segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O MILAGRE DE JUAZEIRO (Fernando Maia da Nóbrega)

           
No ano do centenário de morte da Beata Maria de Araújo, bem como, decorridos oitenta anos do falecimento do Padre Cícero Romão Batista, é oportuno se debruçar sobre os pretensos milagres ocorridos em Juazeiro do Norte, a partir de 1889, envolvendo os dois protagonistas desses fatos.
       Muito embora haja farta literatura abrangendo o assunto, a história real, verdadeira, ainda é bastante distorcida pelo público, gerando falsas interpretações e julgamentos tendenciosos, mormente por pessoas não especializadas na matéria, justificando, destarte, mais uma abordagem.
      Tudo teve início em 1º de março de 1889. Após exaustivo dia de confissões e comunhões, Padre Cícero ao ministrar a eucaristia à beata Maria Magdalena do Espírito Santo Araújo, constatou estupefato que a hóstia consagrada havia se transformado em sangue! Diante da gravidade do assunto o reverendo achou por bem silenciar. Entretanto, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, contrariando os desejos do Padre Cícero, divulgou oficialmente perante mais de três mil pessoas assistentes de uma missa, na Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, os acontecimentos extraordinários ocorridos anteriormente. Durante o ato litúrgico o reverendo exibiu aos atônitos fiéis as toalhas tintas de sangue!
            A notícia se espalhou rapidamente por todo o nordeste brasileiro atraindo milhares de romeiros a Juazeiro. Em Iº de maio de 1891, 20 mil pessoas presentes à missa realizada na matriz de Juazeiro assistiram ao momento em que a hóstia, novamente em contato com a boca da Beata, se transformou em sangue! Entre todos se destacava um médico do Rio de janeiro, Dr. Marcos Madeira, que clinicou imediatamente Maria de Araújo, a qual  apresentava um estado de êxtase, total arrebatamento espiritual, e de sua boca entreaberta, foi retirada a partícula de massa, ministrada na eucaristia, com marcas de sangue. Verificou também o médico que no corpo da Beata havia feridas sanguíneas nos pés, mãos, nas vértebras dorsais e  testa. Para espanto de todos, do corpo de Maria de Araújo brotava sangue nos mesmos lugares do Cristo crucificado!  Um milagre divino em pleno sertão nordestino!
            Contrariando a expectativa geral, em 18 de novembro de 1891, a Igreja Católica se pronunciava sobre os fenômenos ocorridos em Juazeiro, taxando-os de enganosos e falsos e não aceitando como científico o laudo emitido pelo Dr. Marcos Madeira  afirmando que Beata não estava doente e garantia que a aparição da hóstia era “(...) um fato sobrenatural para o qual não me foi possível encontrar explicação científica (...)”.
            Vale ressaltar que Dom Joaquim, Bispo da Diocese do Ceará, enviou para Juazeiro uma Comissão de Inquérito com o intuito de apurar os fatos ocorridos e foi constatada pelos integrantes a veracidade absoluta dos fenômenos sucedidos. Inconformado, Dom Joaquim mandou uma segunda inquisitiva que chegou ao resultado aspirado pelo Reverendo negando, desta forma, a possibilidade de manifestação milagrosa.
            Daí em diante a repressão eclesiástica se fez presente. No dia 10 de novembro de 1891, uma portaria de Dom Joaquim proibia a todos os sacerdotes de sua jurisdição de confessar, pregar e celebrar qualquer festa religiosa na cidade de Juazeiro.
            Já em 1897, a Igreja católica ameaçava o Padre Cícero de excomunhão caso não se retirasse do povoado no prazo de 10(dez) dias.
            Por fim, veio a palavra final da Igreja através da Suprema Congregação da Santa inquisição Romana Universal condenando definitivamente os milagres em Juazeiro.
            Hoje, cento e vinte anos após a ocorrência dos pretensos milagres, cem anos depois o falecimento da Beata, a Igreja ainda reluta em aceitar a transformação da hóstia em sangue e os estigmas de Maria de Araújo como milagre. Ainda é difícil a Igreja concordar que Deus possa ter se manifestado a um povo subdesenvolvido... Ela aceita como milagroso qualquer fato inexplicável e provado... se ocorrido na Europa.
             O povo, porém, teve a coragem de santificar um homem, o Padre Cícero, que um século antes da própria Igreja fez a opção pelos pobres. O povo teve a ousadia de cultuar uma mulher analfabeta, negra, no caso, Maria de Araújo.  Quem pode duvidar? Afinal como disse o Profeta Isaías 43;13 “Agindo Deus quem impedirá?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por que o Padre Cícero foi excomungado?

