamento com o caldeirão das manifestações dentro de práticas de um catolicismo popular que remonta ao tempo de Padre Cícero.

Peregrinações pelo mundo motivaram debate sobre romarias e turismo religioso no Simpósio de Padre Cícero
     Pela primeira vez no Brasil, que ouvia falar apenas por conta do futebol e do carnaval, o Antropólogo John Eade da Universidade de Roehampton em Londres foi o conferencista da noite desta terça-feira no V Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero: "Reconciliação... e agora?". O evento é promovido pela Universidade Regional do Cariri (Urca) e ele falou sobre o tema: “Novos caminhos em estudos de peregrinação: desenvolvendo uma abordagem global”

     Como disse, a Igreja quer promover peregrinações mesmo reunindo grupos de pessoas de diversas crenças fazendo menções a locais de devoção como, por exemplo, o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes na França e os caminhos de Santiago de Compostela no noroeste da Espanha. De acordo com John Eade, muito promovidos pelo conselho europeu e apresentando uma diversidade de peregrinação onde o que interessa é a energia do caminho.

      Para o conferencista, são vários os motivos e interpretações na jornada desde suas residências aos locais de devoção. Ele já escreveu um livro sobre peregrinações na Europa e observou a necessidade de todas serem bem vistas no Cristianismo que está mudando no contexto mundial. A palestra do Antropólogo causou uma provocação do bispo emérito da Diocese de Crato e presidente de honra do simpósio, dom Fernando Panico. Para ele, o desafio dos próximos eventos é procurar distinguir sobre romarias e turismo religioso.

      O mesmo confessou que se questiona muito quando vê a realidade no Nordeste com muita gente pobre nos caminhos até com penitencia corporal enfrentando viagens longas e desconfortáveis, porém sempre com alegria: rezando e cantando nas estradas. Ele disse que esteve em Brasília para tentar compreender melhor esse contexto, mas percebeu que o Ministério do Turismo não detém interesse por romarias e sim o turismo que pressupõe o capital.

      Nessa vertente, John Eade destacou os diferentes tipos de peregrinações e até questionou se uma local poderia se tornar global. Já o Antropólogo Carlos Steil, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observou que as peregrinações tem um efeito transversal e se faz presente nas romarias tradicionais como em Juazeiro diante de características comuns. O conferencista historiou sobre a origem das peregrinações em que os teólogos eram hostis e questionavam se a pessoa não poderia fazer tudo no seu local de origem.

       Para esta quarta-feira, dia 22, o palestrante da Mesa Redonda das 08h30min, no Memorial Padre Cícero, será o Arcebispo de Maceió (AL), dom Antonio Muniz Fernandes que falará sobre "Romeiras e Romeiros: Juventude e Gênero". Já às 16 horas a conferência será da professora Candace Slater, da Universidade de Berkeley (USA), a qual falará sobre: "Algumas respostas dos romeiros à reconciliação". No período da noite haverá a cerimônia de entrega de títulos de cidadão juazeirense ao Bispo Dom Gilberto Pastana e mais oito sacerdotes.
Assessoria de Imprensa do Simpósio





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