José Pereira Gondim

Há mais de cem anos a Igreja Católica Apostólica Romana excomungou o Padre Cícero Romão Batista, todavia, ultimamente já chega a celebrar missas em honra de sua memória, nas quais lhe dá "vivas" em abundância, muito embora nunca tenha sinalizado com uma data certa, onde um perdão oficial por parte dessa Entidade seria adicionado a sua trajetória de bom cristão. Durante longo período, no Brasil e por todo mundo católico, beatos e santos foram surgindo, no entanto, um ato de amor e perdão por parte da Igreja, e no tocante ao Padre Cícero, jamais foi cogitado, o que suscita as indagações: Onde andará esse amor pregado pela Igreja? E o apregoado perdão, onde reside? O Imperador Romano Flávio Valério Constantino (São Constantino) foi "guindado" a santo pela Igreja, apesar de ter mandado matar um filho, a esposa, dois meios irmãos, três sobrinhos e o sogro, enquanto o Padre Cícero não se enquadra em nenhum ato de violência. Muito pelo contrário foi conselheiro da massa, dos miseráveis, Prefeito, Deputado Federal e Vice-governador do Estado do Ceará. Foi também eleito o cearense do século, homenageado com a terceira maior estátua de concreto do mundo, e, além do filho mais ilustre de Juazeiro do Norte, a segunda maior cidade do Ceará, seu nome, literalmente é responsável por uma das maiores romarias do Brasil, ou a visita, exclusivamente a seu túmulo, anualmente, por 2,5 milhões de romeiros, ou pessoas de todos os extratos sociais do Nordeste, do País.

Quando a Igreja vai devolver as ordens sacerdotais do filho mais ilustre do Juazeiro, Padre Cícero Romão Batista excomungado há mais de um século?

Quando também devolverá os restos mortais da beata Maria de Araújo exumados clandestinamente por monsenhor José Alves de Lima visando o seu "descanso" em local conhecido e de acordo com a tradição cristã?

O entendimento do pretenso milagre do Juazeiro é uma questão meramente de fé (assim como falou Pio XII sobre a existência de Jesus, num Congresso sobre História, em 1955), pois os fatos "miraculosos" envolvendo sangue, como San Genaro, em Nápoles, e outros mais na Europa, além de polêmicos não são unanimidade quanto à procedência sobrenatural. Se você é juazeirense, nordestino, simpatizante da causa da reabilitação do sacerdote, romeiro residente ou não na Cidade, admirador ou não do Padre Cícero, mas, uma pessoa inimiga de injustiças tem plena condição de atuar na reversão do quadro (devolução in memoriam das ordens sacerdotais) mostrando a Igreja que faz parte daqueles que não veem com bons olhos esse comportamento cínico (celebra missas, e dá "vivas" ao Padre Cícero, no entanto, se nega a dar-lhe o perdão) e oportunista da Entidade. Junte-se a mim nessa "cruzada" e quando formos milhares, milhões a gente marca a data desses eventos, pois nada nesse mundo pode ir contra a vontade do povo unido e ciente do que quer, e nem mesmo a Igreja. O Vaticano sabe disso pode crer!

"Não seria justo e honesto trocar-se tanta missa e "vivas" em homenagem ao Padre Cícero por um pouco de amor e perdão através da Igreja e traduzidos na devolução de suas ordens sacerdotais"? "O "perdão informal" é ganhar tempo, não tem valor"!

"A Igreja pode até não querer, mas, os devotos e admiradores do Padre Cícero exigem dela a devolução de suas ordens sacerdotais, plenamente confiantes de que a 'voz do povo é a voz de deus', ou essa Entidade ignora ou não sabe disso"?

O perdão do Padre Cícero só depende de você! Use uma camisa, porte um cartaz ou uma faixa exigindo esse perdão que a Igreja cede. Faça circular um manifesto igual a este, na próxima semana, no próximo mês que a Igreja muda de atitude!

Durante quase um século, os fiéis, devotos e admiradores do Padre Cícero rezaram benditos, jaculatórias e nada conseguiram. E chegado o momento dos "manifestos, das passeatas", do contrário vamos morrer sem constatar a mínima mudança!

Afinal, que significam amor e perdão para a Igreja? Esperar mais cem anos? Já basta de Comissão de Estudos que a nada leva. Se a Igreja a não muda, mude você!

Assim como eu tome a iniciativa e reproduza esse manifesto, ou crie outro, no entanto, junte-se a mim e quando formos milhões a Igreja acorda, desce do muro!

NOTA: Não vai ser completamente estranho pra esse Autor, se pessoas que se dizem devotos, admiradores do Padre Cícero, mas, que nunca tiveram qualquer tipo de iniciativa para com o problema, ou de se exigir formalmente uma solução da Igreja sobre o assunto entenderem que o mesmo procura se promover. Pensem o que quiserem, mas, seu objetivo está ligado ao combate à injustiça tomando por base uma declaração de Martin Luther King: "Para criar inimigos não é necessário declarar guerra a eles, basta somente que você diga o que pensa". AMÉM!

José Pereira Gondim é um cidadão que abomina oportunismo e injustiças, autor das trilogias (livros): A Forja do Cinismo e Jesus e o Cristianismo, onde esse e outros temas conflitantes são tratados com responsabilidade, mas, sem eufemismos. Como não se trata de denúncia anônima o documento é assinado, pois a Igreja poderá optar em excomungá-lo, processá-lo, ou mesmo torná-lo "persona non grata" por se manifestar diferentemente da maioria.






terça-feira, 24 de junho de 2014

O Padre Cícero é santo - Fernando Azevedo

É Deus o único Santo por Si próprio, assim nos ensina a Tradição Católica. Dizemos muitas vezes na Missa: Só Vós sois o Santo, Só vós o Senhor. Entretanto, graças à Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo, atualizada na Igreja pelo Espírito Santo, todo batizado é portador da santidade, presença viva nele, do próprio Jesus Cristo; cujo Espírito nos santifica, e conduz à santificação completa, "sem a qual ninguém verá o Senhor". Não é a Igreja que santifica, mas Cristo, Vivo e atuante na Igreja, Quem santifica os fiéis pelo Seu Santo Espírito. A Graça, com efeito, não é dada somente para remissão dos pecados, mas também para incremento de vida sobrenatural, sempre frutífera, fecunda em boas obras. Jesus deu a receita para que todos tivéssemos nEle a santidade, que é a vida espiritual da Graça. "Todo ramo que permanece unido a mim, frutifica". O Padre Cicero é santo, porque sua vida, suas boas obras, seu testemunho de fidelidade à Igreja, mesmo em contradições institucionais, são inegáveis. O próprio Jesus nos deu o sinal de verdadeiros profetas: "Pelos seus frutos os conhecereis". O Padre Cícero foi e é até hoje, arauto da unidade na Igreja, símbolo vivo de uma Igreja que é ao mesmo tempo militante, padecente e triunfante. Uma Igreja composta de homens, mas por Graça e Presença Viva do Fundador, SANTA. Todos nós somos chamados a ser santos. "Sede santos como Eu Sou Santo". E para ser santo não precisa, como já foi dito, nem rezar muito, nem sofrer muito...Mas AMAR muito. Cada um de nós pode amar e dar um pouco mais de amor à Igreja, à humanidade, e ao mundo. O Padre Cícero fez isso a vida toda, amando e servindo os irmãos. Não fez dos "milagres" sua bandeira, mas dos pobres, a sua missão, como genuíno seguidor de Cristo pobre. Foi aos pobres que destinou Deus por Jesus, o anúncio do Evangelho. Ele mesmo o afirmou: "para proclamar o Evangelho aos pobres". E o Padre Cícero foi fiel, como santificado pelo Espírito da Vida e da Verdade, a lutar pela vida, e proclamar a Verdade da libertação evangélica aos pobres, dos quais é o Reino dos Céus. À medida que a Igreja se aproxima mais das suas fontes primitivas, reconhecendo seu tesouro verdadeiro, que é como já dizia São Clemente, Papa...OS POBRES...Aqueles testemunhos mais vivos da santidade próxima da santa pobreza, são reconhecidos, são declarados santos e assim canonizados. Temos agora um Papa com nome de FRANCISCO, e é de esperar que em breve tenhamos mais um santo dos pobres, um santo do povo, o Padre Cícero de Juazeiro. Assim Seja. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dom Samuel Dantas de Araújo: três sonetos sobre figuras da história do Ceará

O BISPO DOM JOAQUIM…

Como tantos outros antes de vós
Ao funesto cancro da inveja sucumbistes
Movendo a nosso padim, perseguição sem limites
Injusta, iniqua, criminosa e atroz

Vós, um alto dignitário da santa Igreja
Procedestes como um feroz tirano
Impiedoso, autoritário e desumano
Vítima do monstro chamado inveja

Por vossa causa, um homem justo e santo
No silêncio do seu calvário, padeceu tanto!
Como se da humana justiça fosse um réu…

Vos  comportastes como os vís algozes
De Jesus, que entre sarcasmos e blasfêmias atrozes
Deram-lhe para beber, amaríssimo fel.

A BEATA MARIA DE ARAÚJO

A semelhança do divino e manso cordeiro
Fostes neste mundo duramente perseguida
Passastes todo o curso de vossa sofrida vida
Misticamente cravada em um madeiro

Sem terdes tido jamais um instante de sossego
Trazíeis em vosso peito, de Cristo o amor
No corpo  portáveis  as dores do vosso Senhor
Perseguida por um invejoso néscio e cego

Deus porém, que não deixa sem copiosa recompensa
Quem nesta vida o serve, buscando-lhe a glória
Vos reservou no céu uma alegria imensa!

E já que estais, ó beata, de Deus tão perto
Rogai pelos que defendem na terra vossa memória
Enquanto peregrinam neste árido deserto.

AO PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Fidelíssimo dispenseiro da palavra divina
Digno administrador dos santos sacramentos
Santo entre os santos, bento entre os bentos
Cuja vida, nosso Cariri até hoje ilumina.

Pastor piedoso, que elegestes a dama pobreza
Como a suave companheira de vossa vida
Que fizestes da salvação do próximo, vossa ocupação preferida
E tivestes somente no céu, a única e verdadeira riqueza.

Vós que passastes por este mundo qual uma estrela
Peregrina, por Deus destinada a espargir a divina luz
Nos miseráveis perdidos que não conseguiam vê-la…

Ó santo já canonizado por todo querido nordeste
Na excelsa ventura da pátria eterna e celeste
Rogue por seus devotos ao Senhor Jesus…


quinta-feira, 3 de abril de 2014

SONETO LAUDATÓRIO AO PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Ó tu que passaste por este vale de dor
de miséria, de erro, de desacerto, de pranto
semeando a paz, a verdade e o amor
qual verdadeiro cristão, um autêntico santo

tu...que sentiste dos homens a inveja
e por iníquos decretos foste condenado
tu...que sempre obediente a santa igreja
soubeste a calunia odiosa sofrer calado!

tu que neste mundo...pavoroso caos
onde não raro triunfam os maus
viveste desprendido dos bens passageiros!

tu...que já ultrapassaste a tão temida morte
roga por essa multidão de cansados romeiros
que sempre acorre a teu Juazeiro do Norte!

Salvador, 2 de Abril de 2014
DOM SAMUEL DANTAS DE ARAÚJO, OSB
Monge do Mosteiro da Bahia
Zelador do Noviciado

domingo, 23 de março de 2014

Juazeiro do Norte comemora 170 anos de Padre Cícero Romão

23.03.2014
O aniversário será lembrado com várias atividades, entre elas uma Caravana que percorrerá o Brasil


Sacerdote ainda é venerado por milhares de fieis
de muitas regiões do Nordeste.
Foto: Eduardo Queiroz
Juazeiro do Norte. Um santo, visionário, profeta, conselheiro das massas ou um homem extraordinário. Todas essas definições podem caber muito bem para o cearense que ultrapassa as fronteiras da transcendência. Aos 170 anos de aniversário, completados amanhã, o Padre Cícero Romão Batista, 80 anos após a sua morte, chama a atenção de estudiosos de diversas partes do mundo.

Livros lançados sobre sua vida se tornam best-seller ou são até reeditados depois de quatro décadas. As obras também tornam-se produtos atrativos para uma boa leitura, pela análise de sua história.


Diante da dimensão da data de aniversário do religioso tão conhecido pelo Brasil afora, a partir da próxima quarta-feira, 25, sai por diversos estados do Brasil a Caravana do Meu Padim, com várias relíquias do sacerdote e do município de Juazeiro do Norte.

O caminhão, que leva muitos pertences importantes do religioso, irá percorrer os municípios brasileiros com uma instalação itinerante e bem diversificada para atrair olhares de curiosos e também de pesquisadores.

O percurso de milhares de quilômetros a ser seguido pela caravana pelo País afora, ainda é indefinido quanto à quilometragem. Durante a viagem serão colhidas assinaturas durante a viagem, para serem entregues ao Papa Francisco, como forma de chamar a atenção para o processo de reabilitação.

Os documentos pertinentes ao assunto já foram entregues pela comissão de reabilitação à Congregação para a Doutrina da Fé, em 2006. Ainda hoje não se tem nenhuma informação sobre o andamento do processo.

História e estudos

Muitas são as atividades para lembrar o
aniversário natalício do religioso, tão amado
 por seus devotos, entre elas uma Caravana
intitulada Meu Padim com reliquias do sacerdote
e também do município.
Foto: Elizângela Santos
O Padre Cícero Romão Batista nasceu no dia 24 de março de 1844, na cidade de Crato, e morreu, 90 anos depois, no dia 20 de julho de 1934. Em março de 1865, ingressou no Seminário de Fortaleza, para seguir a carreira eclesiástica, onde foi ordenado em novembro de 1870.

Em abril de 1872, com 28 anos de idade, Padre Cícero Romão passou, então, a residir em Juazeiro do Norte, onde foi vigário e também prefeito.

O religioso por anos vem sendo analisado por muitos estudiosos. Prova disso é que pesquisadores, este ano, irão se debruçar nos estudos do IV Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero E ...Onde está ele?, que será realizado de 16 a 20 de setembro deste ano.

A temática do evento mais um vez envolve o sacerdote, em busca de maior aprofundamento dos estudos sobre a atual condição em que é visto pela sociedade e o que ainda poderá ser explicitado a seu respeito, do ponto de vista da natureza histórica, sócio-política, antropológica, dentre tantos outros aspectos.

Enquanto o Simpósio não é realizado o Padre Cícero Romão será lembrado de outra forma: através da Caravana do Meu Padim. Para o coordenador da Caravana, Marcelo Fraga este será mais um grande itinerário, desta vez a ser seguido Brasil afora, para levar o nome e a história do religioso até as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de estar em Juazeiro do Norte.

Ele está ansioso quanto à surpresa que a caravana poderá causar, mas ao mesmo tempo lembra que ano passado a exposição com as relíquias do Padre Cícero foram expostas no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no bairro do Limão, em São Paulo, quando na oportunidade, percebia nas pessoas que visitaram o espaço a alegria de estar tendo acesso ao material.

Para o escritor Geraldo Menezes Barbosa, aqueles que jamais pensaram em ver algo relacionado à história do Padre Cícero, chegam em Juazeiro do Norte e parecem sentir que tudo foi verdade, pela expressão da segurança como os objetos pertencentes ao religioso aparecem aos olhos do moderno. "Mostra a verdade e o que era a beleza histórica do Padre Cícero", disse.

Mais fiéis

São quase 90 anos de vida do religioso e o escritor afirma não acreditar que as romarias estejam diminuindo, mas se multiplicam com as novas gerações. "Mudaram os números, mas o poder da fé continua da mesma maneira", avalia. Quanto à reabilitação do Padre Cícero, ele não acredita que haja tão cedo o reconhecimento. Conforme avalia, a Igreja sempre estará protelando essa análise e isso confirma que já foi decido pela igreja. "Mas a fé do Padre Cícero tem a força da imortalidade", ressalta.

Ainda conforme o escritor Geraldo Menezes, mesmo após os 170 anos de nascimento do Padre Cícero Romão, há mudanças na forma de ver o sacerdote, a partir das novas gerações. "O mundo é uma eterna mudança, mas no fundo, a história de Juazeiro do Norte tem essa raiz inabalável, que é o produto do milagre", afirma.

No dia 20 de cada mês, a data tradicional das missas do Padre Cícero, reúne na praça do Socorro milhares de pessoas e não foi diferente na data anterior ao seu aniversário, e também amanhã, cedo, quando será cantado o parabéns ao homem que se tornou santo para muitos sertanejos. "Esse, que significa um pai amoroso. Mesmo antes de ser afastado de ordens, já era considerado dessa forma pelos romeiros que o procuravam para conversar, pedir orientações e conselhos a ele", afirma o escritor Geraldo Menezes.

Bom sacerdote

"É uma expressiva demonstração de fé a uma pessoa santa, um padre virtuoso que morreu com a punição de suspensão das ordens declarada pela Igreja, da qual nunca se afastou", diz o pesquisador Daniel Walker.

Para ele, Padre Cícero Romão Batista está canonizado pelo povo cearense, e de outras regiões, e a própria igreja sabe disso. "Padre Cícero é uma das personalidades mais festejadas que conheço. Até no aniversário de morte, dia 20 de julho", diz Walker, ao traduzir de forma simples o carisma e a grande devoção popular ao pároco, que fundou o município de Juazeiro e incentivou o seu desenvolvimento, sob o lema da fé e do trabalho.

Programação

A Semana Padre Cícero, dentro da programação pertinente ao seu aniversário natalício, inclui desde encontros e debates, a elaboração do tradicional bolo de aniversário, a ser instalado na praça do Socorro, a 32ª edição da Corrida Padre Cícero, que sairá da Praça da Sé, no Crato, chegando na Praça Padre Cícero, em Juazeiro, e a apresentação de grupos de tradição popular.

O Padre Cícero sempre gostou de comemorar o seu aniversário. Tanto que festejou os seus 90 anos com grande festa na cidade. Nesse dia foi feriado e começou com uma alvorada festiva e show pirotécnico, além de um almoço servido em sua casa.

O feriado continua, tanto que em todo o Estado, no dia 19 o comércio, escolas e repartições públicas são fechados, mas a cidade dá preferência à data de 24 de março, e funciona normalmente no Dia de São José. E tem também o bolo gigante. Os parabéns e o apagar das velas para o aniversariante acontece pouco depois da meia-noite.

Mais informações:

Caravana do Meu Padim
Rua Padre Cícero, 499
Centro
Juazeiro do Norte - CE
Telefone: (88) 8827.4015

Elizângela Santos
Repórter

FIQUE POR DENTRO
O suposto milagre do religioso

Em 1889, durante uma comunhão, a hóstia consagrada por Padre Cícero sangrou na boca de uma beata chamada Maria de Araújo. O povo considerou o fato um milagre. As toalhas utilizadas para limpar o sangue tornaram-se objetos de adoração. A notícia espalhou-se e Juazeiro começou a ser visitada por peregrinos, com a finalidade de conhecer de perto o religioso. Padre Cícero chegou a ser acusado por membros da Igreja de manipular a fé das pessoas e cometer uma heresia. O 'fenômeno' tomou proporções com sua divulgação em todo o Nordeste e foram realizados vários questionamentos sobre a veracidade do 'milagre'. A beata chegou a ser levada ao Crato, e o sacerdote foi punido com a suspensão de ordens, em 1894. Mesmo assim, uma grande quantidade de pessoas vinha à sua procura, e ele atendia com atenção e aconselhava a todos. Mesmo proibido de celebrar, ele lutou para ter a permissão da igreja. No ano de 1898, chegou a ir à Roma, encontrar-se com o papa Leão XIII. Durante a visita, ainda chegou a receber autorização parcial, mas ainda estava proibido de celebrar. Mesmo assim, continuava com suas orações junto com o povo, em Juazeiro.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Deus assina em baixo

Pedro Nunes Filho

Reabilitar Padre Cícero, por quê? O que ele fez de errado? Cometeu algum delito? Criminosos que andam na deslei é que precisam de reabilitação para se reinserirem no convívio social, e não mais voltarem a delinquir. 

Padre Cícero foi um homem de bem, um benfeitor da região que soube acudir o povo em estado de miséria absoluta.

A meu ver, quem precisa de reabilitação é a Igreja que errou feio. Roma é que carece se postar de joelhos e pedir perdão ao Padre Cícero e a todos os romeiros, que entenderam e incorporaram sua mensagem de fé, de simplicidade, humanismo e sabedoria. 

Padre Cícero já é santo e da forma mais legítima que pode haver: pelas mãos do povo ele subiu aos altares das casas humildes, sem precisar de processo de beatificação, muito menos de vultosos gastos com ridícula canonização, como costuma acontecer com pretensos santos. 
Acho que ninguém, ninguém mesmo, tem o poder de dizer que uma criatura é santa ou não. Na verdade, somos todos santos porque participamos da essência divina. Isso é o que importa. O julgamento dos homens e da Igreja é absolutamente irrelevante e dispensável. O homem é santo porque o povo assim o quis e Deus com certeza assina em baixo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A voz do povo é a voz de Deus?

   Lauro de Sá Barreto(*)  

      Agora é oficial: o próprio papa Francisco anunciou para breve a canonização do Padre Anchieta, após quase 400 anos de espera pela conclusão do respectivo processo, que teve início em 1617.
         Será o terceiro santo brasileiro. Nossa primeira santa foi a Irmã Paulina, nascida na Itália e radicada ainda criança em Santa Catarina, e o segundo, este sim genuinamente brasileiro, Frei Galvão, paulista de Guaratinguetá.
         Vem agora o espanhol de origem judaica José de Anchieta, natural das Ilha Canárias, onde nasceu em 1534, e brasileiro por adoção, pois aqui chegou aos dezenove anos de idade, onde desenvolveu notável trabalho de catequese entre os nativos. Foi um dos fundadores da cidade de São Paulo, poeta, historiador e estudioso da língua tupi. É, merecidamente, considerado como o Apóstolo do Brasil.
         Três santos, dois deles “naturalizados” brasileiro, é muito pouco para o país de maior rebanho católico do mundo. Os Estados Unidos, onde o catolicismo não tem a mesma força, já possui doze santos reconhecidos pelo Vaticano e quase todos legítimos filho da terra.
         Além deste minguado número de santos, é muito recente a presença de brasileiros nos altares da Igreja Católica: nossa primeira canonização, da Irmã Paulina, só ocorreu em 2002. E os processos mais antigos, como o da Madre Maria José de Jesus, filha do historiador Capistrano de Abreu, costumam ficar empacados anos a fio. Recentemente, a jornalista Anna Ramalho, sobrinha neta dela, publicou veemente artigo na imprensa reclamando da demora na canonização daquela que foi a primeira carioca beatificada, lá se vão mais de 20 anos.
         O mais grave, no entanto, é que nossos santos padecem de um “grave pecado”: não são bons de bilheteria, ou seja, não atraem uma plateia expressiva de devotos. É de se perguntar: você conhece algum devoto da Santa Paulina, do São Galvão ou do futuro São José de Anchieta? É difícil...
         Embora essa constatação não retire o mérito ou o grau da santidade de cada um deles, a verdade é que são santos que não empolgam a comunidade católica brasileira. E esta parece ser a tendência das próximas canonizações que podem se avizinhar, como, por exemplo, a da menina Odetinha e a do casal Zélia e Jerônimo, com processos de beatificação recentemente abertos com grande alerde pela Arquidiocese carioca: meros desconhecidos do grande público. E os próximos nomes cogitados vão pelo mesmo caminho: o médico surfista Guido Shäffer, cujo processo deve ser instaurado em maio deste ano, e o teólogo Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, que viveu maior parte de sua vida na Europa e é pouco conhecido entre nós.
         De apelo popular visível e considerável, só mesmo o Padre Cícero, cujo processo de reconciliação da Igreja com ele ainda engatinha lerdamente pelos corredores da Santa Sé, e a mineira Nhá Chica, de Bependi, recentemente beatificada, mas longe ainda da canonização. Ambos contam com imensa aceitação na devoção dos fiéis, embora a Igreja ainda não os tenha declarado santos.
         Fora isso, nossos candidatos à santidade possuem diminuta torcida de devotos, o que de certa forma torna sem graça suas candidaturas e lança uma dúvida: será que a voz do povo, que já consagrou o Padre Cícero e Nhá Chica, é mesmo a voz de Deus? Ou em matéria de santidade isso não tem nenhum valor?
         A Igreja precisa refletir sobre este tema reconhecer as opções da devoção de seu rebanho pode ser um caminho para ajudar conter o crescente enfraquecimento do Catolicismo.
             
______________
(*) advogado e escritor

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Época de romaria

Pedro Nunes Filho

Um mar de gente espalhada por toda parte. Em sua maioria, pessoas humildes, provenientes de vilarejos e sítios perdidos em terras distantes. No semblante de cada um, convicção e serenidade. Mesmo os que ali estão premidos pelos arrochos da vida e pela miséria não deixam transparecer suas dores, antes, semblantes de alegria e serenidade. Alguém que não tenha conhecimento do fenômeno religioso que um dia aconteceu de acontecer aos pés daquela serra imensa e lendária não teria a menor ideia da movimentação pacificiosa que ali se desenrola aos olhos de todos. Para uma aglomeração tão grande de pessoas, a única razão é a fé, a busca do transcendental. Acaso a motivação fosse outra, bastaria um barbudo qualquer metido a revolucionário dar um grito e pronto! A confusão seria grande naquele mar imenso de necessidades humanas. Mas o propósito de cada um ali, como já disse, é o exercício da fé, o desejo de agradecer, a crença num Deus que atende àqueles que suplicam e imploram a proteção divina. Basicamente, pedem chuva, pão, saúde, cura para os males que afligem o corpo e dilaceram a alma. 

Gente de todas as idades num exercício de amorosidade em duas dimensões: Deus e o próximo. Em cada esquina, penitência, orações e louvores. O Deus daquela gente humilde tem forma humana. Não conseguem crer num ser abstrato ou num conjunto de energias vitais responsável pela criação de múltiplos cosmos e de essências imutáveis. Seria irreal, distante. Melhor um Deus forte, valente, guerreiro, à moda do Antigo Testamento, sempre ao lado de seu povo na hora das necessidades que são tantas e desconhecidas dos governantes. Suas carências exigem respostas concretas, soluções radicais e imediatas. Não dar mesmo é para esperar. Não podem! Para muitos, esperar significaria morrer. Morte é tragédia, fim, fracasso existencial. Por isso, tanto sacrifício para obter graças e favores no plano material.

Muitos ali estão em busca de perdão por deslizes, fraquezas humanas ou por terem trilhado os caminhos da deslei. Não importa. O que vale mesmo é a presença, o testemunho e a fé num homem de palavra forte que ainda hoje consegue arrebanhar multidões e tangê-las para a banda de Jesus.

Verdade: quem passa por aquele reduto tido como sagrado nunca mais é o mesmo. Alguma coisa, por menor que seja, melhora em suas vidas depois de erguerem seus chapéus de palha para a bênção e de vivenciarem o exercício da caridade e do perdão. Humildade, arrependimento, penitências e ofertas para construir aquele reduto dedicado à benemerência são demonstrações concretas que atraem o olhar divino.
Melhor que um santo ausente ou distante é um pecador que incorpora as dores e sofrimentos do povo e delas participa, tentando minorá-las.   Ele era assim: de braços abertos, recebia chagados de lepra, aleijados, feridentos, cegos, loucos e todo tipo de criaturas que fediam e davam repugnância. Para ele, a alma não tem cheiro. Nem bom nem ruim. Com esta visão, recebia criminosos, cangaceiros, prostitutas, viciados, pessoas vítimas de injustiça, perseguição política, descriminação social ou qualquer outro tipo de degradação humana. Estava convicto de que o amor e a solidariedade é que dão significado à vida. Conselhos sábios, soluções práticas. Já naquele tempo, recomendava cuidados com o meio-ambiente.

Não elogiava nem condenava ninguém. Apenas escutava e compreendia. A solidariedade era uma nova forma de representar o sagrado, a única capaz de revolucionar a existência humana em qualquer época. 
Com a ação daquele homem, surgiu um humanismo preocupado em fortalecer o espaço público, coletivo e político em benefício de todos, mas especialmente daqueles que nada possuem. Incentivador de artes, ofícios e saberes, uma porta aberta para o trabalho e a profissionalização. Deu exemplos de como sair de si, de como superar o egocentrismo individualista e a opulência da instituição a que pertencia. Sua ação solidária se voltou para as pessoas, não para as abstrações. Dedicou seu tempo aos seres humanos de carne e osso, sacralizados pelo amor. Neste sentido, refundou um novo tempo que sequer foi percebido. Pregou uma transformação que atinge todos os setores da vida humana, uma mudança de perspectiva no plano coletivo. O sagrado não estava no cosmo, mas no outro. 

Não pretendo aqui embelezar os fatos, mas reexaminá-los sem os ranços de ideologias, preconceitos ou dogmas. 
Justiça!
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O AUTOR. Pedro Nunes, residente em Recife, é advogado e escritor, autor de vários livros entre os quais Guerreiro togado, que tem um capítulo sobre o Padre Cícero.